O ano em que fui salva pela “Metáfora dos Dedos e Anéis”

Um ano… sim, faz quase tudo isso que não escrevo por aqui. E, enquanto digito estas linhas, duas sensações percorrem meu corpo. A primeira é: “eu realmente não tinha como ter vindo escrever aqui antes”. E a segunda é: “eu realmente estou pronta para voltar a escrever aqui”. O motivo desse “tempo” foi um só: ser fiel a mim e à minha autenticidade! Esse período, desde outubro do ano passado, foi um ano e tanto, dentro de outro ano e tanto, o 2020 que nos enclausurou, quase me enlouqueceu e então me transformou. Me senti tipo no mar quando está muito agitado e vem uma onda gigante, que acalma e muda completamente a maré, e aí as outras ondas seguintes, que não são tão enormes, ficam parecendo pequenininhas demais, só que na real não são, e aí você pode acabar se afogando por estar muito confiante e ser pega despreparada. Saca? Foi assim que, no meio de tantos sentimentos novos que foram causados pela situação totalmente nova que vivemos como pessoas e como (novo) mundo, eu quase me perdi de mim… Quase, mas fui salva, por uma de minhas próprias criações…

Uma metáfora que trago na mochila

Eu amo metáforas. E se você já me leu muito por aqui ou no Instagram certamente percebeu, porque é difícil que me saia um texto inteiro sem usar nenhuminha. Mas não uso só para escrever, uso na vida também, em conversas, explicações, discussões. Algumas eu escuto e acho tão pertinentes que nunca mais esqueço ainda que não lembre como as conheci. Algumas surgem de conversas profundas, de sessões de terapia, de pensamentos filosóficos entre amigos. E outras eu mesma crio, em momentos únicos de iluminação e inspiração, seja escrevendo ou falando, e se tornam como mantras para mim. Foi o que aconteceu com a “Metáfora dos Dedos e Anéis”, e desse nascimento eu me lembro muito bem.

Um ano antes de me separar do meu então marido, estávamos tendo uma conversa séria (já sobre separar-nos) em que eu falava de coisas que estavam me custando minha identidade, minha essência, comportamentos que eu mesma havia tomado com o tempo e que àquela altura faziam com que não me sentisse mais sendo a Julie. Então, em um determinado momento, usando a aliança como personagem, eu disse: “Veja, é como os dedos e os anéis, andam juntos, mas têm importâncias diferentes. Algumas coisas são minhas, porém removíveis, eu posso tirá-las, abrir mão, mudar, em prol de uma relação, de um sonho, de um amor, do que for. São como os anéis que, apesar de meus, podem ser tirados e isso não machuca. Mas há outras coisas que são não apenas minhas, e sim parte de quem eu sou, que compõem a Julie em sua totalidade e, se abro mão delas, seria como arrancar um dos dedos com a desculpa de que ainda terei outros nove. É até possível fazê-lo, mas dói muito, machuca, sangra, e deforma quem eu sou. Dos meus anéis eu posso abrir mão, mas dos meus dedos não.”

A conversa continuou e eu não me lembro exatamente como terminou naquele dia, mas é fato que o nosso casamento terminou em definitivo no ano seguinte por um desses dedos que eu acabei descobrindo: sou lésbica, me sinto atraída física e afetivamente por mulheres, o que significa que não poderia continuar casada com um homem, por mais bom caráter, companheiro e ótimo pai do meu filho que ele fosse (e era!, e continua sendo!). E assim tem sido desde então quando vê deparo com uma situação similar que me exige mudanças. Com a ajuda dessa metáfora eu paro para analisar os meus “dedos e anéis”, ver se posso abrir mão de algum dos anéis para tornar melhor uma questão (pessoal, profissional, relacional etc.) e, acima de tudo, garantir que meus dedos estão sendo respeitados. E aí é que entra o turbilhão do ano passado…

Quando dá vontade de “anelizar” um dedo

Vou explicar: nós, seres humanos, queremos ser aceitos, amados, cuidados, respeitados, sentir-nos seguros e em companhia de alguém que também amamos. Isso é universal e, ainda que você esteja lendo e pensando “eu não, estou bem sozinha”, o fato é que a longo prazo, todos precisamos de relações saudáveis para viver verdadeiramente felizes. O problema é que, essa palavra “saudável” pode ser adaptada segundo o contexto e, quando acontece de querermos MUITO estar numa relação, corremos o risco de acabar abrindo brechas para situações não saudáveis serem vistas como saudáveis. Abrimos mão de coisas imprescindíveis, fechamos os olhos para ações que nos ferem, tapamos os ouvidos para frases que nos diminuem, deixamos de atuar com a autenticidade de quem realmente somos para nos adequarmos ao outro. Em resumo, deixamos que um dedo acabe sendo tratado como anel. Ou ainda: deixamos que um dedo pareça não tão importante assim e possa ser arrancado só por estarmos sendo respeitados nos outros nove, nos esquecendo de que isso também é uma maneira de violência contra a nossa autenticidade.

Assim eu me senti diversas vezes nestes últimos doze meses. Me relacionei com algumas pessoas, trabalhei em alguns lugares, morei em algumas cidades. E em quase todos eles houve algum momento em que tive que me lembrar de “proteger os meus dedos” para garantir que nenhum deles fosse “anelizados” (palavra que acabo de me dar licença poética para inventar). E, não, fazer isso também não é fácil. Porque muitas vezes perdemos algo quando nos escolhemos acima de qualquer coisa. Podemos perder a admiração dos outros, uma oportunidade de trabalho, uma amizade ou até um grande amor. Mas, como alguém que perdeu quase tudo isso recentemente por se defender, eu sigo dizendo, vale a pena.

É de doer, mas não é de morrer

Outra frase que falo bastante entre as minhas amigas, quando estamos nos ajudando a tomar alguma decisão difícil, que dói, custa… mas não mata. Ainda que às vezes internamente pareça que pode chegar perto disso, principalmente em assuntos do coração… E advinha se não estou, de novo, falando por experiência própria? Eu sofri por amor neste ano. E, se não contar a adolescência, creio que posso dizer que foi a primeira vez que eu realmente sofri por amor. Sofri muito, porque amei muito. Amei tanto que sem perceber fui abrindo mão de dedos, no plural, fui “anelizando” um monte de coisa que não era anel e demorei, bastante até, para conseguir enxergá-lo (o amor cega, dizem…). Quando consegui, e olhei para os meus dedos, quase não os reconheci, de tão deformados por falta de amor-próprio que estavam… E então tive que tomar a difícil decisão de abrir mão de um relacionamento amoroso que me dava muitas coisas lindas e incríveis, tratava com carinho, respeito e preenchia plenamente alguns dos meus dedos, mas estava diminuindo, machucando e apagando outros. E, assim, compensando de um lado para tirar de outro, a conta não fecha. Então eu disse não, e me escolhi.

Também disse não para propostas de trabalhos que poderiam me dar um bom dinheiro, mas me tirar vida, assim como disse não para abaixar preços de orçamentos do meu trabalho por saber do meu valor, e não aceitei julgamentos do meu trabalho que não eram verdadeiros. Da mesma forma cortei ou diminui o contato com pessoas que não me faziam bem, ou que eu sentia que estavam me manipulando, ou que simplesmente já não ressoavam com o meu momento. E também falei não para algumas cidades e possibilidades de vida que talvez fossem mais interessantes aos olhos da maioria dos viajantes, mas que não me conectavam tanto quanto outras mais simples, talvez arriscadas e solitárias, mas minhas! Todas foram maneiras ótimas de exercitar a defesa dos meus dedos, de não abrir mão daquilo que realmente é importante pra mim, mesmo que outros olhem com cara de “mas isso podia ser um anelzinho, não?”. NÃO! Se é dedo, é dedo. E sabe o que aprendi desse pool de perdas que rolou na temporada 20/21?

“Eu já sabia!”

Os dizeres da placa que ficou tão famosa em estádios de futebol brasileiros apareceu em cenas da minha vida em quase todas essas situações recentes em que tive que parar um momento e defender meus dedos. “Eu já sabia, alguma coisa lá atrás já me dizia que isso ia acabar assim.” Esse pensamento, às vezes acompanhado de comemoração, às vezes de raiva, às vezes de choro, às vezes de inconformismo, vinha como um recado repetido, me fazendo olhar para aquela que se tornou uma das minhas melhores amigas durante os meses de 2020 confinada: a intuição. Impressionante como ela sabe das coisas. Inclusive, quando eu percebia que “já sabia”, sabia que ela era quem tinha me contado. Bem antes de stand up for myself e ter que brigar pelos meus dedos, ela já tinha me avisado de várias dessas situações.

Um incômodo no corpo, um pensamento que vem tão preciso como um dardo no centro do alvo, uma pontada na boca do estômago, uma sensação de despertencimento inexplicável. Ela fala comigo de muitas maneiras, é sempre a primeira a gritar quando alguma coisinha tenta machucar minimamente um dos meus dedos, como que avisando “psiu, cuidado aí, ó!”. Mas eu ouço esse aviso logo de cara? Geralmente não. Geralmente ignoro, olho lá para os outros dedos sendo lindamente cuidados e finjo que nem escutei. E tudo bem, porque a intuição, além de educada, é insistente, e com classe vai me dando mais recadinhos aqui e ali. Até que um dia, CLICK, “a ficha cai”, como diriam (nós) os velhos. E aí ela, em toda a sua classe, levanta a plaquinha e eu leio. “Eu já sabia!” E, não, ela não me joga na cara, dizendo “tá veeeendo, eu aviseeeei”, como a gente faz às vezes em família ou entre amigos. Ela só dá uma última sugestão com a mesma usual educação: “Talvez doa um pouco menos se me ouvir antes da próxima vez…”. E eu respondo “Talvez… E obrigada por não desistir, continue me avisando, com você eu só ganho.”

E por falar em ganhos…

Tá aí outra lição aprendida nessa temporada de (variados) let it go: dizer não para o bom é dizer sim para o ótimo! E também vi isso acontecendo na prática, ao deixar ir coisas e pessoas com um pouco de medo do “não ter” e logo em seguida me ver recebendo e tendo sim, em mais quantidade e qualidade inclusive. Neste exato momento, depois de passar por cinco cidades espanholas que chamei de minhas, algumas das quais parecia que saí perdendo, eu olho em volta e vejo como só ganhei. Ganhei com cada decisão tomada, as boas e as péssimas. Ganhei com cada pessoa que deixei entrar na minha vida, as que me fizeram muito bem e as que me fizeram muito mal e as que fizeram um pouco de cada. Ganhei com cada sim que dei com o coração aberto, tendo ele sido machucado depois ou não. E ganhei com cada não que dei, porque eles vieram seguidos de uma chuva de sims tão mais linda que eu nem imaginava.

Esses dias, falando com meus pais (que apesar de longe me acompanharam bem de perto nesse tempo) e comemorando um desses presentes que recebi recentemente, minha mãe falou “Julie, você está vivendo a vida que pediu a Deus, né?”. E eu tive que dizer que não, porque nem teria imaginação suficiente para pedir tanta coisa aleatoriamente bonita que tem me acontecido. De vir morar numa cidade meio sem planejamento e já ter uma TURMA de amigos duas semanas depois a estar realizando sonhos antigos como morar na praia e cantar na noite, e ainda revivendo a alegria de dançar forró, que há pouco parecia tão distante. Aí no dia seguinte foi meu pai que rebateu minha mãe, mandando um texto da Bíblia que diz que Deus é capaz de fazer muito mais do que pedimos ou pensamos, e aí sim concordei. Mas faria um adendo: “especialmente quando a gente se defende”. Porque sim, Deus faz a parte dele sempre, mas quando nós fazemos a nossa de dizer sim e não unicamente de acordo com o que ressoa em nós, e não pensando nos outros, no conforto, no medo, é que acontece a mágica, e tudo se alinha.

Neste último ano, eu quase…

Quase repeti padrões de relacionamento que estavam me fazendo entrar novamente no papel de salvadora de pessoas que têm questões fortes para tratar, em vez de focar em tratar as minhas próprias questões.

Quase desisti de me tornar uma professora de yoga, algo que sentia como um chamado da minha alma, por ser afetada pela síndrome da impostora, que me fazia acreditar que “tem muita gente melhor que eu nisso por aí”.

Quase saí de um lugar que considero casa e me arrisquei em outro em meio à pandemia só para evitar um confronto no relacionamento.

Quase voltei atrás na relação boa e saudável que vinha construindo com meus pais quando percebi que precisava ocupar o meu lugar e admitir que eles são mais sábios, têm melhores conselhos e mais conhecimento, e que vale mais a pena pedir ajuda pra eles do que querer provar que posso sozinha. E nunca foi tão importante e realizador poder contar com o colo deles, mesmo a distância!

Quase vendi minha tranquilidade por um bom dinheiro, assim como quase entreguei meu trabalho por um preço muito menor do que ele vale.

Quase me permiti seguir numa relação que me dava crises de ansiedade quanto mais eu vivia minha autenticidade, por fingir que não era tão grave assim.

Quase deixei que os meus principais valores na vida – liberdade, autenticidade, igualdade, variedade – fossem apagados ao seguir planos que não eram os meus, por medo do que poderia acontecer comigo no futuro.

Nessa temporada 20/21, eu quase não fui a Julie mais verdadeira, autêntica, pura em sua essência muitas vezes. Mas consegui! Com ajuda, com força, com lágrimas, com estudo, com mudanças, algumas bem difíceis, mas que valeram a pena. Porque defendi os meus dedos, deixei ir os anéis que já não os embelezavam e abri espaço para receber o novo. E meu único desejo para esta nova temporada é que eu consiga me salvar de novo e de novo, quantas e todas as vezes em que eu quase me perca de mim.

No dia da minha chegada em Valencia, lugar que me presenteou com essa
“virada de ano” e me devolveu a liberdade de ser quem sou!

2 comentários em “O ano em que fui salva pela “Metáfora dos Dedos e Anéis”

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  1. Como sempre uma leitura gostosa e encantadora. A vida nua é crua. Obrigada por compartilhar tantas experiências e aprendizados reais. Que você possa continuar nos presenteando com a sua escrita leve que nos prende a cada frase. Bjs e carpe diem!

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