É chocando que se ensina

Sim, o título é uma paródia do ditado “é errando que se aprende”. E não estou com pretensão de ensinar nada pra ninguém aqui. Mas a ideia de escrever este texto surgiu depois de alguns dias pensando e observando as reações de algumas pessoas a atitudes minhas, da minha família e de outras pessoas que resolveram levar a vida com AUTENTICIDADE. Calma que vou explicar. Tudo começou há um tempo atrás, na ilha do sol (kkkk!) no dia em que fui para o Bastante (da minha mentora inspiração Paula Abreu) e tive uma super experiência, como contei no post “Eu sou uma viciada em recuperação”. Na hora do almoço, tive uma conversa com uma das meninas sobre o meu papel como jornalista nessa reviravolta toda que tem acontecido na minha vida. A Karina Miotto, colega de profissão, passou por essa mesma transformação, de não querer mais fazer o jornalismo tradicional, cheio de notícias macabras ou inúteis, e no lugar disso escrever textos educativos e “ensinativos” sobre sua paixão, a Amazônia – e o site dela está cheio de coisas bacanas sobre a nossa floresta mais amada. Em determinado momento da conversa, quando falava dos meus medos com abrir minha vida neste blog aqui e no canal do YouTube (chegando em breve!), falei da minha família, a de cima (pai, mãe, irmão etc.), e de como eu achava que quanto mais me expusesse mais chocados eles ficariam e pior eu me relacionaria com eles. Foi aí que a Karina me disse uma frase marcante:

“Tem pessoas que vêm pra chocar, a missão delas é essa, bagunçar as ideias de quem está perto sobre o que é certo ou errado. E a impressão inicial é que não é legal fazer isso, mas é justamente o contrário. Essa missão é muito importante para abrir novas possibilidades nos outros, novos olhares, pensamentos, e é com isso que as pessoas e o mundo evoluem. Você é uma dessas pessoas, então vai fundo, segue seu coração e CHOCA SEM MEDO!”

UAU! Aquilo pegou fundo demais em mim. Pra falar a verdade, passou tipo um filminho na minha mente mesmo, daqueles que dizem que rola quando estamos quase morrendo, sabe? Mas no caso, era mais uma retrospectiva de todas as vezes que eu tinha chocado as pessoas à minha volta, especialmente a família mais próxima. E ali, naquele momento, eu fiquei “assistindo” àquelas cenas na minha cabeça sem perceber que estava na verdade as ressignificando. Tirando o peso, o “mal” que elas causaram e percebendo como foram enriquecedoras, tanto pra mim quanto para os “chocados” em questão. Mais ainda: tomei aquilo como verdade, e dali pra frente comecei a me importar ainda menos com o fato de gostarem ou não, concordarem ou não com uma opinião ou atitude minha. E aí, consequentemente, comecei a prestar mais atenção no que acontecia como reação disso. E vou te dizer que foi… chocante! rs 😉

“Sejam como crianças”

Está na Bíblia esse conselho. Em vários momentos de sua passagem na Terra, Jesus usou as crianças como exemplo a ser seguido, por sua pureza, simplicidade e… autenticidade. Acontece que nós, adultos, não só estamos looooonge de agir como crianças como reprovamos até os pequenos por sua inconveniência. Quer um exemplo? Meu pai vive contando a história de quando eu, com uns quatro anos, perguntei bem alto se a moça que estava ali com a gente no elevador era a mulher que vendia ovos. “Era uma dona toda pomposa, que olhou bem feio pra você e pra mim, que morri de vergonha”, conta meu pai. Não me lembro disso, não faço a menor ideia do que senti na hora, mas posso afirmar que certamente não entendi os “olhares feios”, porque na minha cabeça não estava fazendo nada de errado. E não estava mesmo, uai! Estava sendo sincera, esperta até de conectar dois rostos que segundo o meu pai eram realmente parecidos! Qual o problema então? O problema é que no nosso mundo, adulto, A VERDADE NEM SEMPRE É BEM-VINDA. E como verdade não quero dizer apenas o oposto da mentira, mas também uma opinião sincera, uma pergunta honesta, uma atitude espontânea ou até mesmo um gosto pessoal.

Meu filho, por exemplo, está deixando o cabelo crescer. Não sei se foi inspirado pelo “irmão de coração” que ele tem, como contei no texto que escrevi no seu aniversário, ou se por vontade própria. Nem perguntei. Ele falou que queria deixar crescer e eu disse: “Tá bom, o cabelo é seu! Mas vai ter que cuidar!” – mãe é mãe, né, rs. Isso já faz quase um ano, e o que maaaais ouvi nesse tempo sobre o cabelo do João, principalmente por parte da minha família e outras pessoas próximas é “quando ele vai cortar?”, “já não está grande demais?” e outras “variações do mesmo tema, sem sair do tom”. Logo que a franja chegou no olho, comprei pra ele uma tiara. Aí ainda ouvi que iam pensar que ele era menina 🙄. Já do próprio João, sabe o que eu ouvi? “Se falarem que tiara é coisa de menina eu vou dizer que não, que é coisa de quem tem cabelo grande.” Como podeeeee um menino de dez anos estar mais pronto para perceber que não há problema algum nisso do que pessoas que já viveram um milhão de situações e SUPOSTAMENTE são “mais maduras”? E estou falando dos meus pais, por exemplo, que já me conhecem bem como mãe, sabem que meu estilo é esse e, principalmente, já se chocaram TANTAS vezes comigo, como falei. E aí, quando o João tenta “quebrar um padrão” só sendo ele mesmo, sendo autêntico, sem fazer mal pra ninguém, eles tratam como se fosse um descuido meu – ou pior, como eu fazendo a cabeça do menino pra ser assim, “chocante”, rs.

É fácil? Não!

O triste fato é que isso acontece não só com meus pais, não só com essa situação. A maioria dos adultos não está pronta pra deixar a autenticidade das crianças correr solta por aí. Até minha esposa, que é coach e suuuuper evoluída nesses pensamentos todos, às vezes se incomoda quando o João faz uma dança estranha ou canta alguma bobeira de criança num lugar público. É aquela vergonhazinha que bate de “nossa, vão pensar o quê?”. Eu, que já tô no FUCK-SE faz um tempo, quando rola de estar junto em qualquer dessas situações, seja com o João, outra criança ou mesmo um adulto vestido diferente ou qualquer coisa assim, já mando logo um “e daí? Se elx tá feliz assim e não tá incomodando ninguém, qual o problema?”. Mas aí, esses dias, aconteceu comigo. Assistíamos ao documentário Embrace, da Taryn Brumfitt, em que ela conta sua história de aceitação do próprio corpo após ser mãe e entrevista mulheres pelo mundo que venceram os olhares e julgamentos alheios para conseguirem se amar como são (e se você ainda não viu esse doc, já coloca aí na listinha pra assistir assim que terminar de ler este texto porque é muito maravilhoso, peloamordeDeus!). Ao ver uma mulher que teve o corpo todo queimado ao lado do seu marido lindo, pensei “cara, como ele consegue olhar pra ela assim todos os dias e amá-la?”. Sim, EU PENSEI. Eu, que tenho falado taaanto que não importa a aparência, os defeitos, a roupa, o cabelo.
Tive.
Esse.
Pensamento.

Porque não é fácil nadar contra a maré do “padrão”, do que é “aceito” como “bonito” ou “feio” (tudo assim entre aspas mesmo). E falar sobre olhar o interior é uma coisa quando se tem uma “beleza diferente”, mas quando o corpo todo está queimado e desfigurado… Eu me choquei! E então aprendi mais uma lição!

“Choque, choque, choque, choque por aí”

Viu pelo subtítulo que sou velha, né? Mas ainda tenho muita lição a aprender. A desse dia foi de que eu não só VIM, SIM, PARA CHOCAR, e tenho cada vez menos problemas em fazer isso, mas também QUERO SER CHOCADA!! Quero entrar em contato com mais “diferentes”, olhar realidades, comportamentos, jeitos, rostos e corpos que não são comuns aos meus olhos. E me chocar. E então olhá-los novamente, só que com olhar de aprendiz, de quem pensa “isso me incomoda por quê? que parte de mim ‘não gosta’ do que vê?”. Quanto mais escrevo, aqui no blog e no insta – se não segue ainda, demorou, vai lá! 😉 –, mais percebo que é ao falar do que ninguém fala, do que poucos têm coragem de abrir e admitir, que mais me conecto comigo mesmo e com as pessoas, que mais verdadeira e fiel a mim eu sou. E percebo também na prática aquela fala da Karina que me abriu os olhos para essa fração de segundo que acontece no momento em que algo choca: é só se abrir, não barrar com opiniões, certezas e poréns, que o aprendizado vem.

Se é errando que se aprende, “eu tô de parabéns”, como brincamos aqui em casa, porque vivo aprendendo 😂. Mas se é chocando que se ensina, me sinto uma total aprendiz, tanto na arte de ser chocada quanto na arte de chocar. E essa última, sinto dizer, carx leitor(a), colocarei cada vez mais em prática, porque eu posso não ter concluído o magistério, mas estou começando a descobrir nisso a minha melhor forma de ensinar! 👊🏼💙

juEu e o João chocando por aí com os nossos “cabelão”!

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