Carta aberta ao pastor Ed René Kivitz, de uma lésbica cristã

A semana começou com o papa Francisco anunciando que defendia a legitimação dos casamentos homossexuais. Eu fiquei feliz, repostei, recebi comentários e reações de amor, foi mais uma pequena conquista. Sempre é conquista quando a gente é minoria. Ainda que eu já tenha me casado no civil com uma mulher cinco anos atrás, sem nenhuma dificuldade burocrática, quando uma das figuras mais importantes do mundo legitima a minha decisão de me casar com uma mulher porque a amo é uma conquista. Que se torna maior quando essa figura importante é religiosa. Porque está aí o maior opressor de qualquer minoria no nosso mundo atual, a religião. Mas para mim o impacto da fala do papa (que agora é mais pop do que nunca) não foi tão grande quanto essa fala de um pastor milhares de vezes menos conhecido e “importante” no mundo religioso.

Ed René Kivitz, é pra você que escrevo esta carta

Você que nos cinco minutos finais da sua mensagem de hoje fez meu coração bater mais forte, a minha boca sorrir e os meus olhos chorarem. De emoção, de alegria, de VITÓRIA. Porque foi nesse ramo da igreja, a evangélica, que eu cresci, e me moldei a todos os formatos, e me casei com um homem, e virgem, aos 21 anos, e fui mãe, e depois me separei, aos 30, quando descobri que na verdade gostava das mulheres. Essa mesma igreja que me condenou, se indignou e, sim, como você bem disse, me prometeu que eu iria para o inferno. E eu nem sabia mais se cria no inferno no momento em que ouvi isso, sabe? Mas doeu mesmo assim. Porque era difícil entender como um Deus que é amor pode ser pregado como alguém que condena um ser humano, criação sua, ao pior dos castigos apenas por amar um outro alguém! Não fazia sentido oito anos atrás quando me assumi lésbica, não faz sentido agora e na verdade nunca fez. Mas as pessoas sempre preferiram não ver, porque a coragem que é preciso para mudar algo tão incutido é grande, eu sei.

Eu sei porque precisei tê-la, precisei lutar contra quase tudo o que cresci na igreja aprendendo sobre certo e errado quando vi que a minha felicidade estava em jogo. Quando vi que para ser quem eu realmente era, ou seja, para ser quem Deus me criou para ser, eu teria que desaprender a acreditar na Bíblia como palavra imutável de Deus, deixar de estar em uma igreja onde tinha quase todos os meus amigos da vida, e, mais difícil ainda, desonrar os meus pais. Ah, os meus pais… Eles cresceram da mesma forma que eu, com os meus conceitos e seguindo as mesmas leis, e, claro, por amor, repassaram tudo a mim. E então, quando eu me assumi gay, eles também tiveram a dura tarefa de “escolher” entre me amar como sou ou fazer valer o que estava na Bíblia. Que injusto com eles. Que injusto comigo. O resultado de tanta injustiça é que acabei de certa forma me afastando, porque “quem sabe assim a gente se machuca menos”. Machucou muito mesmo assim.

Me casei sem eles saberem, perdi muitos almoços de família porque não queria ir sozinha já que não estava solteira, menti para o meu filho para não expor que seus avós tinham dificuldade de aceitar minha companheira, alguém que ele, uma criança de coração tão lindo e puro quanto as que Jesus chamou para perto de si, amava tanto e incluiu tão facilmente. “Se é ela que você ama é com ela que você devia se casar mesmo, né?” foi uma de suas poucas frases na única conversa que precisamos ter sobre o assunto.

Porque amor não se discute, amor se mostra.

Amor não se condena, amor se comemora. Amor não se esconde, amor se espalha. Mas eu tantas vezes senti que tinha que esconder o meu amor condenado para que ele não fosse motivo de discussão. Até pessoas que nem me encontravam mais discutiam sobre o MEU amor, fiquei sabendo. E só soube pelos poucos, pouquíssimos amigos cristãos que sobraram depois da revelação que chocou a igreja inteira da qual eu, minha então namorada e meu ex-marido, todos fazíamos parte.

Ex-marido que, inclusive, podemos dizer que foi de fato o único diretamente afetado pela minha descoberta e decisão de me separar e assumir a minha homossexualidade. E que nem assim me julgou. Ao contrário, me defendeu, NOS defendeu, a mim e à minha relação, ao dizer para as pessoas da igreja que nós suas estávamos felizes, ele e sua nova família estavam felizes e o filho que eu e ele havíamos gerado juntos também estava feliz, então “não tinha nada de errado com a Julie”. Porque essa foi uma frase que ouvi dizerem de mim e me marcou e magoou demais: “Eu sabia que tinha algo de errado com a Julie…”

Descobrir a minha verdadeira essência e a forma de expressão do meu amor, esse era o “meu erro”. Entre frases acusativas, mudanças de calçada para não ter que falar comigo e fingidas de não haverem nos visto de mãos dadas com ela, as pessoas da igreja onde cresci foram cravando em mim uma certeza:

Deus não estava ali…

Não podia estar, porque eu o sentia comigo! Mesmo depois de estar morando com a minha namorada, até mesmo quando estávamos transando, eu sentia Deus comigo, vendo meu amor e me amando. Mas aí eu desapontava pessoas, e magoava meus pais, e envergonhava minha família, e tudo parecia tão confuso.

Só melhorou quando algumas pessoas que viviam a mesma fé que eu quebraram nesse padrão e me mostraram seu amor. A principal delas, não posso deixar de dizer, foi também um pastor, “o nosso pastor” Wanderley. O primeiro que não nos julgou, que não nos afastou, que não nos condenou. O primeiro que orou por nós, nos abençoou e, de alguma forma, “nos casou”. Porque sim, nos casamos apenas no civil, obviamente, mas ele estava lá, e orou por nós, e foi testemunho de Jesus para os poucos amigos presentes ao dizer que “Deus não ama como, Deus não ama se, Deus não ama quando… Deus AMA”. Foi um alívio ter o cuidado, o amor e os conselhos dele durante nossos quase oito anos de relacionamento, e o que muitas vezes não nos deixou perder a fé.

Porque, sabe, Ed, a única coisa que a igreja que condena realmente faz conosco, gays, é tirar a nossa fé em Deus. Não nos salva, não nos “cura”, não nos “re-converte” ao evangelho. Só nos afasta desse amor. Ou tenta. Comigo não conseguiu. Porque tive a bênção de encontrar na minha caminhada pessoas que me acolheram, que validaram essa que era vista como uma enorme dualidade: ser de Deus e ser gay ao mesmo tempo.

Eu resisti

Mas muitos, muitas, MUITXS, não. Se sentiram pressionados a escolher, optar entre negar sua homossexualidade e ser de Deus ou negar sua fé e ser quem são. E foi para estes, por estes que muitas vezes eu optei por me expor, por escrever e compartilhar a minha situação, tentando dar um pouco da luz que eu gostaria de ter recebido quando me descobri. Com estes é que muitas vezes troquei conversas confidenciais, e ouvi sobre tentativas de suicídio, sobre desesperança, sobre o abandono pelos próprios pais. E tentei animá-los, ainda que soubesse que tão poucos o fariam e que seria difícil o caminho. Porque eu sabia que qualquer mudança mais profunda, que ajudasse mesmo essas pessoas, realmente só aconteceria quando os que estivessem no poder, à frente, na liderança tivessem a coragem de se posicionar.

E aí vem você, hoje, no dia 25 de outubro de 2020, o ano mais louco e revolucionário das nossas vidas, e em três minutos diz tudo aquilo que a Julie de 2012, com 30 anos, um casamento hétero “perfeito” recém-terminado, um filho de três anos a quem ela imaginava que ia fazer sofrer no futuro, quase nenhum amigo, um tremendo medo de ser infeliz por estar indo contra Deus e uma namorada com as mesmas inseguranças, queria tanto ter ouvido. PRECISAVA ter ouvido, para não ter passado por tantas noites sem dormir, para não ter se afastado dos seus pais, para não ter duvidado da sua fé, da sua permissão para ser feliz e do amor incondicional de Deus. A Julie de 2020 já nem está mais casada com essa mulher. E também não está na igreja, porque já não se reconhece em apenas uma religião. Mas graças a Deus segue com o mesmo amor e temor a Ele, e com a mesma vontade de que nenhum gay precise fazer uma “escolha” entre a cruz e o arco-íris, porque é tremendamente injusto esse pedido.

Por isso, eu quero te agradecer, ED!

Pelas suas palavras, pela sua coragem. As muitas lágrimas que rolaram depois do seu amém foram por aquela Julie recém-saída do armário sim, mas foram principalmente pelos tantos jovens cristãos se descobrindo gays neste momento, e tendo que passar pelos medos da condenação e do afastamento de Deus e de suas famílias por causa de uns poucos versículos, como você disse, de uma Bíblia que precisa ser atualizada para ser amor para todxs. Agradeço também por todo o seu trabalho nos últimos anos, de ir trazendo à consciência as gerações mais velhas, de ir mostrando, com amor, cuidado, respeito, mas firmeza e sabedoria, que alguns padrões de crenças bíblicas não faziam mais sentido.

Graças a isso, eu recebi a indicação da sua mensagem de hoje DOS MEUS PAIS, felizes da vida, dizendo que eu ia amar ouvir o que você tinha falado! Os mesmos pais de quem ouvi “é que não quero que você vá para o inferno, filha…”; os mesmos que não conseguiram me olhar nos olhos por um tempo; os mesmos que algumas vezes tiveram dificuldade de demonstrar o seu amor incondicional, porque de alguma maneira sentiam-se no dever de, perante Deus, me corrigir. Esses pais que NUNCA deixaram de me amar, que NUNCA desistiram de mim. Mas que mesmo assim me causaram raiva, decepção e muitas lágrimas, porque não sabiam como me aceitar sem ferir a palavra de Deus.

Hoje eu tenho o privilégio de dizer que minha relação com os meus pais é só de amor e respeito mútuo, e que, sim, me sinto amada e aceita por eles exatamente como sou! Sei que não foi fácil o caminho deles até aqui comigo, sei que também foram discriminados quando se posicionaram a meu favor, sei que dentro da própria família foram incompreendidos, quanto mais na igreja… Mas creio que esse sofrimento todo de alguma forma nos aproximou e hoje eu entendo cada uma das fases que passamos, e agradeço de coração por todo o esforço que eles fizeram e por nunca terem desistido de mim! Meus pais também venceram essa batalha! Mas há muitos outros pais por aí, repetidos neste Brasil em muitas versões, intensidades e sotaques, vivendo o terrível dilema de seguir o coração ou a religião, e muitos deles abandonando ou perdendo os seus filhos…

“Nós não é o coletivo de eu; nós é o fim do eu”

Você disse essa significativa frase nesta mesma mensagem de hoje. Por isso, ouso aqui falar agora em nome de todos NÓS, gays que cresceram em lares evangélicos e lidaram com essa solidão de um amor a Deus que não é aceito por outros “irmãos”, MUITO OBRIGADA! É possível que, mesmo sem nunca ficar sabendo, hoje, com essa sua mensagem, você tenha salvado jovens que pensavam em suicídio, famílias que estavam prestes a se quebrar, felicidades que corriam o risco de serem abandonadas em nome da fé, e fés que já estavam sendo jogadas no lixo.

Por fim, me solidarizo com você dizendo que foi um ato de coragem, eu sei, e certamente vai ser criticado e condenado. Infelizmente é o que acontece quando alguém da maioria se posiciona em prol da minoria… MAS, como alguém que teve essa mesma coragem e passou pelas críticas e se vê hoje do outro lado do medo (o amor!), eu quero te dizer que vai dar tudo certo, que você dá conta de enfrentar as críticas e que terá valido a pena defender a igualdade. Porque foi Jesus quem prometeu isso. E você, Ed, foi um espelho de Jesus hoje, na minha vida e na de muitas pessoas das muitas minorias do Brasil.

Siga em frente, sem desanimar, sabendo você já tem sido uma linda carta para este novo mundo. Agradeço a Deus pela sua vida e por poder te retribuir com esta carta de gratidão, em nome de alguém que, depois dessa sua mensagem, tem ainda mais esperança de poder ser luz neste novo mundo, onde pessoas tão lindamente diversas merecem ser feliz e saber que são dignas do amor de Deus!

A foto é antiga, mas demonstra bem a alegria de poder
ser quem eu sou: lésbica e amada por Deus!

O link do começo do texto tem só essa parte final, mas quem quiser ver a mensagem completa está aqui.

Um comentário em “Carta aberta ao pastor Ed René Kivitz, de uma lésbica cristã

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  1. Querida,
    Não a conheço, mas conheço Jesus. Fui salvo por Ele da mesma condição em que você se encontra hoje. Por isso vou lhe dizer, em nome Dele: Se você se entregar ao seu pecado, ao seus impulsos e desejos carnais, para satisfazer seu coração, NÃO ENTRARÁ NO REINO DE DEUS. Para entrar lá é preciso Tomar sua cruz e seguir a Jesus. Está certo que a religião tem criado muitos impedimentos para que pecadores cheguem a Cristo e tenham o perdão para os seus pecados. Mas o Sr. Ed Renê está equivocado em sua interpretação. Há caminhos que ao homem parece ser bom, mas o seu final é morte e destruição. Por favor, em nome de Jesus, não baseie a sua vida e nem confie a sua vida eterna na palavra de um homem pecador. Essa alegria por ele proporcionada é passageira.

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