Quando a página vira… um novo capítulo pode começar

No mês de fevereiro completei dois anos da minha nova vida, fora do Brasil. Dois anos que deixei para trás família e amigos e cruzei o oceano em busca de uma vida que acabou sendo totalmente diferente da que imaginei. Dois anos que fiz uma viagem por Portugal de carro com a minha ex-mulher pensando que era só mais uma viagem de carro com ela, sem saber que seria nossa última casadas e que seria por muuuito tempo a última sem todos os riscos de uma pandemia. Dois anos que entrei na Espanha, o país que até então era “onde meu filho mora” e que por isso eu ia ficar um tempo, ainda sem saber bem em que cidade me fixaria. E na semana passada fez dois anos que comecei o voluntariado na Posada La Niña Margarita, aquele voluntariado que era pra ser de um a dois meses “enquanto a gente decidia o que faria da vida”, sem tem a menor ideia de que na verdade era a vida que decidiria fazer tudo diferente com a gente…

Quando olho para trás ou vejo essa foto daquela Julie prestes a pegar o voo que mudaria completamente sua vida (está no final), vejo coragem. E vejo também medo. Um medo que as pessoas talvez não notassem em mim, mas que estava ali. Claro que eu tinha medo do que ia ser da minha vida depois de ter vendido tudo, de não ter mais nenhum bem material senão o que cabia em três malas (agora são quatro), de não saber onde ia morar, se ia trabalhar, em que país ia ficar, como veria meu filho com a constância mensal que nos prometemos, se o dinheiro ia dar. Tudo isso me dava medo. Mas nunca, em momento nenhum, esse medo foi maior do que a sensação clara de que estava no caminho certo: o meu – ainda que não tivesse ideia de qual seria ele. E sigo não tendo essa clareza ainda hoje quando mais uma vez estou numa mudança de rota e seguindo uma nova direção do coração…

“O farol só ilumina os 50 metros à frente

É uma das tantas frases clichês que eu tive que viver na pele para entender como faz sentido. Isso de que tá tudo bem não saber todos os passos da caminhada, mas ainda assim dar os primeiros com confiança mudou totalmente a minha visão sobre o futuro em geral, e foi o que me trouxe a paz em meio a tantas perguntas sem resposta que me fiz nesses dois anos, em muitos aspectos, dos mais práticos, como “onde vou morar no mês que vem?”, aos mais abstratos, como “quando vou conseguir esquecer minha ex?”. Faz sentido que às vezes o caminho só se mostre num pedacinho porque nem acho que a gente acreditaria se visse um pedaço mais longo… Por exemplo, é louco pensar que semanas atrás eu estava vivendo um momento de total incerteza e entrega e em tão pouco tempo o cenário mudou completamente.

Como contei no último post, passei por uma forte desintoxicação amorosa que não parecia que ia acabar tão cedo; até que parei de brigar e me debater com o passado e simplesmente me foquei no presente. E foi ao fazer esse exercício de me olhar no presente que me deparei com outro ponto de exclamação aqui dentro, que de imediato virou uma interrogação. A exclamação: eu não estava mais feliz fazendo voluntariado no hostel onde estive por mais de cinco meses! O trabalho já tinha se tornado chato, a troca já não me acrescentava muito e as mudanças que foram sendo feitas no ambiente não tinham mais a ver comigo. A interrogação: então por que não mudar? Veio tudo junto, a aceitação do meu processo de soltar as dores do coração e ao mesmo tempo a sensação clara no corpo de que precisava de um novo lugar pra ir. Não queria sair de Valencia, porque sinto que ainda tenho mais coisas para viver nesta cidade que tão lindamente me acolheu e me abraçou (com muitos braços, como conto mais adiante). Então o plano era buscar um outro voluntariado aqui na cidade e, assim que tivesse outro destino para ir, avisar no meu então atual voluntariado que não ficaria mais. Mas será que esse era o único plano possível?

Não era. E de novo deu medo.

Apenas dois dias depois de constatar que não estava feliz, e ainda sem ter nenhuma resposta de outros voluntariados, aconteceu uma situação lá no hostel que me fez dar um passo aparentemente maior do que a perna e anunciar minha saída de lá em 15 dias. E enquanto a boca falava a cabeça pensava “não sei onde vou morar, mas tudo bem, porque sei que aqui não é”. Essa foi uma das mais importantes lições que aprendi nesses últimos anos, a de dizer NÃO para o que eu já sei que não quero, ainda que não tenha exatamente claro o que sim, quero. Pois falei o meu medroso não, agarrada em uma única certeza que tinha: a de ter feito muitos amigos aqui em Valencia, que poderiam me ajudar numa emergência. Mentira, tinha mais uma certeza: passaria uma semana tomando conta da casa da Natascha, a marida brasileira que ganhei em Valencia, e que estaria viajando. E depois, pra onde iria? Resolvi “ficar na pergunta”, como aprendi com essa história dos 50 metros iluminados pelo farol, me focando apenas em estar aberta para outras possibilidades. E aí o GPS apitou:

Recalculando a rota…

Ainda me surpreendo com as sincronicidades que têm acontecido comigo nos últimos meses. E “ojo“, como dizem aqui (o equivalente seria “atenção”, ou o mais popular “veja bem”), não estou falando de coincidências e sim de sincronicidades. Uma é totalmente aleatória. A outra é totalmente estruturada… mas não por mim, e sim por Deus em sua energia universal presente em tudo e que move todas as coisas. Só que para mover é preciso ter espaço, você sabe (já tentou mover um cotonete numa caixa lotada de cotonetes? E se tirar uns cinco, facilita? 😉). Pois eu, dando esse não sem quase nenhuma certeza, deixei espaço pra que surgissem sims que eu nem imaginava. O primeiro deles se concretizou justamente ontem, quando me mudei para um apartamento lindo, perto da praia, onde vou viver nos próximos três meses. Não é um voluntariado, mas ao mesmo tempo é, sim, e é também a oportunidade de realizar um grande projeto pessoal. Mas essa história vou contar mais pra frente, agora quero contar como as incríveis amizades que eu fiz aqui me permitiram sentir acolhida quando fiquei sem casa.

Sim, eu passei um mês sem ter um lugar pra morar…

… mas justamente por não ter um lugar, tive MUITOS! Tudo começou com a marida Natascha, como disse, que não só me deixou sua casinha por uma semana como também me apoiou nessa mudança de rota desde o começo (e na verdade o “final feliz” que logo contarei também é coisa dela!). Foi minha primeira semana morando no bairro do Cabanyal, que é o bairro mais cultural de Valencia, onde moram os gitanos e onde se vive coisas lindas tipo escutar jovens fazendo flamenco no ponto de ônibus ou numa praça. Sem contar que fica ao lado da praia e eu aproveitei para passar por lá todos os dias dessa semana, incluindo ver nascer uma lua em leão sobre o mar que foi surreal! Ou seja, me senti em casa! E em casa, sozinha, depois de muitos meses compartilhando quarto, eu me senti completa, e aproveitei, e andei pelada ainda que estivesse frio, e fiz xixi de porta aberta, e não lavei a louça nem arrumei a cama nos dias que no me daban las ganas. Em resumo, desfrutei muito bem da solitude que eu aprendi a amar.

Aí a marida voltou, e eu voltei por mais uma semana para aquela que ficou carinhosamente conhecida como a “casa COVID”, porque eu e outra amiga-presente, a “princesa turca” Sevilay, já dividimos ali literalmente a alegria e a tristeza, a saúde e a doença, num matrimônio tão consolidado que ela praticamente adotou o #meufilhoteJoão e é na sua casa que ele acaba ficando quando vem. E veio, curtir mais um feriado, e dormir abraçadinho comigo numa única cama de solteiro (ainda que a outra estivesse disponível ao lado), e cozinhar estrogonofe aprendendo a fazer sua receita favorita, e ver filmes comendo pipoca. Mais uma casa em que me senti em casa, dessa vez uma casa de família, porque onde o João está me traz essa alegria de só precisar de uma pessoinha pra me sentir tendo uma família completa e inteira. Aí ele voltou pra sua casa e eu tive um bonito retorno também…

Voltei pra um abraço carinhoso

Contei no Instagram sobre o bonito reencontro que tive com a Fer, minha marida argentina (e primeira amiga aqui na Espanha). Depois de mais de um ano de distância, que foi física e também emocional em alguns momentos, essa viajera que viveu a experiência de se assentar em um só lugar me recebeu de braços abertos e com seu abraço carinhoso em Tortosa, um pueblo da Catalunya – e lá fui eu dar check em mais uma comunidade espanhola! A casa em que fui muito bem recebida não é da Fer, e sim da sua “nova marida” Rosa, que eu nem conhecia, mas me acolheu com todo amor e receptividade, e nos conectamos automaticamente, e tivemos lindas conversas e trocas, e no final nos despedimos com a certeza de que nos veremos de novo, afinal “marida de marida minha é minha marida também” 😂😍.

Voltei para Valencia e já tinha outra marida me esperando, a “andaluzalenciana” forrozeira Sara, que me conquistou desde o dia um com sua leveza e pra esse fim de semana me ofereceu o calorzinho do braseiro andalú e os papos mais profundos e deliciosos. Só por um finde, e já estava eu de novo fazendo as malas, dessa vez para ir a Madrid onde não tinha casa, mas me hospedei num hostel escolhido a dedo pela vibe e que no final tinha donos brasileiros. E ali, tive mais um presente de amizade, poder conhecer pessoalmente a @influencerautentica Clarissa, que depois de anos me influenciando virtualmente agora está aqui em carne e osso, literalmente realizando o sonho que teve de trabalharmos juntas na Espanha (porque vem novidade aí!). Doze horas depois de “nos conhecermos”, estávamos por las calles de Madrid manifestando pelo Dia Internacional da Mulher, num dia que me encheu de orgulho e terminou com um pôr do sol inesquecível no Templo Debot.

Corta pra Valencia de volta (eu sempre volto!): depois de fazer minha primeira viajem em Blablacar junto com um cachorro 🐶 , voltamos para a casa da Sara, que dessa vez ofereceu amor, braseiro e a melhor tortilla da Espanha x 2, fazendo essa dupla de brasileiras autenticonas realmente se sentirem em casa (e no home office já que estamos trabalhando nesse novo projeto). Enfim, depois de 30 dias de vai e volta, faz e desfaz mala, ser recebida, agradecer e sair de novo, cheguei na casa nova pra ficar… uns meses, porque continuo sendo #viajera 😂, mas estou feliz com essa nova etapa que, como disse, não será de voluntariado, mas tem troca e muito amor envolvidos. E essas duas coisas são pra mim o mais lindo em amizades, poder trocar, conhecimento, habilidades, conselhos, abraços, e poder dar e receber amor, do mais puro e bonito! Tão bonito que acabou sendo o palco do evento que eu mais vinha desejando…

A página virou!!

Aqueeela página que está difícil de virar, sabe? Aquela que por meses me fez sofrer essa tal dor de amor, e ficar imaginando quando isso terminaria. Pois terminou! E a mudança (final) de casa ter acontecido exatamente no dia do aniversário dessa minha ex foi uma dessas sincronicidades que me fez agradecer muito. Sou uma pessoa de datas e comemorações, e sempre sinto um vazio quando uma relação termina e fica a sensação de “e agora, o que faço com esse dia?”. E aí ganho um presente desses, de poder celebrar uma nova etapa e, com ela, dar as boas-vindas a uma nova Julie que está surgindo. Ainda cheia de incertezas, ainda dando passos “no escuro”, mas com muito mais confiança de que vai haver uma saída sempre, ainda que o farol não esteja iluminando. Mas não só isso, porque depois de um ano e meio de conflitos e lágrimas pela mistura de paixão, decepção e luto que vivi, me sinto muito mais forte para enfrentar também o que não der certo, passar por outras possíveis decepções (life, oh life) e, principalmente, seguir dizendo meus nãos ao que não me serve, defendendo meus dedos com unhas e dentes e, quando precisar, sabendo que posso contar com essa linda rede de apoio formada pelos muitos amigos que tenho, os que fiz aqui e os que trouxe comigo, os de perto e os de longe.

É um novo CAPÍTULO, e essa é realmente uma boa palavra para usar, porque tem a ver com um dos projetos que vêm por aí (pegou a dica?). Será um desafio, e ao mesmo tempo a realização de um sonho, mas que vai exigir de mim muita concentração e foco (o que pra leonina libriana sagitariana aqui não é o forte…). Mas é o momento, me sinto pronta. Pronta para iniciar este novo capítulo, pronta para este próximo mês que também será de fortes emoções (contarei por que quando chegar a hora) e, principalmente, pronta para ser feliz, mais do que nunca!

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