Um brinde ao nosso fim. E aos nossos recomeços!

É isso. Eu e a Mari não somos mais um casal. A decisão, tomada meses atrás, veio depois de muitas conversas, veio de um consenso entre as duas, veio de uma maturidade que tivemos de perceber que até aqui sermos casadas nos fazia melhores pessoas e, portanto, melhores uma para a outra. A partir daqui, não mais, não seria mais assim. “Mas vocês estavam tão bem antes de saírem do Brasil, tinham inclusive renovado os votos de casamento.” Eu sei, e tudo é verdade, e tudo ERA verdade. Naquele momento. Até não ser mais. O último ano que vivemos no Brasil foi um ano vivido com os olhos no futuro: a casa que precisávamos vender para deixar o País, as coisas a organizar, os documentos a tirar, as mudanças a fazer, as pessoas a avisar, tudo sendo planejado para a partir de fevereiro começarmos uma nova vida, num novo formato, num novo continente, juntas. Ou não… Porque por mais planos que façamos, quando nos permitimos soltar o controle, a vida pode nos surpreender e ensinar…

A Europa nos ensinou que mudamos

Mudar. Uma palavra que assusta muita gente. “Nossa, ela mudou”, “caramba, como você está mudada”. Nos esquecemos de que só há uma condição em que não ocorre a mudança: a morte. Qualquer ser morto não muda mais. Mas qualquer e TODO ser vivo está em constante mutação. E a lição mais importante que a vinda para a Europa ensinou a mim e à Mari, ao mesmo tempo, foi olhar para dentro e perceber as mudanças, e olharmos uma para a outra e admitirmos o quanto tínhamos mudado. De pensamentos, de hábitos, de crenças, de gostos, e, principalmente, de sonhos… Escrevi no último texto, “Ser adulta é FODA. Mas é libertador!” – e, sim, já estávamos separadas, mas ainda aguardando o momento certo para contar isso pra geral – que todos corremos o risco de nos tornarmos prisioneiros de nossos sonhos, abrindo mão da própria felicidade para ir até o final com um plano ou realizar algo que já nem queríamos mais, que era um sonho do nosso eu do passado. Pois é, aconteceu com a gente.

Quando começamos nosso relacionamento, mais de oito anos atrás, uma das coisas que mais tínhamos em comum era o sonho de ter uma vida mais livre. Sair do Brasil, morar em outro(s) país(es), ter um trabalho que nos permitisse não precisar estar fixa em um lugar, viajar muito, inclusive morando em um trailer num futuro breve, nossa casa sobre rodas, que nos permitiria ter a tão sonhada liberdade. E, tirando o trailer, que ainda estava planejado para mais para a frente, conquistamos tudo isso, juntas. E aqui aproveito para dizer que se tem uma coisa que nós duas fizemos muito juntas e muito bem foi conquistar objetivos, enfrentando o que precisássemos enfrentar para isso! Formamos um time incrível para superar obstáculos, não surtar, vencer até nas situações que pareciam mais derrotadas e sair por cima, comemorando que “deu certo”, porque sempre dava no final. E, quer saber? Deu agora também no nosso final!

Tão certo que juntas, ao mesmo tempo, começamos a fazer esse scan interno, e percebemos como tínhamos nos distanciado nesses sonhos todos para o futuro. Eu, desde que cheguei aqui, e comecei a trabalhar na Posada nesse esquema de voluntariado, como contei em detalhes no post “Como é isso de morar na Europa sem pagar?”, me encontrei! Me apaixonei pelo lugar, pelo trabalho, pelo estilo de vida nômade, pela cultura espanhola, pelo meu dia a dia, pela Julie que eu sou aqui. Já a Mari, viveu o caminho inverso: se decepcionou. Não curtiu a vida nômade, não se adaptou às partes ruins de não ter casa, aos perrengues de conviver com pessoas que não foram “escolhidas”, sofreu com a distância dos amigos e família, se entristeceu só de pensar em ser essa pessoa nessa vida aqui. E conforme essa distância entre nossos sonhos foi se revelando, num momento em que tínhamos tempo de sobra juntas sem mais quase ninguém para nos olharmos, percebemos que tinha uma outra lição importante a aprendermos:

A quarentena nos ensinou que éramos amigas

Mas amigas mesmo, de verdade, daquelas que se amam, querem o melhor uma para a outra, se ajudam nos perrengues (já falei do quanto fomos boas nisso juntas?), formam uma parceria ótima para alcançar objetivos em comum. Porém, só amigas. E as amigas, quando têm objetivos diferentes a realizar, seguem suas vidas, cada uma no seu caminho, estando ali uma para a outra, claro, e sempre, mas sem necessitar estarem juntas na caminhada. E foi o que escolhemos fazer. Recomeçar, reformular o nosso relacionamento, retirar dele a parte casal e ficar só com a amizade, que, sabemos, seguirá tão forte como sempre foi! Inclusive passando por momentos de discordância e discussão, como aconteceu algumas vezes nesses três meses que continuamos vivendo juntas, dormindo no mesmo quarto, dividindo a mesma rotina, ainda que não mais como casadas.

Sim, nos desentendemos, brigamos, nos magoamos com atitudes que a outra tomou, levamos algumas coisas para o pessoal, nos chateamos, nos afastamos. Algumas semanas foram assim, mais difíceis, e em muitas vezes pairou no ar a dúvida de se conseguiríamos mesmo manter a amizade depois que de fato nos separássemos. Outras semanas foram de amor e carinho. Daqueles que a gente sente forte e nos dão vontade de fazer tudo pelo outro, agradar, cozinhar, ajudar, conversar. Coisas que antes fazíamos como casal, mas que são igualmente “fazíveis” como amigas, e que nos sentimos bem de manter. Mesmo porque no meio de tantas mudanças que enxergamos e que escolhemos fazer, há o que não mudou, e uma das coisas mais importantes é justamente isso:

Não há arrependimento nenhum, de nada!

Não nos arrependermos de termos nos casado, não nos arrependemos de termos ficado mais de oito juntas, não nos arrependermos de vir para a Europa, não nos arrependermos de decidir pela separação estando do outro lado do mundo. E falando agora de mim mais especificamente, não me arrependo de ter dado espaço e de ter me doado a uma das pessoas mais importantes que tive na vida, e uma das que mais me ensinou. A Mari me ensinou muitas coisas, desde conviver com pessoas e culturas diferentes, quebrar preconceitos, ter outros pontos de vista, me interessar por assuntos que nunca imaginei, até aprender sobre mim, aprender MUITO sobre mim, a partir do seu olhar e do seu incentivo constante para que eu me olhasse.

Há coisas que eu gostaria que tivessem sido diferentes, que me entristeceram e magoaram no caminho? Claro que sim! São mais de oito anos de um relacionamento que foi sério, e sincero, e fiel, e muito profundo. Não acho que ninguém me conheça como ela me conhece, com ninguém até hoje fui tão transparente e ninguém sabe tanto dos meus erros e acertos quanto a Mari. E saber que ela teve todo o respeito do mundo com a minha história e meus defeitos e meus poréns me dá a sensação de ter acertado na escolha de, apesar dos problemas e diferenças que tínhamos, termos ficado tantos anos juntas – sim, “tantos”, porque somos mesmo muito diferentes e para algumas pessoas a separação nem foi um choque tão grande assim, hehehe. Até nisso acho que pudemos nos ajudar a ver neste fim: como é possível usar as diferenças a favor enquanto elas realmente nos fazem um favor, e, quando já começam a fazer mais mal, entender que acabou…

“O seu olhar melhora o meu”

É a frase que usamos durante todo o nosso relacionamento. Nem lembro mais quando foi a primeira vez que a usamos e de qual das duas partiu, mas a verdade é que ela nos escolheu e nos acompanhou e nos fez muitas vezes acalmar o coração quando no meio de uma discussão lembrávamos que era apenas um olhar diferente, que podia ajudar a outra a olhar melhor, ainda que fosse para seguir discordando, mas com a chance de perceber. E pouco antes de sair do Brasil eu inclusive tatuei essa frase nas minhas costas, no topo da árvore da minha vida – que, sempre gosto de dizer, não está completa, hein?, nem a vida nem a tatuagem. E não, mais uma vez, não me arrependo. Não só porque ela significa carregar comigo esse lembrete de sempre olhar com carinho para o olhar do outro, buscando aprender, mas também por poder carregar em mim esse relacionamento, que foi uma parte tão importante da minha vida! Vida que agora segue, cheia de duas coisas lindas:

Recomeços e gratidão

Recomeços: sempre os tive, sempre os amei, sempre os terei, hahaha. De começos e fins e recomeços foi feita minha vida até aqui, e nem tenho a intenção de parar. Está em mim, na minha personalidade, no meu estilo, gosto de novidades, de projetos curtos, de terminar um ciclo para começar outro. Coisa de índigo, que não interrompe coisas inacabadas, e sim acaba as coisas antes da maioria… Com a diferença de que antes eu sofriiiiia para fazer isso. E este término de casamento feito na base muito mais do amor do que da briga (apesar de termos tido algumas) também veio para me ensinar sobre “deixar ir em paz”, aceitando o fim não como uma coisa trágica, mas como um importante marco, que é tão necessário e bonito quanto um (re)começo!

Ontem, no último dia de julho, a Mari foi embora daqui da Espanha. E foi uma despedida com muito mais cara de “até breve, seguimos juntas” do que com drama de “tchau, acabou”. Que delícia sentir isso – recomendo se você ainda não experimentou fazer uma transição importante de vida se sentindo em paz! Choramos, claro, eu, ela e o João, que aliás mais uma vez surpreendeu com sua compreensão de uma decisão tomada por mim sobre a minha vida, mas que de certa forma o afeta (mas sobre isso escrevo outro post, em outro dia!). Mas choramos em paz, sabendo que a partir de agora o futuro trará muito mais coisas boas para as duas dessa forma, separadas, do que se tivéssemos “batido o pé” no “para sempre” e insistido em seguir juntas.

E sou grata, por isso também, mas principalmente por tudo o que vivemos juntas, por todos os perrengues vencidos juntas, por todas as conquistas alcançadas juntas, por todos os aprendizados, por todos os momentos, as brincadeiras, as bobeiras; tanto quanto pelos problemas que tivemos e tristezas e mágoas causadas. Porque sei que tudo foi parte de um grande aprendizado que me preparou para ser hoje quem eu preciso ser hoje para mais esse recomeço. O segundo nesse sentido, aliás, já que do meu primeiro casamento, com um homem maravilhoso, saí igualmente grata e com muitas lições e aprendizados que também me deram zero arrependimento e muitas alegrias, entre elas a maior de todas, ser mãe do #meufilhoteJoão! O papel que não me canso e me empolgo tanto de realizar, ainda que com a moderação de saber que ele não é a minha vida, e sim uma parte – ok, a mais linda! – da minha vida!

Meu mês, meu ano, minha vida

Foi por acaso, mas hoje, no primeiro dia do mês do meu aniversário, recomeço minha vida da forma mais MINHA que já fiz até hoje. Sozinha, e do outro lado do mundo, e sem casa fixa, e sem trabalho fixo, e sem planos a longo prazo, e o melhor, sem me desesperar por nada disso. O que em si já é um começo totalmente diferente, porque essa Julie que hoje sabe que está pronta para enfrentar sozinha perrengues que certamente vão surgir uma hora, e que não está nem um pouco querendo se apaixonar de novo, e que não se importa de pensar que muitas das decisões tomadas vão depender apenas de si, essa Julie é absolutamente nova para mim. Eu já fui a pessoa cujo maior medo era ficar sozinha. Eu já fui a pessoa que nem cogitava sair de qualquer relacionamento se não tivesse já alguém em vista para “investir” e engatilhar. Eu já fui a pessoa que não se achava capaz ou adulta o suficiente para tomar as próprias decisões, especialmente as mais importantes.

Hoje, ser essa pessoa é mais que uma vitória para mim; é uma conquista, feita a duras penas e algumas perdas, e é também empolgante. Porque me sinto pronta, para tomar 100% as rédeas da minha vida, naquilo que me cabe fazer (como decidir), e ao mesmo tempo soltar 100% as rédeas da minha vida, naquilo que não me cabe fazer (como praticamente todo o resto, incontrolável – e, justamente por isso, lindo!). Aprender a soltar e não controlar foi a minha maior lição desta quarentena, como escrevi no meu conto para o projeto Confissões de Confinadas. E sei, e sinto, que soltar esse casamento faz parte da minha to do list para conseguir alcançar o meu objetivo deste ano: ser leve. E livre, e autêntica, e mais EU do que nunca. O que significa inclusive… não saber tudo sobre mim, mas estar aberta para descobrir!

Obrigada, vida, por ter me dado a oportunidade desse casamento que me fez crescer tanto! Obrigada, Zines, por ter sido a pessoa certa para mim nesses anos todos, a que mais me ajudou a crescer e aprender! O seu olhar seguirá melhorando o meu, e nós seguiremos juntas nessa amizade que é muito maior que um casamento no papel! Eu amo você! ❤

Tudo o que queremos levar desse relacionamento e dos nossos últimos dias convivendo juntas: amor!

4 comentários em “Um brinde ao nosso fim. E aos nossos recomeços!

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  1. Qualquer escolha implica em ganhos e perdas. Muitas vezes acertamos e em outras erramos.A paz no coração é o árbitro para nos indicar se a escolha foi a mais adequada ou não. Filha, desejo que você busque sempre a sabedoria do alto para fazer as escolhas e tomar as decisões que possam fazê-la feliz e em paz com você e com o próximo. Te amo! Conte sempre comigo!

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