Ser adulta é FODA. Mas é libertador!

Aos 45 do segundo tempo de junho, o mês de tantas reviravoltas na minha vida, cá estou de volta com um texto que foi crescendo dentro de mim com o passar dos últimos dias… Quero falar sobre ser adulta. Saber o que se quer. Fazer escolhas. Arcar com as consequências. Tudo com autorresponsabilidade, ou seja, agindo por você, não culpando alguém. Isso é o que eu considero ser uma adulta. E não ter casa, pagar aluguel, saber fazer comida, ter emprego, ter filho. Porque a real é que essas coisas qualquer adolescente pode fazer, e muitos adultos o fazem, mesmo aqueles que não são ainda o outro tipo de adulto do qual quero falar aqui. Eu sinto que só há pouco tempo me tornei essa adulta. E é foda!

É foda porque acabam as desculpas, sabe? Escolheu, assumiu, deu merda? A culpa é sua, vai lá e conserta! Magoou alguém, ainda que sem querer? A culpa é sua, vai lá e pede perdão. Foi magoada por alguém, ainda que sem querer? A dor é sua, vai lá e cura. Esse é o tipo de “adultice” que, quando a gente resolve assumir pra si, é foda. Não por termos que enfrentar qualquer dessas coisas sozinhos, mas por termos que enfrentá-las com autorresponsabilidade. E justamente por ser foda não é todo mundo que consegue. Eu, como disse, só há pouco tempo estou começando a me sentir capaz nisso, e ainda assim, advinha…

Tá foda!

Muitas, muitas mudanças aconteceram na minha vida nos últimos dois meses. A quarentena chegou me jogando um balde de questionamentos e, como contei no meu conto do projeto Confissões de Confinadas, eu resolvi soltar o controle, que sempre foi meu aliado na vida, me fazendo sentir adulta mesmo quando não era. Pura enganação… Porque quando a gente (ACHA QUE…) controla tudo nem precisa se preocupar em ser adulto, afinal a gente vai dando um jeito nas coisas, até naquilo que não tinha jeito, até naquilo que acaba magoando os outros ao redor, até naquilo que a gente nem sabe se queria resolver daquele jeito. Esse cara fui eu, por muito tempo…

“Quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém”, disse o poeta Renato Russo, e eu levei pra prática durante quase toda a minha vida. “Deixa que eu faço, me viro, não quero ajuda, não preciso de você.” Falei essas frases todas pra pais, mentores, conselheiros, livros e outros tantos ensinamentos. Tinha uma ânsia de dizer que eu podia fazer o que quisesse, que “ninguém me manda”. Coisa de leonina? Sim, mas uma leonina adolescente que, mesmo depois de dois casamentos e de ser mãe, e profissional, e mulher, ainda dava as caras em algumas ocasiões e situações… Um resquício de adolescente que, graças a Deus (mas também à base de muito choro), esse período de confinamento foi levando definitivamente embora. Tudo porque, ao invés de me dedicar a provar tudo o tempo todo, eu experimentei soltar o controle e, quando os questionamentos mais fodas, de adulto mesmo, começaram a aparecer, ao invés de sair fazendo ou começar a me debater provando que era capaz de vencê-los, eu só fiz algo que ainda não tinha testado.

Eu decidi decidir

E tomar decisões, como parte do processo foda de ser adulto, é igualmente foda (e, sim, seguirei repetindo essa palavra, afinal, este é um blog escrito também para adultos, e todo mundo sabe que não tem outro sinônimo na língua portuguesa que expresse FOR REAL o que essa palavra expressa). Porque em quase 100% das vezes a decisão envolve escolher, e escolher, em quase 100% das vezes, envolve abrir mão de alguma coisa – aquela que você não escolheu. Eu contei nos último textos aqui de algumas dessas decisões que tomei, como cancelar um curso que já estava com inscrições abertas e mulheres inscritas, e de algumas escolhas que fiz, como me dedicar ao yoga e de verdade passar a cuidar do meu corpo, já que o plano é viver muuuuitos anos mais nele.

E por falar em planos, é o que está mais foda no momento: estou decidindo mudar alguns. Mas não daqueles de ia fazer salada para o jantar e resolvi mudar para hambúrguer mesmo. Estou falando de planos grandes, aqueles que mexem com estruturas da vida, que mudam rumos que já estavam tranquilamente definidos. E se você estava lendo até aqui pensando “quando ela vai começar a falar da parte que ser adulto vira libertador?”, ela chegou! Mas não sem ser foda, hein? Só pra deixar BEM claro. Decidir mudar planos é uma das coisas mais adultas que a gente pode fazer. Primeiro, porque significa voltar atrás, admitir mudar de ideia e opinião – e, believe me, isso é algo que só adultos fazem sem ter problemas, sem revoltinhas (palavra de quem foi muito, muito adolescente nesse sentido!). Segundo, porque geralmente envolve insegurança e incertezas, outra coisa que, pfff, só sendo adulto pra encarar de cabeça erguida, cu na mão, mas tendo confiança no próprio taco.

E anota essa receita, porque o último dos três ingredientes não pode faltar numa decisão adulta de mudar seus planos, especialmente aqueles que chacoalham boa parte da vida. Você pode até exagerar no ingrediente cu na mão, mas se tiver uma boa dose da confiança no próprio taco eu garanto que funciona. Funcionar significa que vai dar tudo certo? Nãaaaaaaooooooo! E essa talvez seja uma das partes mais importantes deste texto: se tornar adulto não faz as coisas darem certo sempre, você vai continuar errando! Mas a diferença que faz toda a diferença é que eles serão os SEUS ERROS, de mais ninguém, e depois de penar com eles, vai ter um orgulho danado de ter cometido ca-da um, posso garantir.

Voltando à parte da liberdade…

“A lealdade aos seus sonhos pode custar a sua felicidade.” Falei essa frase, ou melhor, cheguei nela, durante uma conversa com uma amiga, em que falávamos de aceitar a nossa impermanência de ser, de gostar, de querer, podendo mudar o tempo todo. E há vários dias ela está ecoando em mim, me fazendo ter ainda mais certeza de que não quero, mesmo, realizar o que eu considerava os meus maiores sonhos, nem seguir alguns dos meus próprios planos. Por um motivo: quem disse que eles ainda são meus? É esse o princípio da frase a que cheguei e que fez tanto sentido. Tanto sentido que nos dias seguintes ainda comentei sobre ela com mais algumas pessoas, então, resolvi trazer para vocês aqui. O conceito básico é esse: lutar para realizar sonhos que um dia você sonhou, mas que hoje não estão pulsando mais no seu coração pode trazer mais infelicidade do que realização. Você vai nadar, nadar, e quando chegar na praia, “querer morrer”, por pensar “no fim nem era praia que queria, era montanha…”.

Não é nem de longe a primeira vez que eu refaço caminhos, repenso meus passos, replanejo meus planos. E lembro que no começo eu me sentia mal com isso, era como se estivesse traindo a mim mesma, sabe? A mais forte dessas experiências foi quando o João tinha seis meses e eu, que tinha programado toooda a minha vida para ficar cinco anos sem trabalhar, só cuidando dos filhos que tivesse, como fez a minha mãe (e eu a admirava por isso!), me percebi enlouquecendo com uma criança o dia todo em casa. Lembro de surtar num dia quando meu ex-marido chegou, entregar o João no colo dele e, ainda que amando aquele bebê mais do que tudo neste mundo, dizer “não aguento mais, eu não quero fazer só isso da vida”. Voltei para a terapia na semana seguinte, porque aquele era um sinal de que eu precisava me re-entender. E foi quando ouvi da minha terapeuta (a mesma até hoje) uma pergunta que mudou a minha vida: “Mas se os planos são seus e você não está mais feliz em segui-los, quem tem o poder de mudar isso?”. EU! Essa é a resposta.

“I HAVE A DREAM”

Eu amo essa frase, amo o cara que a disse, amo tudo o que ela significou quando foi dita e que reverbera até hoje, tornando inclusive alguns dos meus sonhos possíveis – porque a conquista de uma minoria sempre é a conquista de todas. Mas quando Martin Luther King a disse, não era exatamente um sonho do “I”, ou seja, dele, no singular, no particular. Ela um sonho do coletivo. E como tudo o que acontece no coletivo, precisa de gente, de MUITA gente para realizar. Nunca tinha parado para pensar nisso, talvez porque essa tal coisa de coletivo não era muito a minha praia… Não sei se pelo sol em Leão ou se pela Lua na Casa 1, mas o individualismo sempre reinou aqui. Acontece que em termos de sonho, eu comecei a perceber nos últimos tempos que pra mim é muito mais fácil defender, ir fundo e realizar se ele for de mais alguém além de só meu.

Já fui muito chamada de egoísta, por decisões que tomei que magoavam outras pessoas, como quando me assumi gay e minha família toda se decepcionou. Mas ainda assim não sentia que eram decisões só minhas, porque eu sempre estava fazendo por mim e por mais alguém, ou por mim e pela importância da situação, ou por mim e por como o assunto merecia ser tratado… Enfim, não vou dar exemplos mais concretos porque o ponto principal aqui é outro: eu estou, mais do que nunca, decidida a realizar os MEUS sonhos. Não os sonhos que serão bons pra mim dentro dos papéis que exerço, ou no coletivo das relações que tenho. Não os sonhos do passado da Julie, aqueles que ela planejou e não fazem mais sentido. Muito menos os sonhos que estão me afastando da Julie que eu realmente gostaria de ser, em TODOS os sentidos. Quero realizar os sonhos do meu presente, de tudo que tem pulsado no meu coração, na minha alma e no meu corpo para ser vivido. Tudo o que em algum momento da minha vida eu “deixei pra lá” porque não era bom para alguém, ou para a situação, ou para o local, ou porque “vai ser complicado”.

Não vai ser complicado. VAI SER FODA!

Mas essa decisão de olhar para os meus sonhos e planos e redesenhá-los segundo unicamente o meu eu no momento presente é a decisão mais adulta que já tomei na vida. Porque vai influenciar muito em muitas coisas. Vai significar o incerto que dá aquele medo do caramba. Vai doer em algumas pessoas e em algumas partes de mim também. VAI SER FODA. MAS COMPLETAMENTE LIBERTADOR. E isso eu já posso sentir, na alma, no corpo, no coração. Então só me resta vestir a capa da… (esqueça se pensou na mulher-maravilha, ela é fake e bem adolescente) autorresponsabilidade, pegar aquela boa dose da confiança no meu taco e seguir me lembrando todos os dias de que tenho pessoas que amo e que me amam ao meu lado e que nenhuma Julie pode ser melhor para os outros e lhes dar mais amor do que aquela que é a melhor para si e SE dá amor.

“Amar o próximo como a si mesmo” é o TOP mandamento que Jesus deu e todas as religiões e filosofias têm alguma versão dele. Mas as pessoas geralmente focam no “próximo”, e não percebem que se não rolar o “a si mesmo” o “como amar” simplesmente não rola. E estou precisando ter MUITA maturidade e todas aquelas características da adultice que comentei para admitir que passei muito tempo vivendo um amor adolescente comigo mesma, sempre na base da barganha, de me melhorar ou me amar por alguma outra pessoa ou por uma necessidade externa ou por uma causa. Não me acho ainda 100% pronta para enfrentar tudo o que tomar as decisões por mim mesma pode me trazer (até porque esse é um caminho bem longo). Mas já me acho 100% capaz de dar conta. Com choro, com ajuda, com medo, com erros. Mas dando conta. Então bora ser adulta do jeito mais foda e libertador possível. Inclusive escrevendo muito sobre esse processo todo, porque vem livro novo por aí…

 

WhatsApp Image 2020-07-01 at 01.31.42 (1)Não se engane, a franja pode ter me deixado com cara de mais nova, mas tem uma adulta escondida aí dentro, e o que quer que seja que venha pela frente, ela dá conta! 😉

Um comentário em “Ser adulta é FODA. Mas é libertador!

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