Eu sou uma viciada em recuperação

Há duas semanas, quando eu escrevi o post contando “A vergonha da minha maior vergonha”, achei que tinha chegado ao nível máximo de me expor. Achei que nada podia ser mais profundo do que falar de uma anomalia no meu DNA, que causou um defeito físico que escondi por anos. Eu estava completamente enganada. Havia muito, MUITO mais para expor. Defeitos talvez menos óbvios, menos fáceis de enxergar, mas muito mais profundos, e, consequentemente, mais difíceis de pôr pra fora. Na verdade, a impressão que tenho é que mostrar meus pés e mãos foi apenas uma portinha, sabe? Abri e, pronto, já era. Entrei num mundo novo onde nada pode ficar escondido, e não posso voltar atrás. Mas Deus é tão lindo, tão perfeito, que não me deixou entrar nesse mundo desconhecido sozinha. Ele sabia que seria difícil, e então me inseriu num time pra conseguir fazer isso, num grupo de mulheres que mais que perfeitas, são O BASTANTE.

Esse é o nome de um dos evento da minha grande mentora e inspiração, a Paula Abreu, responsável pelo vídeo que desencadeou este blog e tudo mais, como contei no primeiro texto que escrevi. A ideia é reunir um grupo pequeno de mulheres para apenas… ser – e, tirando essa descrição nada descritiva, rs, eu não fazia ideia do que ia encontrar. Cheguei meio em cima da hora, e 15 mulheres estavam sentadas no chão, em roda, pés descalços. Me sentei quase ao lado da Paula, o coração pulando de emoção de estar conhecendo pessoalmente uma inspiração, a cabeça pensando em pular em cima dela pra um abraço, mas a cara tentando transparecer normalidade, kkkk. Começamos nos apresentando e a ideia era cada uma dizer o nome, quem era e por que estava ali. Fui a segunda e apenas poucas palavras depois… desabei. Contei da transformação que está acontecendo na minha vida, de como tenho tido mais e mais vontade de me expor e, ao mesmo tempo, travo, tenho medo, seja por crenças “bobas” (como a de que uma jornalista séria não pode ser blogueira e youtuber – essa já estou desfazendo) ou por fatos tristes, como… “minha família sente vergonha de mim”. Falei essa frase e meu estômago revirou. Nunca tinha dito em voz alta e expor isso pra pessoas desconhecidas era estar vulnerável demais, mas não podia parar no meio – quem mandou ler o livro A Coragem de Ser Imperfeito, né, Julie? Contei a outra parte da minha história, de ter me separado de um homem e me casado com uma mulher, mas contei, como sempre faço, a “versão contável”, ou seja, sem alguns detalhes que pouquíssimas pessoas sabem. E estranhamente isso me fez sentir mal ali, naquele momento, sabendo que a história que estava contando não era exatamente aquela. E aqui entro na parte mais difícil deste texto, de admitir o meu vício: EU TENHO O VÍCIO DE MENTIR.

Sinceramente? Acho que veio “de fábrica”. Lembro-me da primeira grande mentira que contei pra minha mãe: tirei nota vermelha em matemática e escondi meu boletim, disse que ela não precisaria assinar, sendo que eu mesma já tinha assinado por ela – o que, claro, foi descoberto logo depois… Muitas vieram depois dessa. Para as minhas amigas do (antigo) Ginásio, dizia que já tinha namorado um menino e ficado com dois, quando sequer havia dado meu primeiro beijo – que veio ‘”tarde”‘, aos 15 anos, quase no final do primeiro (também antigo) Colegial. Também mentia na igreja quando no domingo perguntavam se eu tinha lido a Bíblia e orado todos os dias. E o mais louco disso tudo é que eu não só contava essas mentiras com tranquilidade, como tinha a sensação de que elas iam se tornar verdades se eu repetisse muitas vezes, e, portanto, nada estaria errado. E foi assim que começou a minha ruína…

“Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”, diz a música, e minha vida confirmou. Por me convencer de que não havia problema mentir, fui repetindo e repetindo esse comportamento, até que simplesmente não podia mais controlar. Mentia nas coisas pequenas, como ao inventar uma história que tinha acontecido comigo numa rodinha só pra parecer por dentro do assunto ou ao dizer que já estava quase chegando num lugar quando nem tinha saído de casa. Mentia com a minha aparência, nunca, JAMAIS saindo de casa sem maquiagem até completar 29 anos e dizendo que gostava disso, ou então usando roupas “da moda” que eu achava ZERO minha cara, mas, né, todo mundo usava… E aí foi ficando mais sério… Menti para o meu primeiro namorado sobre o motivo pelo qual minha família não tinha curtido muito nosso namoro (falei que era porque ele não era da igreja, quando, láaaa no fundo, sabia que a razão principal era ele ser negro). E depois menti para o segundo, dizendo que não tinha problema ele ser tão mais velho (quando na verdade morria de vergonha de andar com ele usando uniforme do colégio enquanto ele estava de terno). E aí esse namorado virou noivo, e eu menti pra mim que queria mesmo me casar com ele, que ele era o homem da minha vida – porque era perfeito demais pra não ser. Assim como menti pra ele sobre não ter dúvidas quanto ao casamento, mesmo quando ele percebeu minha distância e perguntou se era o que eu realmente queria. E nos casamos. E aí o cenário para a mentira continuar já estava mais que montado…

Antes de continuar, quero esclarecer uma coisa: eu realmente amei meu primeiro marido. Mas acontece que não ME amava do jeito que era, então não mostrava pra ele quem eu realmente era, e aí a sensação que tinha era de que ele amava um outro eu. Na verdade, hoje eu sei que nem eu me conhecia pra poder dizer quem era, e que a minha insatisfação constante era comigo mais que com qualquer pessoa ou situação. Isso foi simplesmente invalidando todo o amor, e a consequência não podia ser outra. Eu o traí. Mais de uma vez, com pessoas conhecidas e desconhecidas, alguns amigos dele, inclusive; alguns maridos de amigas minhas, inclusive. Não, não me orgulho disso, e não, não é nada tranquilo falar disso. Com ele, quando terminamos o casamento, houve uma espécie de conversa de colocar as coisas em pratos limpos, mas ainda assim não tive coragem de ir fundo nos detalhes, mesmo quando ele perguntou. Guardei algumas mentiras, eventos e coisas que fiz apenas para mim. A primeira pessoa que soube de TUDO da minha vida foi a Marry, hoje minha esposa. Algumas coisas eu contei quando começamos nossa amizade, as mais leves, claro. Depois, quando começamos a namorar, contei outras, e quando vi que a coisa estava ficando séria, contei TODO o resto. De novo, não, não foi fácil. Tive medo de perdê-la por causa do meu passado, de ela nunca conseguir confiar em mim o suficiente pra acreditar que eu tinha mudado. E, SIM, EU MUDEI! No dia em que me separei definitivamente e chorei uma noite inteira sem parar, pedi, IMPLOREI a Deus que me perdoasse, me fizesse renascer e me ajudasse a deixar para trás aquela Julie que cometeu tantos erros e fez tantos estragos na vida de tantas pessoas, me transformando numa nova.

Isso aconteceu em um aspecto, que sem dúvida é importantíssimo: eu nunca consegui mentir pra Marry sobre nada do que estava sentindo ou fazendo, nunca nem tive vontade de fazer coisas “pelas costas dela”. Se o meu primeiro casamento começou e seguiu baseado na mentira, com ela foi o oposto, despejei um caminhão de duras verdades, continuei contando outras difíceis pra ela ouvir – como quando afirmei que nada, nem ela, seria mais importante que o meu filho, e que se eu percebesse que nosso relacionamento estava prejudicando o João ele iria acabar. Isso sem dúvida foi importantíssimo pra construirmos o casamento sólido que temos hoje. Mas a mentira, como disse, estava intrínseca em mim, já era um vício instalado, e não me deixou totalmente. Alguns comportamentos de aumentar ou inventar coisas eu continuei repetindo, e a verdade completa sobre o começo do meu relacionamento com ela, por exemplo, apenas três pessoas na vida sabiam. Para todo o resto contamos apenas meias verdades. Não conseguia bancar a verdade completa, não conseguia me livrar da necessidade de sustentar uma mentira. Não até aquele domingo no BASTANTE, quando um acontecimento desencadeou uma mudança ainda mais profunda.

A Paula conduziu uma meditação em que deveríamos pensar em uma dor que sentíamos e olhar para aquela dor de frente, pensando: o que a nossa alma mais pura diria pra ela? A minha dor: a de manter algumas mentiras. Foi forte, muito forte o que senti, e quando a sugestão foi colocarmos nossos sentimentos no papel, o que veio foi ainda mais pesado: Deus me dizendo que me chamou para ser LUZ, mas luz inteira, não meia luz, e que portanto era hora de passar a viver e contar verdades inteiras, não meias verdades.

PÁ! Que tapa!!!

Chorei, me prostrei, rasguei meu coração, envergonhada diante de Deus, e decidi começar a acabar com isso ali mesmo. Literalmente. Quando a meditação acabou, contei para aquelas mulheres que havia acabado de conhecer algumas verdades profundas que nem grandes amigos sabiam. E para minha alegria e confirmação, elas acolherem com muito amor, foram compreensivas, verdadeiras amigas. E isso me ajudou a tomar uma decisão dura: colocaria as cartas reais na mesa, com todos os que de alguma forma magoei ao mentir, a começar pelo meu ex-marido. Elas me apoiaram, incentivaram, suportaram, e se tornaram o time por trás da partida difícil que eu teria pela frente.

A conversa com ele aconteceu exatamente uma semana depois, e contei sobre ela num post que fiz no Instagram no dia seguinte. Foi duro. Muito duro. Mas eu não estava sozinha. Tive a retaguarda das meninas do Bastante, cada uma em sua crença torcendo, orando, rezando, mandando boas energias pra mim; tive a presença de Deus, me lembrando de que aquele passo difícil desencadearia uma série de coisas boas, a começar por poder de fato cumprir o propósito que ele tem me dado; e tive a importantíssima companhia da minha esposa, que decidiu estar junto comigo, para me apoiar e participar daquele momento de entrega da verdade por completo. Eu, além de pedir perdão, agradeci a ele por ter me perdoado e amado, por ter sido um marido incrível apesar das minhas falhas e por ser para o João um pai de tanto caráter. Juntas, eu e a Marry ainda agradecemos a ele por tudo o que fez por nós, que foi MUITO, muito mais do que ele precisava ter feito, dissemos o quanto o amamos como nosso amigo e parte da família, como somos felizes por ele também estar hoje em um casamento feliz e como desejamos a ele e sua família nada além da realização plena e completa. E, no final, ORAMOS JUNTOS, os três, de mãos dadas, agradecendo a Deus pela vida um do outro e abençoando nossos futuros.

“Vocês conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”, diz a Bíblia. E eu, apesar de saber, como escrevi no título, que estou “em recuperação”, hoje me sinto LIBERTA, leve, livre pra poder sorrir e contar TODA a verdade, sem precisar voltar a mentir. Seguirei contando com a ajuda de Deus para isso, porque deixar um vício não é fácil JAMAIS. Mas agora sei que consigo, sei que é possível ser uma Julie que escolhe sempre a verdade, nas grandes e pequenas coisas, e que ser 100% verdadeira vai me deixar cada vez mais perto da mulher que Deus me criou pra ser. Termino com uma imagem muito significativa, da dedicatória que a Paula fez para mim no seu livro* naquela tarde, depois da experiência tão profunda que vivi, e que tem sido o meu lembrete diário de permanecer nesse libertador e curativo caminho da verdade:

WhatsApp Image 2018-10-21 at 18.56.34

A você que está lendo, deixo uma pergunta: te incomoda ler um texto expondo sobre mentiras de forma tão “na lata”? Relendo após ter escrito, confesso que quase desisti de publicar, achei pesado. Claro que sendo eu a “personagem” é pior, mas tive a impressão de que ao terminar de ler você vai estar meio… “credo! Que pessoa é essa?”. E, nesse caso, peço desculpas. Especialmente se você já me conhecia e não fazia ideia dessas coisas todas. A sabedoria popular diz que a verdade dói, e provavelmente é essa a dor que você está sentindo. Mas a minha prática de já ter sido tão mentirosa diz que nenhuma dor é maior que a dor no estômago de estar mentindo para alguém que se ama. Então, fica aqui um conselho: releia… E vá se acostumando com a verdade… A minha, a sua, a de todos nós. Porque, como diz a Brené Brown, “grande parte da beleza da luz se deve à existência das trevas”.

* Clique aqui para comprar o livro Escolha Sua Vida, da Paula Abreu, um dos melhores que li na vida, por um preço especial. 😉

Um comentário em “Eu sou uma viciada em recuperação

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: