A vergonha da minha maior vergonha – e um desafio!

Desde que comecei a ler o livro “A coragem de ser imperfeito”, da Brené Brown, a palavra vergonha vem na minha mente pelo menos uma vez por dia. O livro fala sobre se permitir estar vulnerável, sobre como é natural sentir vergonha e sobre como falarmos abertamente desse sentimento constrangedor faz com que ele seja derrotado. Ontem, quando escrevi no Instagram do blog sobre sempre ter sido “a diferente” da minha família, logo em seguida me lembrei de um fato interessante da minha infância, e que explica e remete a muita coisa: o meu desenho preferido, aquele que eu assistia over and over quando criança, era “O Patinho Feio”. Se você não nasceu nos anos 1980 e não conhece, dá um google. E vai ver que conta a história de um patinho que era diferente de todos os outros na sua família e se sentia mal por isso, defeituoso. E aí que, pensando nisso ontem, tive um estalo: talvez esse sentimento de não-pertencimento que sempre tive seja consequência do fato de que eu tenho um defeito genético, uma alteração cromossômica rara. Ou seja, eu realmente sou diferente, até no meu DNA!!!! E, na minha infância, esse defeito foi o que causou a minha maior e mais duradoura vergonha…

Se você leu o post “A história da mamãe Julie”, já sabe sobre essa questão do defeito genético, mas aqui vou explicar um pouco melhor o caso: o que eu tenho se chama Translocação Robertsoniana, e trata-se de um erro em que, na hora de transmitir o DNA na fecundação, alguns dos pares de cromossomos meio que se sobrepõem, fazendo com que “parzinhos” novos se formem; e aí, não entendendo isso direito, o corpo pode achar que tem algo errado e desenvolver alguma síndrome. A Síndrome de Down, por exemplo, é resultado de uma Translocação Robertsoniana nos cromossomos 14 e 21. A minha é nos 14 e 15, e é tão rara que não há um resultado catalogado do que possa de fato acontecer com quem sobrevive com esse erro. Sim, QUEM SOBREVIVE, porque as chances de ocorrer um aborto quando há essa translocação dos 14 e 15 é de 75% – e por isso é que a minha gravidez era de risco. Não, o João não tem esse mesmo defeito, o que tinha uma chance de apenas 12,5% de ocorrer – e por isso é que o chamo de meu milagrinho! ❤

Mas estou contando tudo isso pra dizer o que de fato isso causou em mim fisicamente: eu tenho no total cinco falanges de dedos (aqueles ossinhos compridos nas mãos) mais curtas que as demais, uma do dedo anelar da mão direita e duas em cada pé, sendo nos dois dedos ao lado do dedão (tanto no pé esquerdo quanto no direito). O defeito na mão não é fácil de ver só de olhar, então só quando de fato mostro uma mão comparada com a outra é que as pessoas percebem. Mas o dos pés, não só dá pra ver fácil, porque como os dedos ao lado ficaram menores o dedão parece bem maior que o resto do pé, como foi o alvo de tantas e tantas zoeiras e provocações na minha infância e começo da adolescência. Sim, sofri bullying por causa do meu defeito, só não existia esse nome ainda.

Geralmente era aquela zoeira acompanhada de risada, mas, como uma menina que já era baixinha, usava aparelho e quase não tinha peitos, ser zoada pelo pé era quase me sentir defeituosa “da cabeça aos pés” – rsrs. Eu ri agora porque pareceu bobo. Mas na época de verdade não foi. A “zoada” que mais me lembro foi em um acampamento, quando eu estava na fila do bebedouro, após uma brincadeira na lama, e resolvi tirar o (muito, muito sujo) tênis. O menino que estava bebendo água terminou, se virou e disse: “Creeeeedo, seu dedão é enorme! Esconde isso!”. E eu escondi. Literalmente, ali na hora, colocando o tênis o mais rápido que pude, e também na vida, pelos vários anos seguintes. Escondi de verdade. Desde esse dia, que eu devia ter uns 12-13 anos, até os meus 24 anos, eu não usei uma sandália aberta sequer fora de casa, a não sei pra ir à praia, e ainda assim, logo que chegava enfiava o pé na areia. Ia à manicure, mas não fazia as unhas do pé jamais, porque senão teria que, óbvio, mostrar o pé. Lembro-me quando minha mãe me convenceu a fazer o pé para minha festa de 15 anos (nem sei por que, já que, claro, meu sapato era fechado), e da vergonha que senti quando vi uma cliente encarando meu pé com aquela cara de interrogação.

Não era fácil achar sempre sapato fechado, especialmente pros eventos, especialmente no calor. Mas eu dava um jeito. Fiquei noiva em dezembro de sapato fechado, me casei em abril de sapato fechado, fui pra lua de mel na praia com apenas um chinelo e o resto só… sapato fechado. Quem era bem próximo, com meu então namorado/marido, família, amigos mais chegados, já sabiam e nem tocavam no assunto. Quem por algum motivo descobria, achava estranho, mas não falava. E quem queria me atingir… bem, sabia que era só comentar “do dedão grande”. Foi só aos 24 anos, quando tive uma experiência bem marcante e que foi a primeira grande transformação pessoal pra mim (um dia conto aqui, com certeza…), que resolvi assumir meus pés daquele jeito mesmo e começar a usar sandálias. Olha que frase estranha: “assumir meus pés”! Parece uma bobeira precisar fazer assumir uma coisa tão básica, né? E hoje, depois de tudo o que já mudei e assumi e que foi beeeem mais difícil que isso, rs (se não sabe do que estou falando, leia os posts “Dois casamentos e uma felicidade” e “A história de nós duas”), acho mesmo bobo. Mas sem dúvida naquele momento não era, porque me lembro da libertação que foi. Lembro-me, inclusive, do primeiro dia que resolvi sair de rasteirinha e, no metrô, estava em pé e percebi uma mulher sentada perto de mim olhando pros meus pés. E como foi difícil não sentir a tal vergonha! Mas eu consegui, passei essa barreira e foi cada vez ficando mais fácil, mais fácil, até não ser difícil at all!

Um tempo depois, quando veio a gravidez e esse defeito genético quase me impediu de ser mãe, lembro de pensar “antes a consequência fosse só os ‘dedões grandes’…”. O João, como eu disse, tinha grandes chances, mas não herdou esse meu erro genético, porque Deus quis me dar isso de presente! Mas no comecinho da gravidez, quando ainda não sabia disso e qualquer coisa podia acontecer se ele tivesse herdado (como não ter um braço, uma perna etc.) também pensei “que seja algo minúsculo e insignificante como o meu defeito”. Porque os problemas que criamos na nossa cabeça ficam bem menores quando um problema de verdade chega, né? Por outro lado, classificar o problema de outra pessoa como pequeno é egocêntrico, porque naquele momento para ela pode ser enorme. Então qual seria a medida exata pra encarar um “defeito” nosso?

Poucas coisas foram tão impactantes para mim nesse pouco mais de um ano que venho mergulhando no desenvolvimento pessoal do que uma frase de um vídeo da minha mentora inspiração Paula Abreu. Quatro palavras, seis letrinhas que têm sido o meu alvo de pensamento pra vida desde que as conheci, então prepare-se, porque podem ser transformação para você também. São elas: “o que é é”. Simples assim. Você é exatamente quem devia ser. Com seus defeitos, sejam físicos ou de personalidade. Com seu corpo, seja magro, gordo, baixo ou alto. Com seu cabelo, seja enrolado, liso, natural ou colorido. Com as suas “diferenças”, sejam de pensamento, profissão, jeito de encarar a vida ou de amar. E, portanto, não razão nenhuma sequer para que você sinta vergonha desse/a você que você é. Se tem alguma coisa que te incomoda, seja no seu corpo ou na sua personalidade ou atitudes – e, veja, eu disse “que TE incomoda”, não que incomode aos outros, ou que destoe do “padrão”!!! –, vá atrás e mude, claro, para que você seja o/a melhor você para você. Mas nunca, jamais, ache que sentir vergonha de quem é ou dos seus defeitos e falhas é algo normal e que deve ser cultivado.

Quero terminar este texto, que está sendo tão libertador pra mim, com três coisas: uma mensagem, uma inspiração e um desafio.

A mensagem vem do final da minha história preferida da infância. Sim, vou contar como acaba a história do Patinho Feio, porque certamente ela de alguma forma ficou marcada no meu coração ao longo da minha vida, me ajudando a olhar de um jeito diferente para o meu jeito diferente (e espero que essa mensagem chegue e se instale no seu coração também): “Afinal ele não era um patinho feio mas um belo e jovem cisne, que só se sentia feio por ser diferente dos demais patinhos da sua família! A partir desse dia, não houve mais tristezas, e o patinho feio viveu feliz para sempre sendo o belo cisne que havia nascido para ser!”.

A inspiração é o perfil de uma modelo que conheci há pouco tempo, a Mariana Mendes, que tem 25 anos, além de modelo faz faculdade de moda e tem uma pinta bem grande, como uma mancha escura no meio do rosto. E, sim, ela é MODELO! Há pouco tempo ela criou um canal no Youtube, para, segundo ela mesma diz no vídeo de abertura, “ajudar as pessoas a ver que mesmo tendo uma característica fora dos padrões impostos pela sociedade você tem que se amar como é, porque isso é natural, nós somos como somos e temos que ter uma boa autoestima mesmo assim!”. Eu achei a autoestima dela muito mais que boa, FODÁSTICA, e me inspiro sempre por qualquer foto ou texto ou vídeo que ela faz, então segue de sugestão pra você se inspirar também!

E o desafio… esse eu tava na dúvida, porque só fazia sentido lançar aqui se eu entrasse junto. Então to aqui me enchendo de toda a coragem que acumulei ao assumir defeitos e amores e opiniões contrárias e questionamentos nessa minha #vidadeíndigo pra terminar este texto com uma foto que não é fácil pra mim nem tirar, quanto mais postar num lugar público, o mais público possível, que é a internet. Antes da imagem (sim, to enrolando porque não tá fácil…), o convite: topa participar comigo desse #desafiodaautenticidade? A ideia é você mostrar uma imagem de algo que é muito seu, mas que foi difícil assumir – ou que você só vai fazer agora, com esse desafio! Vou lançar lá no Insta do Blog esse convite também, e aí você pode participar postando a foto aqui ou lá. Pode ser uma foto que mostre a sua profissão que lutou pra ter apesar das críticas dos outros, a sua opinião contrária à da maioria da família, uma coisa na sua personalidade que muitos criticam, mas você não está nem aí ou, claro, alguma parte do seu corpo que você tenha tinha vergonha de mostrar pro mundo inteiro até aqui, mas que agora, chega! A minha, acho que nem precisava falar, né… Aqui vão, pela primeira vez explícitos numa foto pra TODO MUNDO VER, meus defeitinhos dos pés e da mão – mas que, hoje sei, são na verdade qualidades do meu coração:

Uma falange mais curta no dedo anelar direito e uma em cada um dos dois dedos ao lado
do dedão, nos dois pés. Esse é o resultado do meu defeito genético, que foi motivo de
bullying na adolescência e a vergonha que carreguei por tantos anos.
Mas agora, CHEGA! E você, vai libertar o quê? ❤

PS.: gravei meu primeiro vídeo pro IGTV falando desse #desafiodaautenticidade, e mostrando o DESAFIO REAL OFICIAL que foi pra mim tirar essas fotos, principalmente a dos pés. Corre lá!

2 comentários em “A vergonha da minha maior vergonha – e um desafio!

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