E todo aquele tormento… era só um treinamento!

2017, 2018, 2019. Os últimos três anos que vivi no Brasil, antes de vir morar na Europa, foram  extremamente desafiadores, cheios de recomeços, inundados por perrengues. MUITO perrengues, um atrás do outro, e de muitos tipos. Um verdadeiro tormento. Ao menos foi o que pareceu no momento… Porque hoje, prestes a completar três meses desta nova vida, num novo continente, e com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, percebo que tudo o que passei antes de vir foi na verdade um super treinamento, de primeira linha, com o melhor dos treinadores, aquele que mais me conhece…

Já escrevi em alguns outros textos aqui sobre como o meu relacionamento com Deus foi mudando ao longo dos anos, e como eu cada dia mais percebo que ele se manifesta pra mim das mais diferentes formas, em lugares, pessoas e rituais variados – tipo quando “A minha Páscoa da ressurreição veio pelo tarô”. E nestas últimas semanas aqui, vivendo esses dias de quarentena mais comigo mesma do que nunca, foi em pequenos detalhes que Ele se manifestou, em coisas simples que percebi em mim mesma, em sentimentos des- ou con-fortáveis, na minha resiliência (ou não) com algumas coisas. Somando tudo e resumindo a sensação, parecia que eu já tinha vivido coisas parecidas antes, mesmo estando num lugar tão diferente e numa situação tão nova. Então comecei a pensar sobre isso, às vezes sozinha, às vezes em conversas com a Marry, e percebi que, depois de ter vivido esses 3 anos + 3 meses, finalmente consigo compreender verdadeiramente aquela frase que ouvi tanto desde a infância, e você também provavelmente, ainda que não tenha crescido na igreja como eu:

“Os caminhos de Deus são mais altos que os nossos”

Está na Bíblia, no capítulo 55 de Isaías, mais precisamente. Mas, assim como taaaantas outros ensinamentos que estão lá, é mais fácil acreditar nessa frase do que viver na prática – e daí o absurdo de tanto crente sair falando de coisas e condenando pessoas como se fosse o dono da verdade quando “até acredita”, mas nunca experimentou aquilo de fato. No meu caso, acreditei nisso em vários momentos, mas desacreditei em outros. Porque foram muitos MESMO os perrengues nesses três anos, e alguns deles foram demais pra mim… demais de duros, de doídos, de desesperadores, de injustos, de incômodos. Mas hoje sei que todos, sem exceção, foram, acima de qualquer coisa, demais de importantes. Porque me prepararam para ser exatamente a Julie que eu precisava ser aqui, vivendo neste momento, neste 2020 imprevisível, do outro lado do mundo, numa inédita pandemia mundial.

Quando ficou claro esse paralelo, resolvi compartilhar aqui com vocês porque tenho CERTEZA de que essa quarentena está colocando a todos nós numa mesma encruzilhada: “Será que dou conta de viver tudo isso sem surtar ou não?”. Se você tem se feito essa pergunta em certos momentos, ainda que secretamente, eu posso te ajudar com a resposta: SIM, VOCÊ DÁ CONTA! Sem sombra de dúvida, “eu agarantcho”, como dizia o humorista dos anos 1990. E a razão pela qual tenho tanta certeza é uma só: você foi colocadx nesta situação para vivê-la! Dentre tantos bilhões de humanos que passaram nesta Terra por milhares de anos, centenas de gerações, VOCÊ está aqui, neste 2020, vivendo essa tal “guerra silenciosa”, como escrevi no texto “A primeira saída em um cenário de guerra”. E se você foi escolhidx para estar aqui, acredite, é porque está preparadx para isso. É porque assim como eu, você teve um treinamento, passou por situações na sua vida que te deram os ensinamentos de que precisaria para viver este hoje. Você pode não saber quais e quando foram, mas com certeza foi treinadx também pelo coach master do Universo e de todos nós. Então quem sabe te contando sobre o meu treinamento você consiga refletir sobre o seu?

Meu 2017 foi a própria pandemia

O ano já começou péssimo. Eu e a Marry estávamos completamente endividadas depois de termos comprado, reformado e mobiliado uma casa que simplesmente não podíamos pagar. Gastamos tudo o que tínhamos mais tudo o que o banco topou nos emprestar em “um sonho”. O FUCKING SONHO DA CASA PRÓPRIA, que fica incutido em nós sem que ao menos tenhamos nos perguntado: esse sonho é meu mesmo? Pois é, não perguntamos, nos convencemos de que “para ser felizes” precisávamos realizar o sonho de ter uma casa linda num condomínio fechado no interior de São Paulo. E realizamos. E nos ferramos por isso. De muitas maneiras, que hoje consideramos aprendizados, mas que já causaram muito estresse e arrependimento. Além de endividadas, estávamos ambas sem ganho fixo e com os clientes que tínhamos indo embora aos poucos, quase num abandono coletivo. Resumindo, mal tínhamos dinheiro para nos manter com as contas, altas por causa da casa, e tudo de supérfluo foi sendo tirado.

O resultado foi que em poucos meses nossa vida se resumia em trabalhar e conseguir mais trabalho. De qualquer jeito, em qualquer coisa. Eu comecei a cozinhar para fora, como já contei brevemente no post “Eu cozinho bem, obrigada!”. O que não contei foi todo o estresse que isso me trouxe. Horas em pé na cozinha, morrendo de calor no verão, passando frio no inverno, trabalhando aos finais de semana até mais do que durante a semana, não tendo tempo nem dinheiro para lazer, diversão, viagens, passeios. Até do João eu acabei me distanciando nesse tempo, ou melhor, ele estava ali comigo, mas sempre com um balcão de cozinha entre nós, e falas como: “Não entra que estou cozinhando!”, “Não posso ir, não acabei ainda”, e a pior de todas, “O que tem pro jantar? O que sobrou da MarmiTop, ué!” E, VEJA, não estou aqui de forma alguma me colocando como vítima ou dizendo que passamos fome. Tenho absoluta noção do quanto segui tendo todos os meus privilégios brancos de classe média enquanto vivemos essa situação financeira mais dura. Mas naquele momento doía, mas não dava pra escolher fazer um super jantar diferente e gostoso quando já tinha passado o dia todo cozinhando e só comprava os ingredientes para as receitas que precisava cozinhar naquela semana mesmo.

No mesmo ano, quando eu já estava me sentindo uma péssima mulher, esposa e mãe, veio a notícia de que o pai do João ia se mudar para a Espanha e queria levá-lo junto. E eu, que sempre fui a favor disso, que vivia dizendo que seria importante para ele morar um tempo com o pai quando crescesse um pouco mais, colapsei. Me lembro de, numa conversa com a minha melhor amiga (falei dela e dessa conversa no post “Você tem uma pessoa?”), eu dizer a frase: “Como eu poderia impedi-lo de ir se não sei nem se terei condições financeiras de sustentá-lo aqui?”. Doeu. Muito! Eu não me importava mesmo de ver o João indo morar com o pai, mas naquele momento essa opção doeu, porque a verdade é que eu estava doente.

Depressão. Já ouviu falar? Não, não é “coisa da sua cabeça” ou “frescura” ou “falta de confiar em Deus”. É uma doença da mente, séria, tratável, mas muito perigosa se não detectada logo. Graças a Deus a minha foi – a Deus e à minha esposa, que, como contei no post “O nascimento da minha luz”, foi quem me abriu os olhos para o buraco gigante em que eu estava me enfiando, perdendo a alegria de viver e me perdendo de mim mesma. Passei por uma pandemia interna, da qual só consegui começar a sair quando a reconheci. E então o 2017 terminou com um fio de esperança, a da cura, que foi se apresentando para mim aos poucos, por meio de meditações, livros, vídeos, cursos. Novos hábitos que, vocês vão perceber, foram fundamentais no meu passado para serem ainda mais especiais no meu presente… Assim como os perrengues na cozinha, o viver só com o essencial, sem luxos, o me virar para me divertir sem dinheiro nem tempo, o passar por um quase fim de casamento por causa da depressão, o ter que me contentar com caminhar na natureza e dançar na sala como formas de movimentar meu corpo sem gastar, mas movimentar todos os dias pra não enlouquecer! Tudo era um treinamento, e estava só começando…

Meu 2018 foi de um demorado e doído tratamento

Tirando aqueles remédios “tiro e queda” – que geralmente nem são bons de verdade porque mascaram o real problema –, a maioria das curas só vem depois de um longo e dolorido tratamento… e assim foi o meu. Começou uma boa e amarga dose de “pedir ajuda para os meus pais”. Para os NOSSOS pais, na verdade. Não estávamos conseguindo sozinhas e, por mais difícil que fosse admitir isso, sabíamos que podíamos contar com eles. Então pedimos. Ajuda financeira mesmo. E não era pequena a dose necessária. Até a minha avó, que na época nem falava direito comigo porque tinha descoberto há pouco tempo do meu relacionamento com a Marry, entrou na dança para ajudar com a parte que meus pais não tinham. Ajuda para quitar dívidas, fechar uma empresa, encerrar uma conta. É algo constrangedor, se você já passou por isso sabe. No fundo acho que muito mais por pressão social de “você tem que ser bem-sucedida aos 30 e poucos” do que por ser um problema mesmo, mas o fato é que fácil não foi.

Seguia fazendo meus trabalhos como jornalista e revisora pela TopTexto (que deixou de ser ME e passou – passei! – a ser MEI), seguia vendendo comida pela MarmiTop, seguia sem conseguir me realizar pessoal e profissionalmente. Foi no meio desse início de tratamento, quando percebi que ele estava mesmo fazendo alguma diferença em mim, que percebi que parte da minha cura estava em fazer eu também a diferença para mais alguém. “E se eu retomasse aquela ideia de tantos anos atrás de escrever um blog?” Sim, sim, senhoras e senhores, foi assim, do meio do tratamento que este blog surgiu. Como uma das medicinas que vieram para me ajudar a sair de uma posição de Hardy (“Oh céus, oh vida, oh azar – quem lembra?) para a de quem está se ajudando para poder ser ajudada, por Deus, pelo Universo, por livros, pelas pessoas. “Me ajuda a te ajudar”, sempre me dizia a Marry, pra me lembrar de que QUERER melhorar é parte decisiva no tratamento, qualquer que seja ele.

E o ano seguiu me desafiando e me curando, num processo demorado e dolorido ao mesmo tempo que revelador e recompensador: com os primeiros eventos de desenvolvimento pessoal de que participei, que me apresentaram para partes e dores profundas em mim, que eu desconhecia; com a minha exposição cada vez maior aqui e no Insta, que renderam muitas “chocadas” mais na minha família; com um processo de coaching que me fez olhar pra várias feridas, mas também relembrar de sonhos ocultos; com a minha volta ao trabalho com a TV, que ao mesmo tempo que me realizou, me tirou muito do tempo com o João; com uma eleição presidencial caótica que me levou mais alguns dos amigos que achava que tinha, #sqn, e me deixou pela primeira vez com medo de ser quem sou e andar de mãos dadas com a minha esposa no meu próprio país. E, mais uma vez, quando olho para cada um desses desafios do passado, os vejo sendo muito importantes para o meu presente…

Meu 2019 foi um recomeço no novo normal

Já falei, desta pandemia que estamos vivendo hoje pelo coronavírus jamais voltaremos “ao normal”. E foi assim com a minha pandemia interna também. Não teve voltar ao normal, mas sim um 2019 de um novo normal. Para começar que passei a virada de ano em um templo budista, como contei no post “O meu Ano Novo e o Novo do meu Ano”, sem saber que estava ali justamente abrindo as portas para que Deus pudesse se chegar a mim de tantos jeitos mais. Depois, passei um mês estudando o minimalismo, algo que NUNCA achei que fosse fazer sentido pra mim (contei mais neste post) e no 1º dia de fevereiro me desfiz de 2/3 do meu guarda-roupas, num projeto que até hoje carrego comigo, o #100pra100pre, que documentei em dois vídeos no Youtube. Outro novo de 2019, aliás, que só veio depois de vencer muitos medos e preconceitos escondidos atrás de desculpas. E então, mais do que roupas, começamos a nos desfazer de outros itens pessoais, de coisas que estavam paradas, e depois de decorações da casa, e dos móveis, e por fim… da própria casa. A tal casa própria que menos de três anos antes era “o grande sonho realizado” e depois se revelou o grande problema financeiro a ser resolvido. Foi alugada, e depois vendida. E fomos morar na casa dos meus sogros.

Tinha aprendido com o tratamento a pedir ajuda, lembra? Pois é, mais uma vez precisamos contar com a família para nos acolher nos meses que teríamos entre a saída da casa e a vinda para a Europa, que, a princípio, seria em novembro/19. Acabou virando fevereiro/20, e nesses quase dez meses em que moramos na casa dos pais da Marry, em outra cidade (também no interior de SP), em outro formato, foi tudo muito novo. Não tínhamos mais a mesma liberdade, tanto como casal como quanto família, para receber os amigos em casa, algo que sempre adoramos, para fazer os próprios horários ou mesmo para o básico andar de calcinha pela casa. Em alguns momentos tivemos, claro, mas não era “o normal”. Assim como não foi normal depois vendermos o carro, nosso último “bem durável”, já com a certeza de que íamos embora, mas passando um tempo com carro emprestado, ou andando de transporte público, ou pedindo mais ajuda em forma de caronas.

Também foi um ano em que acabei me perdendo de alguns focos, incluindo este blog aqui, que, olha só, nasceu no meio da pandemia e acabou murchando “no novo normal”, provando que quando a gente sofre um chacoalhão a “volta” de fato nunca é pro mesmo lugar. Acabei me focando mais no Instagram, o que foi bom porque aumentou o meu alcance, mas ao mesmo tempo me afastou de mim, da minha essência e da minha liberdade de escrever. Por outro lado, foi o ano em que pude finalmente deixar de lado a MarmiTop, o que me tirou muito estresse e me deu uma nova relação com o João, de mais tranquilidade e tempo usado com qualidade. Isso no primeiro semestre, porque em agosto… foi hora de enfrentar o novo mais desconhecido e doído: deixá-lo ir. E ele foi, morar com o pai em outro país, ter uma vida nova também, longe de mim por um tempo. E eu fiquei, me sentindo como alguém que tem um membro amputado, que vira e mexe se esquece de que ele não está mais ali e quando percebe a falta chora tudo de novo. E nesse novo eu fui me buscar, e fazer minha primeira viagem sozinha, e me REdescobrir e aprender a gostar da minha própria companhia. Um 2019 novo, que acabou com muito amor recebido pelos amigos, nos nossos últimos meses de Brasil, e com uma reconexão profunda minha com os meus pais, a minha avó, a minha ancestralidade, num processo que teve muito choro, mas resultou em muita força pras minhas raízes. Tudo com cara de fim, mas que em pouco tempo se mostrou só um começo, uma prévia, um treinamento. Porque pouco tempo depois, aqui estou eu:

Num 2020 totalmente inesperado, mas me sentindo super preparada!

Porque tudo, TUDO isso que me aconteceu nos últimos três anos me preparou para estes três meses de quarentena aqui e agora! Quer ver?

Os meses endividada me ensinaram a não desperdiçar ou gastar com sonhos que não são os meus, e me prepararam para hoje estarmos lidando bem com nosso dinheiro, investindo de forma correta e poupando para os sonhos que realmente são meus.

Os dois anos vendendo marmita para conseguir pagar as contas me ensinaram a usar meus dons para ganhar dinheiro e ainda me deram uma extrema prática na cozinha, e me prepararam para hoje, num momento de ficar em casa durante meses, ter um repertório GIGANTE de receitas que sei fazer mesmo com poucos ingredientes.

O meu princípio de depressão me ensinou que eu não estou imune a cair no fundo do poço, e me preparou para que neste momento de pandemia, em que o medo prevalece, fazendo algumas pessoas enlouquecerem, outras adoecerem, outras se matarem, eu tenha condições de conhecer a minha mente e saber o caminho que ela começa a fazer quando está querendo ir ladeira abaixo, e possa interromper o mais cedo possível!

O abalo que essa depressão causou no meu relacionamento com a Marry também me ensinou, que todos nós temos um limite no ajudar ao outro quando ele não quer ser ajudado, e me preparou para estar alerta quando, em momentos de crise como este, eu me vejo cobrando muito dela quando nem eu mesma estou conseguindo dar, me trazendo autorresponsabilidade e me fazendo lembrar do quanto ela já fez por mim.

Os meus novos hábitos adquiridos quase à força no começo, como meditações, livros, cursos e outras ferramentas de autoconhecimento, me ensinaram muito, mas muuuito sobre mim, e se tornaram grandes companhias, me preparando para, neste momento em que não podemos sair de casa, eu saiba me divertir adquirindo conhecimento.

O viver com o essencial e sem luxos me ensinou que muito do que a gente acha que PRECISA na verdade a gente só quer, e às vezes só quer porque os outros querem, mas pode muito bem viver um tempo (ou muito tempo) sem, e hoje me sinto preparada para ter mudado de país com pouco mais de 40 kg e sem sentir que “deixei uma vida para trás”, porque o mais precioso trouxe comigo, minha alma, meu coração, minha vida.

O satisfazer minha necessidade de movimentar o corpo com uma caminhada na natureza ou um dançar na sala me ensinou que isso é mais que suficiente para mim, me preparando para estar completamente feliz por ter exatamente essas mesmas possibilidades aqui, sendo grata por não precisar de mais que isso para estar ativa e bem com o meu corpo.

O ter que pedir ajuda financeira me ensinou tanto… Primeiro que não há problema nisso, que não é sinal de fraqueza nem de fracasso, e sim de que você tem pessoas incríveis por perto; e segundo que ser ajudada num momento difícil nos faz ver a importância de ajudar alguém quando é nossa vez de poder, meo preparando para hoje estar sendo ajudada pelo José, que nos dá casa e segurança aqui na pousada (como contei no último post, “Como é isso de morar na Europa sem pagar?”) e ao mesmo tempo estar ajudando-o em qualquer tipo de trabalho que ele precisar.

O fazer mais de um tipo de trabalho para conseguir pagar as contas, aliás, me ensinou essa lição, que nenhum tipo de função é mais importante que outro, e que a honestidade é que nos traz verdadeira dignidade. E olha que quem vos fala isso é alguém que já lutou muito para ser honesta até nas pequenas coisas, e hoje me sinto preparada para, numa convivência com mais pessoas, fazer a minha parte!

O encontrar a minha forma de me ajudar no processo de me recuperar, escrevendo esse blog, me ensinou que o vitimismo não ajuda em nada, e que a mudança que queremos fora começa na gente, assim como a cura que queremos no mundo começa em cada um, me preparando para, hoje, estando numa pandemia mundial e vivendo num país muito afetado, saber que fazer a minha parte já é muito significativo, e que não sou vítima, e sim parte responsável pela contenção desse vírus. (By the way, você também é, então FICA EM CASA!)

O encarar de frente meus medos, minhas dores, me ensinou que sou mais forte que eles, e me preparou para enfrentar o medo do contágio neste momento, inclusive me fazendo agir num dia em que comecei a “me sentir com os sintomas” e quase criei uma história de “já era” na cabeça, mas encarei e espantei isso com oração, meditação e uma boa dose de ervas medicinais poderosas que a natureza nos deu.

O desastroso resultado da eleição presidencial que me levou “amigos” me ensinou que era para levar mesmo, rs, e que não adianta ficar bombardeando as redes sociais com política, porque infelizmente isso só propaga as coisas terríveis e atrai quem concorda com elas pros meus posts, me preparando para, neste momento de novamente ler tantos absurdos, simplesmente saber silenciar, orar pelas pessoas e pelo Brasil e não precisar me manifestar.

O fato de ter conhecido um novo normal me ensinou que tenho capacidade de me adaptar a muitas situações diferentes das que esperava, conhecia ou planejava, me preparando para hoje estar fazendo essa viagem de voluntariado sem muitos planos do que vem a seguir, e aceitando bem cada fase que vem.

O desapegar de roupas então, me ensinou a lição que mais tenho praticado aqui, de que realmente precisamos de muito, MUITO, MUUUUITO menos roupas do que somos acostumadAS (especialmente nós mulheres) a “ter que ter”, me preparando para, neste momento, estar inclusive com apenas metade das coisas que trouxemos, já há mais de dois meses e sem saber quando conseguiremos pegar de volta o restante, que está em Madrid…

O me desfazer da casa e do carro ensinou a lindíssima lição de que “não ter” não necessariamente significa “ficar sem”, me preparando para ser tão grata pela situação de hoje, quando não temos casa, nem carro, mas moramos numa propriedade enorme, e nos deixaram dois carros à disposição, para usar quando quisermos.

O morar com os meus sogros tantos meses me ensinou a super útil lição de aceitar quando não se pode ter liberdade e comemorar muito os momentos em que se tem, além de ter me ensinado a conviver com diferenças e a fazer concessões quando se mora com mais pessoas, me preparando para viver absolutamente a mesma situação aqui – inclusive, sim, dou uma circulada em áreas comuns bem mais à vontade e rindo de feliz quando todos saem.

O me focar mais no Insta e ter perdido o foco da minha paixão por escrever me ensinou que posso sim alcançar muita gente, mas não estou livre de, mesmo tendo a coragem de ser autêntica, ter essa autenticidade “roubada” se começar a olhar mais para os outros que para mim, me preparando para neste momento estar conseguindo usar o tempo livre para me reinventar a partir do meu próprio olhar, e com o foco no que não quero mais perder.

O deixar o João ir… ai, esse doeu muito enquanto me ensinava uma das lições mais difíceis para toda mãe: de que eles crescem, e se tornam independentes e têm condições de ser felizes sem a nossa presença de perto, só tendo a certeza do nosso amor e guardando os nossos ensinamentos, o que me preparou para, depois de ter vindo morar no mesmo país que ele, ser presa por esta quarentena e ter que ficar mais alguns meses sem vê-lo apesar da pequena distância, mas com a tranquilidade de saber que ele está feliz!

O aprender a gostar da minha própria companhia me ensinou que eu consigo e curto me divertir sozinha, que gosto da minha individualidade e não tem nada errado com isso, me preparando para, neste momento em que somos só eu e a Marry, a Marry e eu, eu me permita me desconectar dela de vez em quando, fazer as minhas coisas, ter os meus momentos comigo e ficar feliz assim.

O amor todo recebido dos nossos amigos nos últimos meses de Brasil me ensinou que laços fortes não se quebram com a distância e que a distância não significa se sentir longe, me preparando para estar totalmente confortável com manter minhas amizades por conversas online, zooms de papo com as amigas e até rodas de barzinho virtual – o que, aliás, eu já estaria fazendo de qualquer forma nessa situação, ainda que só houvesse uma rua de distância.

E, por fim, o me reconectar de forma mais profunda e curada com os meus pais, minha avó e minha ancestralidade, me ensinou que eu tenho o meu lugar, eles o deles, e todos somos parte dessa família em que fomos colocados por Deus para cumprir cada um o seu papel, sem importar se ele é igual ou diferente, se será feito junto ou separado, me preparando para, neste momento em que resolvi seguir o meu caminho, tãaaao diferente e tão longe deles, estar tranquila, em paz com isso e me sentir tão amada como se fôssemos completamente iguais e estivéssemos totalmente perto.

Você percebeu?

Eu fui muito bem preparada, treinada minuciosamente por Deus! E portanto hoje, aqui no real “campo de batalha”, só posso agradecer por ter vivido cada um daqueles choros, daqueles desesperos, daqueles perrengues, que me fizeram estar pronta o bastante para hoje lutar essa guerra que é de todos nós com as melhores armas que se pode ter, e as únicas capazes de nos darem uma real vitória em qualquer duelo: a gratidão e o amor! ❤

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