O topless que me ensinou sobre amor-próprio e liberdade

Começo a escrever este texto deitada na areia de uma praia na região sul da Espanha, e vestindo apenas dois itens: a parte de baixo do biquíni e meus óculos de sol. Estou de bruços e portanto meus peitos estão levemente escondidos, mas se tiver que me sentar e eles forem totalmente revelados, há uma única pessoa que pode se incomodar com isso: eu mesma. Aqui na Europa o topless é muito comum, e em todas as praias que visitei vi mulheres só com a calcinha do biquíni – acabou de passar uma aqui agora, por exemplo. Não me incomoda, nem me espanta, nem me empolga. São “apenas” corpos, diferentes, diversos, únicos, mas apenas corpos. Algo que sempre foi tranquilo pra mim pensar sobre o corpo dos outros, já sobre o meu…

Demorei pra amar e estar totalmente a vontade com o meu próprio corpo. Ele já me causou muitos sentimentos, mas “confortável” por muito tempo não era foi deles.

Já tive vergonha do meu corpo…
Dos meus peitos pequenos, dos meus pés “defeituosos”, da minha barriga pós-filho. Na adolescência, meus seios foram motivo de chacota por meninas, mais peitudas, e por meninos, que queriam as peitudas. O dedão foi tão zoado, como contei no início deste blog no post “A vergonha da minha maior vergonha”, que eu deixei de usar sandálias abertas por anos, até na praia. E a barriga pós-gravidez… bom, se você é mãe e não é uma exceção fitness, vai saber bem que vergonha é essa…

Já tive neuras com o meu corpo…
De fazer dieta pesada quando pesava uns 6 kg menos do que hoje, daquelas de contar calorias e passar fome; de viver prendendo o abdômen pra parecer mais magra ainda na adolescência, porque na verdade por mais magra que esteja tenho o estômago alto então a “saliência” estava sempre ali; de não sair sem maquiagem nem pra ir até a padaria, porque simplesmente não me achava bonita, ou, sendo mais sincera, não achava que iam me achar bonita. Dessa última neurose eu só me livrei aos 30 anos, e ainda levei mais alguns para entender que ser bonita ou não não depende do que os outros acham, mas de como eu me sinto.

Já usei o meu corpo como objeto…
De sedução, antes para homens, depois para mulheres, como forma de me fazer sentir mais amada, mais desejada, mais mulher. E essa é uma das coisas que me dá mais vergonha falar, porque eu de verdade sinto que cheguei a “prostituir” meu corpo, no sentido de usá-lo como atrativo para ganhar coisas, fossem elogios na rua, a atenção de alguém ou mesmo para receber algo que queria. E conseguia, tinha esse domínio de usar o meu sex appeal para receber coisas que me sentiam fazer melhor, mais dona da situação, sem notar que o que isso só me fazia era ser cada vez menos dona de mim.

Já escondi o meu corpo também…
De homens e de mulheres, pelo medo de não ser amada quando vissem os defeitos, as estrias, cicatrizes, flacidez e outras coisas que as roupas e o escuro escondem. A mais absurda que me lembro é não conseguir, por muuuuuuitos anos, ficar deitada de barriga pra cima no claro e com os braços esticados ao longo do corpo (quem faz yoga vai entender: como em savasana, sabe?), porque os seios, pequenos, caíam para os lados e aí é que ficavam minúsculos mesmo. Depois de amamentar então… pfff! Piorou – os peitos e a necessidade de escondê-los. Precisei me trabalhar muito e ter muita confiança em relacionamentos para conseguir me liberar disso.

Já quis mudar o meu corpo…
Cheguei a ver o preço pra colocar silicone – nos tais peitos, claro – e a fazer uma consulta com o objetivo de tentar consertar meu “dedão grande”. A primeira ideia ficou na minha mente por muito tempo. Dizia que a primeira quantidade grande de dinheiro que ganhasse ia para seios novos e grandes. A sorte foi ter descoberto, antes da grana chegar, que eu não queria de verdade isso por mim, e sim para incrementar “aquele objeto de sedução” que comentei mais acima. Ufa! E sobre consertar o dedão… durou só o tempo da consulta, porque eu vi que seria necessário uma cirurgia complicada, com uma recuperação pior ainda e uma possibilidade de não ser tão efetivo e deixar sequelas como eu não conseguir ficar na meia-ponta, o que para quem ama dançar está totalmente fora de cogitação.

Por fim, eu larguei o meu corpo…
Provavelmente por ter sido tão vergonhosa e neurótica por tanto tempo, quando finalmente o aceitei fui para o outro extremo e desencanei de me sentir bonita, de me arrumar, de me mostrar sexy. Pelo contrário, cheguei a sentir raiva de mulheres que só andavam maquiadas, como se não estivessem sendo verdadeiras com quem as via. Não por maldade, mas porque eu me sentia não ter sido verdadeira quando só saía com maquiagem, entende? Espelhamento… acontece muito entre nós, mulheres, e passar a ter uma boa relação com amigas que têm uma boa relação com seus corpos me ajudou muito nisso, a encontrar o meio termo, ao qual, na realidade, sinto que ainda estou chegando… Mas hoje já volto a sentir vontade de estar toda produzida às vezes (mas não na montanha, neah?), de me ver e mostrar sexy, não PARA alguém, mas POR mim. Em outras palavras, a ver e usar meu corpo como MEU.

PARECE UMA COISINHA FÁCIL

Mas se apossar e amar o próprio corpo, ser livre com ele, não é fácil. Sendo mulher, a gente realmente cresce e enfrenta a vida toda um bombardeio sobre o que é um corpo bonito, o que é SER bonita, quais as características que agradam “aos homens” – porque, sim, a princípio, toda mulher é ensinada a agradar aos homens, ainda que nem saiba se gosta deles ou delas. É o chamado “machismo estrutural”, que está em todxs nós seres humanos desde que nascemos, e que mesmo sem intenção nos molda em um formato de como devemos ver ou pensar conceitos como beleza, magreza e sedução sempre do ponto de vista do homem, ou melhor, para ele.

E este não é um discurso lésbico; feminista, sim, porque até que a igualdade exista a gente não pode deixar de trabalhar por ela. Mas lésbico não, porque eu mesma ainda estou aprendendo a me relacionar com o meu corpo em relação a outras mulheres e às vezes tenho atitudes inconscientemente machistas nesse sentido. Estar com mulheres que têm amor-próprio e aceitam e são gratas pelo corpo que têm ajuda muito, porque o espelhamento pode ser usado tanto para o mal quanto para o bem. E não há nada mais empoderador, na minha opinião, que ser empoderada pela atitude de outra mulher, não por suas palavras.

Mas vejo como principal ponto a melhorarmos essa parte de trabalhar pela igualdade, por desobjetificar o corpo feminino. E, sim, acredito que termos mais lugares em que peitos sejam apenas peitos, não um objeto de desejo, uma coisa proibida sendo mostrada, ajudaria e muito. Não resolve toda a situação de desigualdade de gênero, mas seria um grande passo que peitos fossem vistos igualmente sendo de homens ou de mulheres, como é aqui na Europa (em geral, mas sem generalizar, ok?). Isso é importante inclusive para as nossas próximas gerações, de meninos e meninas, terem uma relação mais tranquila e respeitosa com o corpo – o próprio e o dxs outrxs.

UM TOPLESS FRUSTRADO ENSINOU MUITO

A primeira vez que fui à praia aqui na Espanha foi em julho, com o João. Tinha um monte de mulher fazendo topless em volta e quando eu disse que queria fazer também ele arregalou os olhos e soltou um “por favor, não, mamãe!”. Perguntei por que, ele disse que teria vergonha; de novo, perguntei por que, e ele disse que era porque eu ia expor meus peitos; de novo, perguntei por que isso era um “problema” considerando que havia outras mulheres ali e, afinal “eram só peitos”. Ele nem sabia mais explicar. E no final só disse “eu vou me sentir incomodado, mas se você quiser tirar o biquíni de cima, tudo bem”. Eu não tirei, disse que ia respeitar o seu incômodo, mas foi ótimo para abrirmos essa discussão e falarmos do tema.

Porque o problema está em justamente NÃO FALARMOS, não expormos, não conversarmos, não trazermos à tona, com nossos filhos, com amigxs, com nossos pais, temas que por serem tabus parecem que já estão definidos e que não podem ser mudados. Porque podem! E, especialmente como mulheres, sinto que a gente tem um dever nesse sentido, de tratar com naturalidade as questões todas de corpo, e ter amor a ele, e propagar a aceitação de todos os tipos de corpos. Porque é apoiando umas às outras, e ensinando às nossas filhas e filhos que tá tudo bem cada um ser de um jeito, que vai ser mais fácil as próximas gerações aceitarem e amarem o próprio corpo como ele é.

perfeitamente imperfeito

Eu não sou perfeita, é óbvio, todo mundo sabe, e ninguém é, mas mesmo assim todo mundo quer ser. Por fora e por dentro. Porque com “não sou perfeita” quero dizer que hoje aceito não apenas o meu corpo e suas imperfeições, mas também o fato de nem sempre me relacionar bem com ele, de ainda não ter toda a leveza e liberdade que posso ter com ele, apesar de seguir trabalhando nisso, principalmente ao me inspirar em outras mulheres que demonstram (isto é muito importante: NÃO NAS REDES SOCIAIS, MAS DE VERDADE, NA INTIMIDADE E CONVIVÊNCIA) se aceitar, se amar e se doar com seu corpo exatamente como ele é. Ainda que tenham vergonha, a deixam de lado quando precisam se mostrar, não permitem que suas imperfeições as impeçam de ter um dia divertido na praia, de usar a roupa que bem entenderem e de se relacionar sem pudores e com prazer.

“Quando você se apaixona por quem você é,
os outros se apaixonam por quem você realmente é.”

Li essa frase no mesmo dia que comecei a escrever este texto e depois de voltar dessa praia onde, pela primeira vez, depois de vencer a vergonha inicial lá do primeiro parágrafo, eu não apenas “usei só a parte de baixo do biquíni e fiquei de barriga pra baixo”, mas fiz topless meeeesmo, de sentar, caminhar e até ir nadar no mar sem a parte de cima. Com os peitos pequenos, brancos, um pouco flácidos e com estrias to-tal-men-te à mostra. E fiz isso não apenas em um, mas em todos os dias que estive na praia na última semana.

LIBERDADE!

Foi o que senti. Pode parecer uma bobeira, é possível que vejam como exibicionismo ou modismo ocasional. Não foi. Poder ir pra praia de blusa ou top e apenas tirá-la e deitar, caminhar, tomar sol, nadar com os seios de fora pra mim foi uma libertação. Porque não teve a ver com mostrar meus seios, e sim com o não ter problema em mostrá-los. Entende a diferença? Às vezes sinto que a minha evolução pessoal não está (apenas!) nas grandes decisões transformadoras de vida que tomo, mas em pequenos atos de ter coragem de fazer diferente, de enfrentar o desconhecido, de me colocar em situações desafiadoras e até incômodas. E em muitas delas descobrir que o incômodo nem era tão grande assim, e que o desafio era muito maior na minha imaginação do que na prática.

Pois me entregando ao novo e fazendo topless na praia nesses dias de férias, pela primeira vez creio que consegui olhar para o meu próprio corpo com a mesma naturalidade que olho para os demais, sem dar atenção exagerada aos defeitos nem querer exibir as qualidades. Era só o meu corpo. Libre. Simples. Imperfeito. Mas meu. E amado por mim. Como ele nasceu pra ser. Foi como uma conquista pessoal. E, assim, de pequena liberdade em pequena liberdade conquistada, eu sinto que vou me conhecendo e me libertando para ser a Julie mais Julie que eu puder ser. Sem pudores, sem temores, mas com muitos amores, especialmente o próprio e o amor a Deus, que me faz agradecer diariamente pelo presente de estar viva e evoluindo sempre!

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