A minha Páscoa da ressurreição veio pelo tarô

 

Uma pergunta.

Uma foto.

Um áudio.

Um choro.

 

Foi assim que começou o meu domingo de Páscoa. E a partir daí ele foi uma repetição de choros, e conversas, e fichas caindo, e sombras aparecendo. Eu nunca tinha feito uma leitura de tarô, ou melhor, recebido uma. Na verdade, até pouco tempo atrás nem acreditava nisso, e até um tempo um pouco maior atrás, acreditava que era pecado. Das coisas que a gente aprende na igreja, que mesmo sem ser por mal, nos ensina que nada pode vir de Deus se não for vindo da Bíblia. Já faz alguns anos que eu entendi que Deus não está em uma única religião ou forma de ensino, e que ele se manifesta a partir de quem o busca, e não do objeto/ensinamento/pessoa, enfim.

Há poucos domingos mesmo, depois de ver online a pregação do Ed René, um dos poucos pastores em quem confio em tempos de cada pastor-político falando um absurdo maior que outro, caí no choro cantando uma música cristã, saí pro quintal pra contemplar Deus no pôr do sol por trás da montanha e agradeci a Ele por, entre outras coisas, se mostrar sempre presente pra mim e de formas tão variadas, em diferentes religiões, pessoas, mestres, gurus, filosofias, músicas, louvores, mantras. Na verdade minha frase foi: “Obrigada, Deus, você me conhece e me ama tanto que até meu valor da variedade você preenche”, rsrs. Dei risada de mim mesma, chorei, cantei, fiz um verdadeiro culto, só meu e dele com a bela paisagem como fundo. É essa a minha linda relação com Deus hoje, sem limites, sem caixa, sem “isso não pode vir de Deus”.

Até o tarô veio de Deus.

E voltando a ele… ganhei num sorteio de uma amiga, mas acho que foi o próprio God que me mandou de presente, porque a verdade é que já estava querendo. Experiências novas SEMPRE me atraem, e eu estava mesmo num dia de precisar de respostas, porque tinha acabado de lançar a segunda turma do meu grupo de mulheres A Coragem de Ser Autêntica, dando de graça pra quem quisesse, mas alguma coisa estava me dizendo que eu não estava fazendo isso “direito”. Então, quando a Maira – minha amiga que além de taróloga faz mandalas, é fotógrafa, psicanalista e mais uma série de coisas porretas – me explicou que eu deveria fazer uma pergunta para que ela tirasse as cartas, respirei fundo e digitei (sim, dá pra fazer a tiragem por WhatsApp porque esta era tá muito loka, né, gente?):

“Como eu posso não só crer, mas SENTIR que tudo que acontece é pro meu bem, e não que falhei em algum ponto?”

Não vou explicar o pano de fundo completo pra ter chegado nessa pergunta porque você vai se cansar de ler. Mas era EXATAMENTE o que estava sentido, naquele domingo, e no sábado, e na semana e dias antes. Já que estou falando de todas formas como Deus se manifesta, na Bíblia tem uma parte em que Paulo diz “o bem que eu quero eu não faço, mas o mal que eu quero, esse sim eu faço”. Sabe esse sentimento? Eu, Julie, acredito, DE VERDADE, que “o momento presente é sempre perfeito, porque Deus é perfeito sempre”, e portanto que tudo que acontece é pro meu bem. Mas em muitos momentos, na maioria eu diria, não consigo DE FATO sentir isso, fico me apegando nos erros, que eu ou os outros cometemos, repensando coisas que falei, estratégias que tive, coisas que não percebi, falhas que cometi, mágoas que guardei. E ISSO CANSA. Daí a pergunta, que eu fiz “para as cartas”, mas sabendo que elas são só um instrumento de Deus, assim como a Maira (e eu, e você, e este blog, e tudo o que fazemos que pode ajudar alguém – porque tá ligado que é só através de nós, humanos, e dos nossos dons e ações que Deus concretamente faz as coisas, né?).

Pergunta enviada, recebi como resposta uma foto com sete cartas expostas em formato de pássaro, que segundo a Maira foi a melhor tiragem que ela poderia fazer “para uma pergunta tão abstrata e profunda quanto a minha” (sorry, amiga). Olhei pras cartas e não entendi “bulhufas”, como diria meu avô ou alguém tão antigo quanto ele, mas imediatamente me conectei com alguns dos nomes que as descreviam: “fardo”, “culpa”, “rebelde”, “preguiça”. Tinha outras com nomes bonitos, como “celebração”, “voltando-se para dentro” e “inocência”, mas foram as mais “pesadas” que me deram aquele gancho no estômago, sabe aquele, de quando sabemos que tem algo errado perto de ser exposto? Então… Um pouco depois chegou “a exposição”, num áudio de quase 20 minutos em que ela dizia estar explicando as cartas, mas na verdade estava era me lendo do avesso, no sentido de de dentro pra fora mesmo. Ela é minha amiga, me conhece, e receber essa leitura não é uma questão de adivinhação, ou prever o futuro, mas de se eu iria me conectar com os sentidos que as cartas traziam ou não. E me conectar foi pouco…

Eu estava todinha ali

Parecia que alguém tinha tirado minha roupa no meio de uma multidão. Mais que isso (porque nudez não é tão tabu pra mim assim), parecia que alguém tinha entrado em cantinhos escondidos da minha mente, pego os pensamentos mais ocultos e colocado num outdoor na frente de todos os meus amigos. Vergonha foi o que mais senti. A Marry estava comigo ouvindo o áudio e até dela, que é a pessoa que MAIS me conhece, eu senti vergonha. “Você está prometendo autenticidade sem nem ser tão autêntica assim” foi uma das frases que mais me chocou, e pegou profundamente. E, como diz a Flávia Melissa, “bateu e doeu, leva pra casa que é teu”. Sim, bateu e doeu, profundamente. Não porque era uma interpretação incrível ou porque era da minha amiga, mas porque era verdade mesmo. TUDO uma VERDADE difícil pra caramba de admitir.

Ao mesmo tempo (e aí vem a parte de sentir que veio de Deus), eram verdades duras sendo ditas com muito amor, com delicadeza, com o cuidado de alguém que me ama e me admira. O que só aumentou a minha vergonha, claro, humana que sou, detestando estar errada como detesto. E o estar errada que mais detesto é justamente esse, de estar errada sobre mim mesma, de ter mentido pra mim mesma, sido vítima da minha própria enganação. Já contei aqui sobre o meu vício da mentira, no post “Eu sou uma viciada em recuperação”, mas o vício mais difícil de se reabilitar é aquele que acontece sem que a gente perceba, que é o caso de mentir pra si mesma, “é sempre a pior mentira”. É mesmo, e dói mais, porque não dá pra pedir desculpa pra alguém e se des-culpar, ou seja, se desfazer da culpa. E a culpa é um sentimento que me acompanhou por muito tempo na vida, do qual tentei e ainda tento me livrar, e ter aparecido ali em uma das cartas só me mostrou o quanto ainda tenho de me desapegar dela…

O grande soco

De tudo o que rolou nas horas seguintes, entre choros, áudios, mais choros, perguntas, respostas, novos choros e uma conversa de quase duas horas com ela por telefone, com ainda mais coisas vindo à tona e muito mais choro, o que mais pegou foi perceber que o meu incômodo com o lançamento do A Coragem de Ser Autêntica estava certo. Eu não estava num momento autêntico, não estava conseguindo ser eu inteiramente, estava trabalhando processos próprios e precisando olhar para uma série de outros com atenção. E fazer isso dói muito mais do que oferecer uma ajuda que eu sei que posso dar, né? E aí foi o que fiz. E o que instantaneamente, naquela noite de Páscoa que ainda estava sendo de morte pra mim, percebi que precisava desfazer.

Sim, desfazer o lançamento do grupo, desfazer os convites para mulheres fazerem gratuitamente, desfazer até o projeto no momento. Porque que tipo de pessoa pode prometer inspirar outras a terem a coragem de ser autêntica sem nem ela está conseguindo ser no seu íntimo?? Até os motivos para ter construído esse projeto eu percebi que estavam errados. Ele tem, sim, congruência com a minha missão de ajudar as pessoas a verem beleza nas diferenças para diminuir o preconceito. Mas quem disse que precisava ser com “o tal produto digital que se todo mundo tem eu posso ter também”? Posso, mas quem disse que quero? Não sei, talvez até queira mesmo, mas o fato é que ainda não sei, porque não me perguntei, e por isso não estava vindo do coração. Não só o grupo em si, mas tudo o que vem com ele, a necessidade de “ter presença online”, estar sempre postando, pensando nos melhores assuntos, adequando as ideias ao tamanho do texto que o Instagram permite ter. “CHEGA!” Poder dizer essa palavra em voz alta já foi o suficiente pra me trazer a emoção que comprovava que o que eu deveria fazer era mesmo me distanciar disso tudo por um tempo:

Alívio imediato!

Como se um CAMINHÃO tivesse sido tirado das minhas costas. Foi o que senti quando escolhi uma foto, escrevi um texto explicando que ia ficar fora do Insta e pausar o projeto por um tempo, e cliquei em “Compartilhar”. Palavrinha mágica e dona de um significado que AMO, que faz mesmo parte de mim, mas que ultimamente tinha se tornado mais um sinônimo de “marketizar”. E, blééé, isso nunca foi pra mim. Quase desisti da faculdade de jornalismo justamente porque no começo tinha matérias de publicidade e propaganda junto e, affe, como não tinha nada a ver comigo aquilo de “Venda seu Peixe” ou “Como criar, conquistar e dominar mercados”. E por que não desisti? Justamente pela frase que, no meio do meu turbilhão de Páscoa, me fez perceber o quanto, nesse caminho de levar o blog para o Insta, eu me perdi de mim mesma e da minha realização maior:

EU AMO ESCREVER, MUITO!

Com a vírgula e sem, inclusive! Sempre amei, desde criança, com bilhetes, cartinhas e cartões, passando pela adolescência, com diários e meus primeiros poemas, chegando na escolha da profissão e na empolgação pelas matérias longas de revistas, e se fazendo verdade até este exato momento, em que estou sentindo um grande prazer de estar aqui há algumas horas, colocando pra fora sentimentos por meio de palavras, sem ter que ficar contando quantos caracteres já foram, quantos faltam, trocando palavras por sinônimos mais curtos porque não coube, credo! Liberdade é um dos meus mais altos valores, e com esse presente de Páscoa maravilhoso a Maira me fez perceber que eu mesma estava me prendendo nesse quadradinho colorido cheio de fotos, stories e anúncios chamado Instagram. Foi pra escrever sem limites, sem me importar com quem vai e o que quer ler e sem a necessidade de vender alguma coisa que nasci. Foi pra contar histórias, as minhas e as dos outros, e expressar coisas profundas, não só o bastante pra ser legenda de foto.

“Libertando minha alma de escritora” foi um dos primeiros posts que escrevi aqui, justamente quando contei o porquê de estar começando este blog. E foi desse porquê que acabei me distanciando no último ano, sem querer, ou por querer procurar respostas mais fora de mim do que dentro. Paciência, acontece, o importante foi perceber! Uma Julie morreu nesse domingo de Páscoa, cheia de vergonhas e culpas, se desfazendo de fardos e disfarces, com dor e lágrimas por demolir algo que tinha construído. Mas uma Julie ressuscitou também, com uma profunda certeza: de que meu propósito ressuscitou comigo, e que a missão que Deus me deu, de ser luz, passa muito mais pelo meu dom de escrever do que pela minha vontade de ajudar. Isso será consequência. Da minha vida, deste blog (que estará mais ativo e livre do que nunca!) e da, enfim, concretização do meu maior projeto de vida, o que me acompanha há mais tempo, mas tinha ficado adormecido no meio do “preciso postar” de todo dia: meu livro. AGORA VAI!

Você vem comigo?

Se sim, por favor, me responde essa enquete (que acabei de descobrir que podia criar aqui no blog)? Hahaha! Só saiba que ela vai servir muito mais pra que eu possa te conhecer e entender o que te conecta a mim do que pra escolher sobre que temas vou escrever (sorry, but the “have to write this” days are over!). Feliz de estar de volta! 🙂

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