Agora vão descobrir que eu transo…

Este é um dos textos mais difíceis de publicar. É também um daqueles textos que foi nascendo aos poucos dentro de mim, quase que numa gestação, em que uma sementinha é plantada e vai crescendo aos poucos, até que… Chega o dia do parto. Sim, vamos de metáfora, claro, e das que têm a ver com o tema… Trazer este texto ao mundo está sendo um verdadeiro “trabalho de parto”, com suor e aquele medo que envolve saber que é um momento decisivo. Mas, calma, antes de chegar no choro do bebê, quero contar como foi a história dessa gestação.

A sementinha foi plantada algum tempo atrás, quando eu fiz uma constatação: sexo era praticamente o único tema da minha vida que eu nunca tratei publicamente, nem aqui no blog, nem nas redes sociais, nem sequer em um story que some depois. E aí me perguntei: por quê? Por que, se sou adulta, se tenho uma vida sexual ativa, se gosto de sexo. Por quê nunca falei disso aqui? E foi justamente a conclusão que me deu indícios de que, sim, isso precisava mudar.

Casal gay = sexo

Essa é uma comparação que sempre me incomodou. Quando me descobri lésbica, já com mais de 30 anos, depois de um casamento (com um homem) e tendo um filho (ou seja, não era nada virgem!), comecei a prestar mais atenção ao tema, a perceber o que pensavam, achavam e falavam dos gays. Isso, somado às minhas próprias experiências durante anos “sendo hétero”, me mostrou que quase tudo o que remetia a lésbicas envolvia sexo.

Como transam duas mulheres?
Qual das duas é o homem na cama?
Gay é mais promíscuo mesmo?
É estranho ver duas pessoas “iguais” se beijando.
…..

Essas e tantas outras perguntas e achismos rondavam, e talvez sigam rondando muitas mentes héteros, a minha do passado incluída. E naquela época eu nunca parei para pensar o que isso fazia com os casais homossexuais, de que forma tantos casais de homens e mulheres eram afetados por esse julgamento de que, se a palavra gay vem acompanhada da palavra sexo “gritando” como num anúncio em neon.

E aí eu me tornei esse casal

E a primeira coisa que descobri é que, tirando o ato na cama, em que obviamente algumas práticas sexuais são diferentes de um casal hétero, em todo o demais um casal é apenas um casal, como qualquer outro, seja hétero ou homo ou trans ou o que for. As conversas são as mesmas, assim como a rotina, as brigas, os passeios, as viagens, os problemas. Quando estava casada com a Marry, inclusive, por algumas vezes disse a amigos uma frase muito marcante:

“Às vezes tinha vontade de colocar câmeras pela nossa casa, para que as pessoas vissem que somos um casal normal como qualquer outro. O sexo é apenas uma parte, exatamente como para qualquer outro casal.”

Essa era a verdade, mas não era como eu me sentia em público. A qualquer demonstração mais explícita de carinho que tinha com a minha esposa, algumas caras feias denunciavam pensamentos como “que pouca vergonha”, “é um absurdo”, “ao menos deveriam esconder”. Mas por que, se eram duas pessoas casadas? Por que, se ao verem a mesma cena com um casal hétero esses não seriam os pensamentos. E, calma, eu sei que estou generalizando, e não quero dizer que TODAS as pessoas sentem ou pensam isso. Mas quero te fazer um convite.

Seja sincerx consigo mesmx

Pense nas últimas vezes que viu um casal hétero de mãos dadas, ou dando um beijinho, e tente se lembrar de que pensamentos teve. Agora faça o mesmo recordando dos últimos casais homossexuais que viu. E responda, com sinceridade: há diferença ou não?

E veja, nem estou aqui considerando os pensamentos religiosos, ou de condenação sobre o relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo. Estou apenas dizendo que quando vemos um casal hétero quase nunca um dos primeiros pensamentos é “nossa, eles transam!”, mas quando é um casal de mulheres ou de homens é como se fosse até difícil afastar esse pensamento, tipo “nossa, nem quero pensar neles/nelas transando!”. Percebe? Eu, conversando com diferentes grupos, pesquisando e analisando a mim mesma antes de me descobrir, percebi. E aí, quando eu me tornei esse casal, houve uma consequência.

Eu me reprimi sexualmente

E sim, me reprimi em certa medida também entre quatro paredes, com a minha própria esposa, mas principalmente fora delas. Se antes, num casamento hétero, eu fazia piadinhas de conotação sexual, brincava com o assunto e não tinha vergonha de dizer abertamente a amigos que, sim, transava, em um relacionamento lésbico passei a fugir de tudo isso. Conhecia alguém, começava a conversar e era como se pensasse “ai, espero que essa pessoa não descubra que eu transo”. Me dava vergonha. E, por mais óbvio que fosse, eu “escondia” essa informação o máximo possível. Porque não queria de jeito nenhum que o meu relacionamento que era de amor fosse visto com a etiqueta do “duas mulheres transando”.

Quando havia homens héteros e desconhecidos na roda então… Me represava ainda mais, com medo, pavor até de perceber nos olhos deles que a imaginação estava voando e os levando à (INFELIZMENTE) famosa fantasia de um homem transando com duas mulheres. E muitas vezes eu percebi essa situação com clareza, e me enchi de ódio, raiva e vergonha ao mesmo tempo, e a cada vez que isso acontecia (e, repito, foram muitas), eu me reprimia ainda mais. E isso me causou danos, me trouxe culpas que eu não precisaria ter, me impediu de me descobrir ainda mais sexualmente e de certa maneira afetou também o meu relacionamento, já que nós duas, ao fazer de tudo pra evitar receber essa etiqueta, acabamos não tendo total liberdade sexual dentro do próprio casamento, que é certamente o que todo casal deseja e merece ter.

Então eu fiquei solteira

Depois de anos e anos casada (porque praticamente emendei um relacionamento no outro), eu me vi solteira, e com vontade de me explorar sexualmente, e viver novas experiências. E aí eu tive essa oportunidade! E foi a partir de uma conexão sexual absurda que entrei num novo relacionamento, que me fez viver pela primeira vez minha plenitude sexual. Tinha uma parceira que me completava totalmente nesse quesito, com quem tive não apenas uma química surreal, mas também uma inexplicável conexão (e, sim, são duas coisas diferentes, quem sabe um dia conto aqui como descobri).

Ela me desejava, gostava de me ver usando uma roupa sexy e não se importava de deixar claro nos gestos e comportamentos em público que, sim, éramos sexualmente realizadas. O relacionamento não seguiu adiante por uma série de motivos que certamente ainda vou escrever aqui, porque ao mesmo tempo que me trouxe coisas bonitas me machucou muito também. Mas não posso negar a grande importância que teve, e pela qual eu serei eternamente grata, de me trazer de volta pra mim mesma nessa área, despertar algo que esteve muito tempo adormecido, e me fazer amar uma parte de mim que eu antes sentia culpa e tentava esconder…

Eu sou uma mulher sensual

Digo isso sem ego, mas com verdade. Sou naturalmente sensual, recebo olhares, cantadas, elogios e desperto nas pessoas essa curiosidade, principalmente quando digo que sou lésbica e “rompo os esquemas” (como dizem por aqui) de quem esperava um estereótipo totalmente diferente. Mas para admitir tudo isso, especialmente agora que estou novamente solteira, tive que superar um fantasma que quase sempre acompanha o tema sexo: a culpa!

A culpa por não ser a mulherzinha recatada e do lar que eu, você e todas as mulheres fomos ensinadas de alguna forma a ser. A culpa por provocar olhares e sensações que “são coisa de put@”. Sóquenão! Não são. São coisa de ser humano, mais visíveis em quem tem mais forte essa área da vida que de tão importante faz parte das necessidades básicas do ser humano, mas a gente insiste em esconder e abandonar. E estando solteira ainda tentou entrar em cena a culpa por seguir querendo uma realização sexual, que não depende de estar namorando. A diferença é que dessa vez eu não deixei.

Mais madura, mais confiante e mais preparada para os julgamentos e caras feias, eu decidi que estava na hora, e que não fazia sentido buscar uma realização pessoal integral que não envolvesse me aceitar como uma mulher que, além de jornalista, escritora, amiga, mãe, também é sensual, sexy até, e que, sim, gosta de sexo. Com mulheres. E não há nada de errado, inescrupuloso, indecente ou vulgar nisso. Ao contrário, mostra apenas que Deus me criou de maneira perfeita, com um corpo que, além de flexível, forte e saudável, também sente tesão! (Você não??)

Tá, mas por que contar tudo isso, Julie?

O fato de talvez você ter chegado aqui me fazendo essa pergunta é parte da resposta. Porque justamente por não se tratar desse assunto de maneira natural, por não ser falado abertamente, por não se ter uma visão respeitosa do que é o sexo para um casal ou uma pessoa homossexual é que foram sendo criados tantos mitos e fantasias e achismos e julgamentos. E se tem uma coisa que eu entendi sobre a minha missão neste mundo é que ser luz significa trazer clareza para o que está obscuro, escondido. E acredite, não é sempre fácil pra mim fazer isso.

Como falei, foi uma gestação inteira pensando, matutando, repensando, conversando com amigas e digerindo o assunto até chegar no ponto de estar pronta pra escrever sobre ele. E depois que escrevi ele foi lido, relido, mudado, atualizado, por meses. E, ainda assim, está mesmo sendo um trabalho de parto, que acelera meus batimentos cardíacos, descompassa minha respiração e me faz querer desistir enquanto escrevo. Mas não vou, não posso desistir.

E não é só por mim, não é só em nome da minha liberdade de ser autêntica e poder, a partir desse texto, sentir que não estou escondendo uma parte de mim com medo de que os outros descubram. É também em nome das muitas mulheres, lésbicas ou mesmo héteros, que sentem vergonha de gostar de sexo, de querer ter prazer, de se sentir sexy, de ter uma vida sexual ativa e realizada. Em nomes das mulheres que já sentiram medo de dançar numa festa e “parecer” que estão provocando, em nome dos casais lésbicos que tiveram que ouvir um homem pedir pra ver um beijo numa balada. E também em nome do meu filho, com quem eu construí uma relação que me permite falar desse assunto, contar tudo o que ele tem curiosidade de saber (de acordo com o que faz sentido pra sua idade), um adolescente que está cada vez mais preparado pra ir pro mundo, e eu só desejo que esse mundo esteja também preparado pra ele.

Eu não tinha necessidade de escrever este texto. Mas ele é mais uma coragem que eu senti que tava na hora de ter: a de exteriorizar que não há nada de errado em ser a expressão máxima de quem sou, em TO-DOS os aspectos da minha vida, e que isso inclui não só a minha orientação como também a minha prática sexual. É mais um grito de liberdade, liberdade de me sentir linda, de saber que sou sexy e que sei seduzir quando quero (e posso), liberdade de experienciar o prazer sexual que meu corpo foi feito para sentir, seja sozinha ou acompanhada. E, repito, não é só por mim. É pelas Julies do passado, as que se reprimiram, as que sentiram culpa e vergonha, e é também por você que ao chegar ao final deste texto está se sentindo um pouco mais aliviada, mas em paz consigo mesma como uma adulta que tem e pode satisfazer os seus desejos sexuais. Então vai lá, sente na pele e no corpo esse prazer da forma que melhor te aprouver, e manda a culpa sozinha pro caixão. E comemora, e agradece!! Porque só quem está viva e saudável sente tesão e transa! 😉

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