Meu presente neste Dia das Mães: a cura de TER e SER mãe

Depois de 11 anos comemorando o Dia das Mães não apenas com a minha mãe, mas também como mãe, com o #meufilhoteJoão (12 anos se contar 2008, com ele já na minha barriga), este foi o primeiro que eu passei longe dos dois. Foi o meu dia mais difícil aqui nesta nova vida desde que saí do Brasil, o de coração mais apertado. Mas foi também um dos mais importantes, pela cura que trouxe. A cura da mãe que sou, que posso ser, na distância, no coração, e a cura da mãe que tenho, que nasci pra ter, na distância, no coração. Uma cura que, sem que eu percebesse, começou exatamente um ano atrás…

Dia das Mães 2019

“Quando a gente vira mãe, entende muito mais o amor dos nossos pais por nós. Mas acho que essa mudança também acaba nos tornando um pouco menos filhos, né? Viramos o centro das atenções no Dia das Mães, quem recebe os presentes e deve ser reconhecida. (…) Então, neste que é meu último no Brasil, eu resolvi celebrar esse dia TENDO MÃE! (…) Um dos meus compromissos pra este ano é ser melhor nos papéis que exerço na minha família, como de filha, irmã, neta, tia, sobrinha. Porque a correria do dia a dia e os nossos papéis “principais”, como mãe, esposa e profissional, acabam nos roubando dessas outras funções. E lendo um pouco mais sobre constelação familiar tenho aprendido da importância que é cada um ocupar o SEU LUGAR em cada função.”

Escrevi isso num post que fiz no Instagram junto com essa foto de nós três, juntos, tomando café na casa da minha mãe. E me impressionei hoje ao reler e ver como a gente realmente pede o que recebe quando vem do coração, né? Eu queria mesmo, muito, sair do Brasil com a sensação de que estava tudo bem entre mim e meus pais, mas naquele momento não fazia ideia de como seria isso, já que as discordâncias, os pensamentos diferentes, mágoas que nos causamos tinham ocupado um lugar nesse “entre” nós. Não sei explicar exatamente, mas era como uma névoa que pairava no ar, e não deixava mais os abraços de antes serem tão demorados, os olhares tão nos olhos, as conversas tão profundas, as risadas tão alegres. O amor, claro, não mudou. Mas era como se estivesse mais difícil colocá-lo pra fora, sabe? Acontece que quando a gente “dá o passo o Universo põe o chão embaixo”, não é? Eu afirmo: É!

Naquele momento eu não sabia nem como (re)construir essa relação nem de tudo que ia passar até que hoje, no Dia das Mães de um ano depois, pudesse dizer que consegui!

Encontrei meu lugar como filha!

Depois das muitas lágrimas, que vieram com aprendizados, leituras, mudanças de comportamentos, sessões de terapia e principalmente, o conhecimento da constelação familiar e dos princípios sistêmicos. Que nada têm a ver com vidas passadas ou falar com espíritos, como já ouvi alguns dizerem, mas sim com algo que todos, absolutamente TODOS nós deveríamos como seres humanos: FAZER AS PAZES COM O PASSADO. E falando assim pode parecer óbvio e até desnecessário. Você pode pensar “não preciso, eu amo meus pais, tá tudo certo” – só que talvez não esteja. Mesmo sem sentir “a névoa” como eu sentia, a verdade é que todos temos “assuntos não resolvidos”, por situações que aconteceram desde quando estávamos na barriga da nossa mãe e nos primeiros meses e anos de vida, que não são de fácil acesso na nossa memória, mas que nos marcaram e fazem parte de quem somos, podendo nos influenciar no relacionamento com as pessoas mais importantes, que nos deram a vida, e com todos ao nosso redor. Aliás, podem inclusive ser situações que aconteceram com nossos avós, bisavós, tataravós, nossos antepassados, mesmo os que nunca conhecemos nem tivemos contato, mas que como família estamos conectados.

É complexo, eu sei. Eu mesma demorei muito pra ir atrás disso mais profundamente, e até mesmo pra acreditar que funcionaria. Até que tive a oportunidade, no momento certo, da forma como realmente tinha que ser, de tratar esses assuntos, olhar para isso tudo com carinho, mudar meu olhar, minha percepção, pedir e dar perdão e verdadeiramente entender aquilo que, como mãe, eu já tinha percebido, mas que como filha sem sempre fica claro: nossos pais fizeram O MELHOR que podiam por nós. Sempre. Todos eles. Mesmo os ausentes, os bêbados, os traidores, os abusadores. Porque essas palavras todas não dizem respeito a QUEM eles são, e sim a coisas que fizeram, a erros, que como humanos, todos cometemos, mas que nos nossos pais ficam como que “aumentados”, pelo nosso olhar de crianças dependentes deles. E aí, tendo aprendido sobre tudo isso, ao ver meus pais, que sempre foram tão amorosos, tão dedicados, tão esforçados, tão presentes, tão carinhosos, me senti… pequena. Exatamente como sou perante eles!

que DURO foi admitir isso…

Esse é um dos pressupostos da relação sistêmica: nós, filhos, somos pequenos, nossos pais são grandes. Simplesmente porque nos deram o que há de mais precioso, a vida, porque sem eles não existiríamos. E não sei se por ter sido chamada tantas vezes de baixinha na infância, se pelos muitos anos só usando saltos para parecer mais alta na adolescência (que pra mim era sinônimo de bonita) ou se pelo meu complexo de “preciso ser importante”, mas foi muito, MUITO difícil esse conceito entrar na minha mente, e principalmente no meu coração, fazer sentido mesmo.

Na verdade, hoje sei que essa dificuldade tem muito a ver com visões que a Julie criança tinha de seus pais, e que a agora Julie adulta está compreendendo que eram apenas percepções. De uma criança imatura. Mas muito, muito amada! Foi um processo longo, custoso, com vários momentos de vai e volta, de entender e “desentender”, de sentir muito amor e muita raiva. Até que, poucos dias atrás, um chacoalhão me colocasse definitivamente no meu lugar de filha. “Só posso ser mãe se conseguir ser filha.” Ouvi essa frase num vídeo e, no momento delicado em que estamos, desabei. Porque além da cura como filha, esse foi o ano da minha cura como mãe.

O ano em que me assumi mãe-porto

Em agosto de 2019, depois de 10 anos, 11 meses e 33 dias morando oficialmente comigo, o João partiu para morar oficialmente com o pai, na Espanha. Isso já estava combinado há quase dois anos, desde quando rolou a oportunidade de pai dele morar fora e ambos decidimos, juntos, que seria ótimo o João ter a experiência de morar com ele, ter esse contato diário de pai e filho, criar laços mais profundos como os que teve a chance de criar comigo, conviver de perto com os seus irmãos. Mas eu sabia que não seria uma decisão fácil de encarar, especialmente quando o dia chegasse…

“Não consigo me imaginar fazendo isso com meu filho!”
“Parabéns, precisa ter muita coragem pra ver os filhos voarem assim.”
“Meu coração estaria dilacerado.”
“Te admiro por ter esse amor livre.”
“Caramba, como você é forte!”

Ouvi essas e mais um monte de frases lindas, incentivadoras, das pessoas ao meu redor, de seguidoras no Instagram, de mães que conseguiram se colocar no lugar e entender um pouco a dimensão que é deixar um filho ir. Mas não, no fundo elas não faziam ideia realmente de como é. Nem eu fazia. Esperava ficar mal, esperava sentir saudade, esperava recorrer à camiseta dele que ficou comigo pra matar a vontade de sentir o seu cheirinho, esperava até chorar ouvindo músicas que são a cara dele e em datas especiais, como foi no dia do seu aniversário, em que eu quase de-si-dra-tei! Mas não, não fazia ideia de como realmente seria forte essa mudança.

A Síndrome do Ninho Vazio, sabe?

Aquela que crescemos ouvindo dizer que nossos pais tiveram quando nos casamos ou mudamos de casa, e que em teoria só é um problema para aqueles pais e mães mais velhos e que já não se davam muito bem, então ficam sem saber o que fazer? Pois, não, ela atinge pessoas novas e bem felizes também, rs. Me sentia como alguém que perdeu os movimentos da perna, passou a depender da cadeira de rodas e de repente quase se inscreve pra um concurso de dança porque… por alguns segundos se esqueceu que aquela parte da sua vida não era possível mais. Sabe? Os convites para as festinhas infantis, as homenagens na escola, os desenhos animados que estreavam no cinema, aquele brinquedo que ele adora e eu achei sem querer numa loja. Coisa que antes eram “só ir”, só fazer, e que de repente não faziam mais parte da minha vida…

Ele, por outro lado, se adaptou rapidamente na casa nova, país novo, escola nova, como o menino fácil e leve que é (e me ensina muito nisso!). O que me deixou ao mesmo tempo feliz e triste, não vou negar. “Estou orando por você, porque não consigo nem imaginar o tamanho do buraco que o João deixou aí.” Foi a frase mais difícil que ouvi. E veio do pai do João, depois de alguns meses que estava convivendo mais com ele, tendo ainda mais clareza de como é incrível sua companhia, sua alegria, sua gentileza. “Que bom, e que ruim.” Numa imensa contradição, foi assim que aprendi a viver. Metade feliz por vê-lo feliz, levando felicidade para o pai, os irmãos, tendo mais contato com essa outro lado da sua família, que pra mim sempre teve igual importância à do meu lado; metade triste por não ter mais sua presença todos os dias, por esse buraco que ele de fato deixou.

E sim, sempre demos o nosso jeito, ajudando a fazer lição pela câmera, assistindo suas apresentações na escola por chamadas de vídeo, mandando fotos de coisas que fazíamos durante os nossos dias, pra que seguíssemos participando da vida um do outro. Mas ele é um menino de 11 anos, né? Por muitas vezes não atendeu minhas ligações porque estava com os amigos, ou não respondeu minhas mensagens porque esqueceu, ou deixou claro que não  ligou porque não sentiu tanta saudade assim naquela semana, rs. E tudo isso acontece até hoje, aliás. Tudo isso aconteceu nas últimas semanas, quando eu estava desesperadamente tentando dar um jeito de, mesmo me mantendo dentro das leis espanholas, ir até lá vê-lo neste Dia das Mães de 2020. Porque depois de termos passado esse perrengue da distância durante quatro meses no ano passado, eu achei que vindo morar no mesmo país que ele não teria mais que passar por isso… Ledo engano!

Estamos a apenas 400 km de distância

Três horas de carro, seis horas de ônibus, uma hora e meia de avião. Qualquer dessas opções seria viável e teria nos permitido passar este Dia das Mães juntos, não ele lá, eu aqui, ambos chorando de saudade, porque já se passaram mais de dois meses de quando nos vimos, na minha chegada aqui na Espanha. Imprevisível. A vida é imprevisível, senhoras e senhores! E por isso é tão importante que as nossas curas aconteçam o quanto antes. Por isso eu sou grata por todas as lágrimas derramadas no ano passado quando ele foi morar com o pai, por ter sido realmente preparada para isso, como escrevi no último post “E todo aquele tormento… era só um treinamento”.

Se eu não tivesse comprovado, no ano passado, que apesar da saudade e falta, é possível ser mãe à distância e mesmo assim ser MÃE em letras maiúsculas; se eu não tivesse aprendido que o meu amor como mãe e o amor dele como filho não muda nem com a maior das distâncias; se eu não tivesse me virado para brincar com ele, rir com ele, passar tempo com ele através de uma câmera; se eu não tivesse atestado que o choro de saudade passa mesmo depois de umas boas risadas e palhaçadas durante uma chamada de vídeo; se eu não tivesse topado exercer essa missão que a vida me deu, de ser uma mãe-porto, que deixa o filho livre para viver a SUA vida, certa de que ele vai voltar cheio de amor quando quiser ou quando precisar… Ah, esta quarentena estaria sendo muito mais difícil, este Dia das Mães teria sido ainda mais duro. Porque sim, foi. Chorei de saudade. Mas a grande diferença é que eu já sei de duas coisas que me dão esperança:

VAI PASSAR! e eu dou conta!

E quando nos encontrarmos novamente, eu vou poder ser exatamente a mesma mãe que sou, ou ainda mais forte, mais preparada, mais sábia para aconselhá-lo no que precisar. Da mesma forma que sei que, quando tiver a oportunidade de encontrar minha mãe (e meu pai) de novo, sem ser pela telinha, como fizemos hoje, a saudade será matada com o mais apertado e demorado dos abraços, o mais profundo dos olhares e as mais sinceras lágrimas de alegria.

Eu amo ser mãe. Eu amo ser filha. E sou extremamente grata por ter os pais que tenho e o filho que tenho. Cada um deles, no seu papel, me fazendo extremamente feliz! Seja de perto ou de longe, como precisou ser hoje…

Nosso Dia das Mães virtual

4 comentários em “Meu presente neste Dia das Mães: a cura de TER e SER mãe

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  1. E aí quem quase desidratou fui eu!!!
    Que lindo, filha! Que mulher amadurecida você está se tornando!
    A cada texto seu vou aprendendo muito sobre você, sobre mim, sobre a vida!
    Ontem também comecei o dia triste e com vontade de chorar, por ter todos vocês tão longe, mas Graças a Deus ( e à tecnologia!) quando fui dormir pude agradecer, pois tive um Feliz Dia das Mães, apesar da distância dos filhos e netinhos que amo tanto!
    Que vontade de abraçar vocês! Acho que isso é o que sinto mais falta, pois nos vemos, nos falamos, sabemos da vida uns dos outros, participamos das nossas alegrias e preocupações, mas como fazem falta nossos abraços!
    Tomara que tudo isso passe logo e que a gente possa descontar quando nos encontrarmos!
    Eu achava que sabia o quanto te amava, mas te amo muuuuuuuito mais do que eu imaginava!
    Fica com Deus, filha! Sempre!!

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