A contramão é o meu lado certo

Eu ando na contramão.

Dos carros.
Do óbvio.
Do tempo.
Da pose.
Das opiniões.
Do ritmo.
Do estereótipo.
Dos bons costumes.
Do “perigo”.
Da produtividade.
Do sucesso.
De algumas leis.

Eu ando a pé.
Com isso demoro mais pra chegar, mas chego em mim mesma enquanto assisto ao trânsito. De carro eu não teria sentido o cheiro de eucalipto no canteiro central de uma das principais avenidas paulistanas. Ou ouvido os pássaros, ou visto as flores rosas e vermelhas. Se optar pelo carro, que obviamente não será meu, entrará na balança o fato de conhecer uma pessoa nova, conversar com o motorista, me conectar. Porque pra ir sozinha, meus pés podem muito bem me levar!

Eu não sou fã do óbvio.
Nem sempre uso guarda-chuva quando está chovendo, às vezes opto por tomar chuva mesmo, sentir a água na pele e no cabelo. Eu nem sempre sento em cadeiras ou como em mesas. Às vezes meu corpo pede o contato com o chão, e algumas comidas são deliciosamente comidas sentada na calçada, com os braços apoiados sobre os joelhos e as mãos fazendo o papel de pratos e talheres. O mundo está cheio de óbvios que nem pensamos se são óbvios mesmo ou não, e, pra mim, boa parte da graça da vida está nessa descoberta.

Eu tenho tempo livre.
Ainda que nem sempre o escolha bem, ele é meu, não está vendido. Escolho a hora que acordo porque escolho os meus compromissos. Até os meus trabalhos eu escolho, e recuso os que não me dão nada além de dinheiro. Se optasse por um emprego fixo, talvez tivesse mais dinheiro, mas que tempo teria para gastá-lo?

Eu não poso mais.
Até sei, mas não quero. Não finjo que gosto se não gosto. Até sei, mas não preciso. Mais que isso: vejo como sinal de desonestidade – com o outro e comigo. Se posasse talvez fosse mais respeitada. Mas teria ganhado um respeito desmerecido – again, desonestidade. Então prefiro não fazer pose de algo que não sou, porque só assim terei a certeza de estar conquistando pessoas e respeito por quem realmente eu sou.

Eu questiono.
E ao questionar, assim como os inventores em seus primeiros experimentos, sou desacreditada, caçoada, julgada. Mas como seria hoje se aqueles que decidiram inovar ao construir casas de tijolos ou ao sugerirem que usássemos um sapato para proteger a sola dos pés tivessem desistido por serem desacreditados? Tendo opiniões diferentes e as expondo eu cumpro o meu papel neste mundo, de ser luz e clarear algumas coisas que estavam ocultas pela escuridão do senso comum.

Eu sigo o meu próprio ritmo.
Às vezes acelerado, frenético e festeiro. Às vezes preguiçoso, procrastinador e reservado. Aprendi a não me definir mais pelas características que são “anéis”. Aquelas que vão-se, enquanto ficam os dedos. Esses sim – meus valores, crenças pessoais – ficam. Não inabaláveis como um poste, mas “balançáveis” como uma árvore, que não muda de lugar nas raízes, mas dança conforme o vento nas suas folhas.

Eu não sou uma mulher padrão.
Nem tenho um corpo padrão, nem sou uma mãe padrão, nem sou uma filha padrão, nem sou uma cristã padrão, nem mesmo sou uma lésbica padrão. Até porque, seria padrão para quem? O país onde nasci? Ou o em que estou morando? A família de onde vim? Ou a que formei. Sim, tudo é relativo. E se estereótipos estão aí pra serem quebrados, deixa comigo. Eu sei, nem todo mundo tem essa coragem/disposição/missão. Então deixa comigo mesmo, porque pra mim é mais leve sair do estereótipo do que ficar nele.

Eu tenho alguns costumes que não são considerados bons.
Como falar alto, falar o que penso, tatuar o meu corpo, ser uma mãe desprendida do filho, não me sentir responsável pelos meus pais, me sentar com as pernas pra cima, dançar no meio da rua quando dá vontade. Mas, peraí? Pra quem esses costumes são maus? Se não causam um mau real a alguém, eles podem ser bons pra mim. E se “de boas intenções o inferno está cheio” (se é que ele existe!!), de ofendidos pela felicidade alheia também. Eu acho. Mas achar isso pode ser só mais um (mau/bom) costume meu…

Eu deixo as pessoas preocupadas por não ter medo de “perigos”.
Entre aspas mesmo, porque não atravesso a rua no meio de carros, nem pulo de um trem em movimento, nem vou até um traficante pra xingá-lo. Meu “perigo” é acreditar nas pessoas. E conversar com estranhos, ficar amiga deles, dar carona e até aceitar um convite pra ir visitar aquele seu parente que está morando perto de uma das cidades da Espanha onde ainda vou passar. Se o estranho for negro, as pessoas acham mais perigoso ainda. Acho que o nome desse medo é preconceito. Com o desconhecido, com o diferente, com o duvidoso. E esse eu não tenho mesmo. Porque se até para o juiz todos são inocentes até que se prove o contrário, quem sou eu para não dar uma chance? Aliás, é o que Jesus fez (mas nele fica mais bonito e todo mundo aplaude).

Eu não sou produtiva, nossa, to longe disso.
Os livros deste tema que comecei nunca terminei. Os meses em que me propus a ter disciplina foram os que menos me senti vivendo a minha própria vida. Me sentia “um orgulho pra minha mentora”, “um exemplo pro meu filho”, mas não feliz. Não é pra mim esse negócio de marketing digital, público-alvo, sete em doze (ou é doze em sete? Também não sou boa com números a não ser os de telefone e data de aniversário). Post programado então? Nem sei como faria isso. E se eu programo um post feliz pra segunda, no domingo um amigo morre e eu esqueço de desprogramar? Essa vida planejada não me cabe, mas é na minha confiança no flow que os meus reais planejamentos, os dos sonhos, realmente saem do papel.

Eu tenho um ideal de sucesso que te faria rir. Ou senti pena, talvez.
Desejo muita coisa que não custa quase nada e não quero quase nenhuma coisa que custe muito. Quando estiver em lugares diferentes, com pessoas que amo, em contato com a natureza, ouvindo uma boa música, usando roupas confortáveis, dando risada das coisas mais bobas, conhecendo desconhecidos e comendo uma comida gostosa e o mais caseira possível, aí o sucesso terá chegado pra mim (ps.: neste momento não falta quase nada pra ele!). E se você pensou que isso tudo só é possível alcançando o sucesso pra poder ganhar o dinheiro pra só então ter “esse tipo de sucesso”, volte e leia sobre ir na contramão de opiniões. E esteja aberto pra me ver contrariando essa aí na prática, neste exato momento, morando num país de primeiro mundo sem gastar praticamente nada.

E, não, definitivamente eu não obedeço todas as leis.
Não fazia isso no Brasil e nem farei em outros países. Porque leis são feitas por homens, mas não por todo tipo de homem. E se alguma delas violar a integridade, a vida de UM ser humano sequer, ela não será mais válida pra mim. Por pensar que é o que lhes dá sustento, eu compro coisas de vendedores ambulantes e contribuo com músicos nos trens, por exemplo, em vez de denunciá-los como a lei manda. Se for pra escolher uma única lei pra obedecer no matter what, vai ser a escolhida por Jesus como TOP 1: o amor. E esse desobedece leis, e anda na contramão, e questiona, e choca.

Eu acabei de mudar completamente de vida, deixar meu país, meus pais, meus amigos, meus familiares, meus costumes, minha cultura, meu conhecido. E antes de vir a pergunta que mais ouvia era também a única sem resposta: onde vão morar? Nem a gente sabia, então, muitas vezes brincava respondendo de volta “tem alguma sugestão”? A segunda pregunta mais feita era se estava com medo de algo dar errado, e a resposta foi sempre a mesma. “Não tô, porque já sei que algo VAI dar errado. Tudo o que não der certo vai dar errado.” E deu mesmo. Planos foram frustrados, uma viagem canceladas, os encontros mais fáceis com o João impedidos por uma pandemia mundial. E ainda assim, tudo que deu errado aconteceu da melhor forma, porque tá sempre tudo bem.

Ver as coisas sairem do controle não me assusta, pelo contrário, me tranquiliza, porque me dá a certeza de que está tudo sob controle. Porque sempre está! Não necessariamente sob o MEU controle, mas sob o de Deus. E isso é suficiente. Pra mim. Que ando na contramão. Então eu vou continuar assim, contramando, confiando, desconhecendo, descobrindo. A vida, o mundo, a mim mesma. Porque essa é A vida – e só essa! – que lá no fim eu não vou me arrepender de ter vivido!

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Pra todo mundo que perguntou, agora posso responder: moro aqui (por enquanto…)

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