Na intoxicação por Covid, aprendi sobre a desintoxicação do coração

Um ano, nove meses e vinte e nove dias. Esse foi o tempo em que eu convivi com a pandemia aqui na Espanha escapando do coronavírus. E então, no dia 15 deste primeiro mês de 2022, testei positivo. Uma notícia que lá em 2020, ou até no início de 2021, era das mais temidas, significado de medo, de “e agora?”, de “o que vai acontecer comigo?”, de “será que vou ser internada?” e até de “será que vou morrer?”. Agora não. Com a chegada das variantes mais leves como a omicron, foi sinônimo de “uma hora tinha que chegar a minha vez”, seguida por oito dias de isolamento, que eu tive a benção de poder fazer acompanhada, na casa de uma amiga que também se contaminou junto comigo. Um isolamento que foi uma quebra gigante na minha agitada rotina desde que cheguei em Valência, e comecei a frequentar o forró, e fiz tantos amigos, e não passei uma semana sequer sem ser chamada pra um programa, uma festa, um show, um jantar, uma praia, um vermut. E de repente, nada. Só eu, um quarto, uma janela, meu computador e meu mat de yoga. Nós e uma enxurrada de pensamentos, que culminaram em um grande aprendizado que vinha ensaiando meses para conseguir entender: o de que não é possível acelerar uma desintoxicação.

Estava sendo positiva… mas testei positivo

Seis dias após ter feito o primeiro teste que deu positivo, acordei cedinho para refazer, e considerando que passei pelo vírus super bem, apenas com sintomas leves, como se fosse uma gripe (mas lembrando da importância de dizer que Covid não é “só uma gripezinha”!!), estava com a mente positiva, sentindo que ia dar negativo e poderia voltar ao trabalho no hostel, às minhas aulas de yoga, à rotina e, sim, também à minha vida social. Ainda na cama, com os olhos um pouco fechados, abro a caixinha do teste, tiro do plástico o cotonete gigante, enfio nas profundezas do meu nariz, lacrimejo como sempre acontece (este foi o teste de número seis só no último mês!!), giro, giro, giro o cotonete lá dentro, tiro, meto no potinho de plástico que vem com a solução reagente, giro, giro, giro o cotonete lá dentro, tiro, pingo 3 gotas no buraquinho da “barrinha do terrror” e espero. “Vou ao banheiro enquanto isso, porque só vai sair o resultado final em 15 minutos”, penso. E então vou ao banheiro, raspo minha língua, lavo o rosto, faço xixi, sorrio no espelho, como faço todas as manhãs. E ao voltar para o quarto, menos de cinco minutos depois, já estava lá a segunda e temida marquinha no teste, provando que eu ainda estava positiva de Covid e decepcionando a minha positividade de mente.

Na prática, isso não significava nada muito terrível, apenas uns dias mais de confinamento, até que o próximo teste desse negativo. Mas o fato disso ter acontecido no mesmo dia em que mais tarde tive minha sessão de terapia foi o princípio de um grande ensinamento sobre aceitação em um processo de desintoxicação.

Eu estou nesse processo

Há seis meses, completados nesta mesma semana de confinamento e muitos pensamentos, eu terminei um relacionamento que tive com uma mulher durante um ano. Um término duro, como já contei um pouco aqui neste post, por ter sido a primeira vez que eu realmente sofri por amor. Um término que eu não queria que acontecesse, que eu evitei ao máximo, porque amava, muito, com tudo o que podia e toda sinceridade, amava essa mulher. Mas foi um término que eu precisei encarar, porque o relacionamento que começou lindo e me fez tão feliz (aqui vem a novidade que ainda não tinha contado) se tornou um relacionamento tóxico e que quase me tirou do meu centro. Ainda não me sinto preparada para entrar aqui em detalhes, de quais foram as atitudes tóxicas, as situações que tiraram a minha paz, as palavras que me magoaram tanto. Mas o panorama geral é que ela tinha dificuldade de lidar com a minha maneira de ser, de confiar em mim, e com o tempo o que começou com um “amo o seu jeito” se tornou um “tem que mudar o seu jeito”, obviamente não falado assim abertamente, mas essa era a mensagem.

E eu, que amava, fui mudando, porque amava muito, fui me mudando muito, reprimindo algumas partes de mim, escondendo chateações, fingindo que era bobeira o que na verdade era, sim, abuso (e só bem mais tarde eu pude admiti-lo). E, repito, não fui obrigada a isso. Mas o meu amor por ela me fez passar por cima do meu amor por mim e abrir mão de coisas que eu na verdade não queria e por isso não devia ter aberto. E então, quando não pude mais, a relação terminou, do único jeito que era possível terminar nessa situação: com total afastamento, sem oportunidade nenhuma de volta, nem de contato, nem saber nada uma da outra. Porque eu amava, e sabia que precisava da distância para ser mais fácil esquecer. E aí é que começa a questão da desintoxicação… Na minha cabeça, eu tinha uma ideia de quanto tempo ia durar, de quantos meses eu ia sofrer, e chorar, e depois esquecer, e seguir a vida, e quem sabe até me apaixonar de novo, e ser feliz sem olhar para trás e lembrar desse relacionamento com dor.

Sabia de nada, inocente…

Pois é, não é assim que funciona. E foi preciso não só meses de terapia (à qual eu voltei justamente pra lidar com esse término) e muitas conversas com amigas como também a lição do corona para que realmente me desse conta. Isso e também um vídeo enviado por uma amiga em que uma psicóloga explica o que acontece com o nosso cérebro quando vive uma relação tóxica – e aqui uso esse termo com o significado de: uma relação que te oferece coisas imensamente boas e ao mesmo tempo outras imensamente ruins, que te completa, mas também te tira a paz, e da qual você tem muita dificuldade de sair. O que acontece é que o nosso cérebro se vicia na montanha-russa que é estar em uma relação assim: uma hora me sinto a pessoa mais amada do mundo, e o corpo emite um monte de serotonina; em seguida volta a me magoar, e o corpo dispara cortisol em grandes quantidades; aí vem o incrível sexo pós briga e uma imensa onda de ocitocina com o orgasmo; e no dia seguinte uma outra discussão que baixa todos os hormônios da felicidade e volta a ativar a necessidade de fugir ou lutar. Enfim, é um caos. Um viciante caos…

Porque o nosso cérebro se acostuma com essa atividade constante, com ter essa adrenalina o tempo todo, seja boa ou ruim, e quando acaba e você se afasta da situação… é como uma morte cerebral. O cérebro fica ali, desesperado, esperando o próximo disparo de hormônios, qualquer que seja, e ele não vem. E então, precisamos reaprender a viver novamente como se estivéssemos voltando a apenas caminhar na rua, em lugar de passar o dia inteiro andando numa montanha-russa. E aí é que começa o processo biológico de desintoxicação…

Sim, parece com deixar as drogas mesmo

Talvez você tenha pensado isso conforme lia, e é de verdade a melhor comparação. Eu não demorei mais que três semanas (as primeiras, as piores) para pensar que nunca passei por uma desintoxicação de drogas, mas devia ser a mesma sensação, o que depois foi confirmado pela minha psicóloga e por pessoas que já passaram por esse processo de deixar substâncias tóxicas. Isso acontece, primeiro, por tudo o que acontece biologicamente, no cérebro e no corpo, como comentei acima, e que nos faz sentir falta do que tínhamos, por pior que fosse o que tínhamos. Segundo porque podemos perceber a nossa mente dividida, metade lutando para não voltar atrás e buscar de novo “a droga” e a outra metade consciente, racional, certa de que nunca mais quer voltar a algo que fazia tão mal (efeitos colaterais) ainda que ao mesmo tempo fizesse bem. E terceiro, bem, porque a desintoxicação, tema principal aqui, é realmente muito parecida.

Distância e acompanhamento psicológico

Esses são os componentes principais de qualquer realibitação por uso de substância, seja droga ou álcool. Ou um relacionamento tóxico. Não tem jeito, até eu que sou a defensora número um do lema “seja amig@ d@ ex”, entendi que seguir tendo contato com “a droga” e não usar é impossível. Seguir tendo o whatsapp ou vendo tudo nas redes sociais fica muito mais difícil não voltar atrás ou se desassociar da pessoa. Não à toa a cena de jogar o resto de droga na privada e dar descarga é tão usada em filmes.

No relacionamento isso significa só uma e difícil coisa: bloquear, 100%, e reduzir o contato a 0. Coisa que eu consegui fazer desde o princípio, com um ou outro deslize, mas no geral estou cumprindo com essa parte do tratamento muito bem, parabéns pra mim. E o acompanhamento psicológico, como disse, também estou recebendo, desde que voltei à terapia com a minha terapeuta “de toda la vida”, que me conhece incrivelmente muito, tem uma memória invejável e metáforas tão boas quanto as minhas. E foi conversando com ela nesse dia e usando o Covid como metáfora que veio a grande lição.

“Estou cansada”

Foi o que respondi quando ela começou a sessão com o costumeiro “e aí como você está nesta semana?”. Cansada, eu me sentia cansada de continuar sofrendo por esse término, ainda que tenha muito claro como foi o melhor pra mim, mas como acontece com a droga o corpo não entende essa parte racional e fica pedindo de volta. “Seis meses depois e eu continuo pensando nela, perdendo tempo da minha vida com esse tema que já está encerrado. Estou cansada…”, desabafei. E ela, sabiamente, me disse que, claro, seria impossível não estar cansada… “porque você está sofrendo duas vezes, primeiro com as lembranças que vêm e segundo quando tenta desesperadamente lutar contra elas”. Não era uma novidade ouvir aquilo, ouvi outras vezes, várias vezes, de várias pessoas diferentes durante esse tempo. Mas naquele dia soou diferente.

O meu corpo tinha acabado de me ensinar que, por mais que eu me sentisse bem e saudável e sem nenhum resquício do vírus, ele ainda estava lá. E da mesma forma que não adiantaria nada, por exemplo, dar um tapa em mim mesma por não ter testado negativa quando já estava bem, realmente não fazia nenhum sentido condenar a mim mesma por ainda pensar nela, e chorar por lembranças, e sentir saudade das partes boas. A desintoxicação acontece quando tem que acontecer, e querer acelerar o processo só traz mais sofrimento, e decepção, e cansaço, muito cansaço…

Aceita que dói menos

Foi engraçado trazer a aceitação nessa etapa do processo, porque a aceitação do luto eu já passei há um bom tempo. Talvez por isso quando ouvia essa frase “tem que aceitar” eu recusava e afastava, porque “já aceitei faz tempo, poxa”. O término sim, mas que a desintoxicação vai durar o tempo que tiver que durar não tinha aceitado não. Até esse dia. Até desmoronar, e chorar, e ouvir a minha terapeuta falando calmamente, e receber aquelas palavras lá no fundo, e aceitar de todo meu coração que não queria mais brigar com aquilo. E me render. E foi aí que o milagre começou a acontecer. Porque ao aceitar as lembranças do passado vindo eu consegui ressignificar o efeito delas no presente. Consegui entender que cada lembrança vem atrelada a uma lição aprendida, e que uma memória que a princípio traz uma saudade melancólica de algo bonito pode trazer carregar também o lembrete de que no fundo eu não estava em paz naquele dia, agora estou.

Oi, eu sou a Julie e recebi minha fichinha dos seis meses

E assim, como um ex-viciado em drogas sai da reabilitação não se sentindo “curado”, e sim mais forte para não voltar ao erro, contando cada dia “bom”, sem ter uma recaída, assim eu saí do meu confinamento. Admitindo que essa desintoxicação ainda não acabou, que o processo pode demorar o tempo que o meu corpo/alma/coração precisar para se limpar e terminar de entender todas as muitas lições que esse relacionamento me trouxe. Admitindo que ainda vou pensar e lembrar muitas vezes, e que tá tudo bem, porque isso não é um problema, é parte da solução, que está acontecendo pouco a pouco, dia após dia.

E agora dá até pra agradecer quando uma memória vem, dá até pra não pular “a nossa música” quando começa a tocar, dá até pra não sentir vergonha de dizer que ela ainda mexe comigo, porque ainda que tenha me feito muito mal, me lembra de uma Julie que eu tive orgulho de ser. E essa Julie, essa mulher sim, eu vou seguir carregando comigo, e amando, e cuidando, e também compartilhando-a com outras pessoas, e, quando chegar a hora, até vendo-a se apaixonar de novo. Só que dessa vez de uma maneira muito mais consciente e cuidadosa, por todas as lições aprendidas no passado e que, assimiladas no presente, servirão para construir o futuro lindo que desejo e sei que mereço; mas sem pressa, des-pa-cito…

O teste positivo de Covid que me decepcionou e ao mesmo tempo me ensinou tanto. Assim como o meu último relacionamento

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