A primeira saída em um cenário de guerra

“Quando tudo voltar ao normal…” começou a dizer uma amiga minha numa conversa, e eu senti que precisava interromper: “Que normal? Não acredito que jamais vamos ‘voltar ao normal’…”. A conversa continuou, e a frase continuou martelando na minha mente, porque, apesar de ter saído da minha boca, nem eu havia parado pra pensar no real significado dela. Até ontem. Quando depois de exatos 42 dias pudemos sair “de casa”. Entre aspas porque não estamos exatamente em casa, até porque não temos uma neste momento. Mas morando há quase dois meses numa pousada no meio da montanha da região espanhola de Andalucía, onde estamos trabalhando em troca de acomodação e comida (vou escrever mais contando sobre como isso funciona), é aqui que eu e a Marry estamos isoladas nesta quarentena. E temos, sim, MUITOS privilégios: um quintal de quilômetros, com trilhas, matas, montanhas, jardins para passear; um quarto grande, um banheiro só nosso, uma cozinha totalmente equipada; um “jefe” que é quase um pai, e sempre se preocupa com o nosso bem-estar; e até galinhas que nos provêm ovos frescos todas as manhãs. Mas ainda assim o isolamento PEGOU. E ontem, comemoramos por poder finalmente sair para fazer as nossas próprias compras no mercado da cidade mais próxima (Priego de Córdoba, a 9 km), já que até então era o José quem fazia isso, o que nos encheu de gratidão.

Mas PRECISÁVAMOS sair!

Mesmo estando num dos países mais atingidos pelo corona vírus e portanto seguras por estarmos há tanto tempo no mesmo lugar e sem encontrar outras pessoas, sair passou a ser objeto de desejo pra nós. E isso ficou mais claro quando comemoramos a notícia e nos arrumamos ansiosas quando a hora chegou. Antes, passamos por um baita procedimento de ouvir as instruções e seguir à risca as ordens locais: sair de máscara e luvas, levar álcool gel e lenços umedecidos com cloro no carro, ir todo o tempo uma na frente e a outra no banco de atrás, chegando lá parar somente dentro do mercado, colocar uma luva por cima de outra luva, manter distância de outras pessoas e fazer as compras no menor tempo possível falando com o menor número de pessoas possível. Ufa! Meu coração foi acelerado durante todo o caminho de ida, preocupada se íamos ser paradas pela polícia, se iam achar alguma infração na nossa conduta (que aqui dá multa de valor altíssimo!), se o mercado teria os produtos que gostaríamos (porque há dias em que as prateleiras ficam mais vazias) e, claro, se não correríamos o risco de ser contaminadas com o vírus. Uma verdadeira loucura numa mente que tem tentado ser cada vez menos neurótica com o que “pode dar errado”, mas que ontem foi vencida pelo medo.

Medo misturado com excitação

Porque depois de quase dois meses comendo o que havia ou o que traziam (e, repito, somos MUITO gratas por isso), era quase um sonho poder escolher nossos próprios produtos, aumentar um pouco a variedade de alimentos e ingredientes, nos dar alguns pequenos luxos como carne e chocolate de presente. Isso tudo em apenas uma ida ao mercado. Entende por que estou dizendo que não tem como “voltarmos ao normal” quando a crise passar? Durante os anos de 2017 e 2018, eu cozinhei para fora como um meio de ganhar dinheiro (como contei no post “Eu cozinho bem, obrigada”), o que significa que passei meses indo ao mercado todas as semanas, às vezes duas vezes na semana, às vezes em dois, três mercados no mesmo dia. E nunca foi uma das partes mais chatas dessa minha #vidadecozinheira, porque meus valores da liberdade e da variedade ficam felizes num lugar cheio de gente, de produtos pra olhar, novas marcas pra experimentar, ingredientes diferentes para escolher, receitas para testar. Mas, sim, me cansei muitas vezes, saí contrariada para ir às compras tantas outras.

Por isso foi tão estranha, peculiar a experiência de ontem. Eu e Marry nos sentimos como se estivéssemos em um parque de diversões, olhos atraídos por tantas coisas novas, diferentes, variadas, mas ao mesmo tempo… uma sensação de proibido, de alerta, de “será que deveríamos estar aqui?”, “será que me aproximei demais daquela mulher ao pegar o vinho?” (sim, vinho, e graças por esse prazer do qual não tivemos que nos desfazer). Uma simples ida ao mercado foi completamente anormal. E teve ainda a tensão de quando tivemos que colocar as sacolas de compras no chão, ou de quando encostei sem querer no braço de outra pessoa, ou de quando um senhor mais pobre quis entrar no mercado sem luvas nem máscara e o segurança teve que intervir. Sem contar a curta sensação de alívio na volta, quando “ufa, deu tudo certo!”, sendo que na verdade o perigo principal não avisou se veio junto ou não. E então foi aquela novela de largar tudo, desinfetar o carro, tomar banho, colocar as roupas para lavar.

Sim, foi uma ida ao mercado completamente anormal! Mas não só isso: foi também motivo de gratidão, mesmo sendo algo tão simples, e uma “novidade”, mesmo sendo algo tão óbvio, e assustador, mesmo sendo algo tão inofensivo. E por ter vivido esses sentimentos todos tão misturados numa situação tão básica que digo, não acho que tudo vai voltar ao normal. Claro, a crise vai passar, a quarentena vai acabar, voltaremos a sair de casa, a andar de carro sendo as duas na frente, a ir ao mercado como se não fosse um evento. Mas dentro de nós, de mim, eu sinto, não será mais o mesmo. Porque os impactos que estamos tendo nesta situação NUNCA foram sentidos, pelo menos não por nós, brasileiros, jovens (ou quase, vai), de classe média, parte da classe trabalhadora. O que estamos enfrentando internamente é algo que nunca havíamos passado:

Estamos vivenciando uma guerra!

Nesta guerra não há tanques pelas ruas, mas também não há pessoas.

Nesta guerra não há barulhos de morteiros ou bombas, mas também não há os barulhos de carros, ônibus ou metrôs.

Nesta guerra não há um inimigo personificado, mas há pessoas carregando o inimigo, algumas até mesmo sem saber, o que torna a todos, de certa forma, possíveis inimigos.

Nesta guerra não há jovens sendo tirados de suas mães para irem defender a nação contra a própria vontade, mas há jovens fazendo a própria vontade saindo da casa escondido de suas mães, lutando contra a nação.

Nesta guerra não há despensas nas casas lotadas de comidas, pois é melhor mesmo que acabe para que se tenha a alegria de ir ao mercado, mas também não há de tudo no mercado, porque algumas pessoas tiveram a alegria de tirar de outros, quando compravam papel higiênico demais para si.

Nesta guerra não há igualdade entre os combatentes, já que os menos estruturados são mais afetados, mas nem seria possível, já que não há nem a igualdade de opinião de que estamos mesmo em guerra.

Nesta guerra não há os que estão na frente de batalha combatendo e os médicos e enfermeiros que estão nos bastidores cuidando dos feridos, já que os médicos e enfermeiros são os próprios combatentes, e muitas vezes também os feridos.

Nesta guerra não há vantagem para aqueles que como eu estão longe de casa, porque a maior vantagem mesmo é estar em casa, com a diferença de que qualquer lugar minimamente seguro e maximamente vazio significa uma boa casa.

Nesta guerra, quando o fim for decretado, não haverá feridos voltando para casa com um membro a menos, mas todos, TODOS nós que estivemos nela, sairemos de casa com um medo a mais: será que o fim foi mesmo decretado?

Mas haverá abraços, isso sim será igual, haverá muitos abraços, mesmo que ainda reste um pouco do medo do inimigo invisível ainda estar entre nós. E mesmo que eles sejam divididos entre os abraços de “olá, que delícia nos encontrarmos pra matar as saudades” e os abraços de “tchau, vou ali ficar longe de você um pouco, depois de tantos meses juntos”.

E aqui eu devo confessar um segredo

Muitas vezes, em muitas conversas com os amigos e pessoas da família, quando discutíamos se o Brasil tinha jeito, eu acabava dizendo: “pra dar jeito nisso aqui só se acontecesse uma guerra”. Não, não acho que estivesse prevendo o futuro e também não estou com vergonha nem arrependida agora, aliás, sigo mais do que nunca concordando com isso. Essa guerra que estamos todos vivenciando, ainda que seja mais interna do que externa, está nos mudando, nos fazendo rever conceitos, reconsiderar o que é ou não importante, distinguir o que de verdade não podemos viver sem do que achávamos que não podíamos viver sem, valorizar o que de fato tem valor (SAÚDE e PESSOAS!) e nos dar a chance de recomeçar, ainda que mais interna do que externamente.

Porque quando todos sairmos às ruas, e o comércio voltar a funcionar, e ir ao mercado for só uma ida ao mercado, seja aqui na Espanha, no Brasil ou na China, tudo parecerá ter voltado ao normal. Mas nós nunca mais seremos normais. Seremos todos “filhos de uma guerra”. Teremos memórias como a do dia de ontem, de uma ida ao mercado ser como uma cena de filme apocalíptico, ou de sentir que não faz diferença alguém que amamos estar do outro lado do mundo ou do outro lado do muro. E tudo o que peço neste dia pós ter visto o cenário da guerra do lado de fora, é que eu não perca mesmo essas memórias, essas que mesmo anos depois dessa guerra passar podem seguir salvando muitas vidas, inclusive a minha:

As memórias da gratidão

Hoje mesmo, depois do almoço, eu e a Marry conversávamos sobre como é forte esse lance de que “damos valor só depois que perdemos”, seja alguém, a nossa liberdade ou as coisas mais básicas, e como depois, quando retomamos essas coisas, é fácil nos esquecermos do valor delas de novo. E então, TUDO o que temos pra nos colocar nessa posição de não precisar perder pra só então valorizar são as tais memórias da gratidão, aquelas que nos fazem lembrar dos dias de luta e ressignificar os dias de glória. Particularmente, as minhas lutas tem sido mais internas, as mudanças que tenho feito, os aprendizados que tenho tido, as clarezas que tenho conhecido, as transformações que tenho passado. Mas há as externas também, como a convivência com as outras pessoas daqui que não são família, mas estão vivendo junto conosco como se fosse, as conversas profundas com a Marry, os choros de quando tudo fica incerto e pesado, a saudade de estar junto do João (lembrando que eu vim ficar um tempo na Espanha pra poder estar com ele mais vezes, e aí…).

É como se uma vida paralela parecesse estar rolando lá fora, em algum lugar, enquanto estou aqui, vivendo as minhas batalhas pessoais, mas no fundo sabendo que TODOS estamos vivendo dias de luta. E ainda que, como disse no começo, eu saiba que aqui estamos com uma super estrutura pra lutar, são dias de luta, que estão trazendo mortes, porque, sim, estamos morrendo também, a maioria de nós não literalmente, graças a essa estrutura toda (e ao STAY THE FUCK HOME!), mas internamente, em partes de nós, conceitos, valores, entendimentos, projetos, muitas coisas estão morrendo nestes dias de luta. Mas é nessa luta que muita força e saídas e possibilidades nascem também! E é por isso que não acredito em “voltar ao normal”, pois ao final tudo e todos estaremos diferentes, até o planeta, que está usando esse tempo pra se recuperar dos nossos estragos (perdão, Terra!). E em meio a essa guerra, enquanto ela não acabar, meu maior desejo é que esses dias fiquem gravados e permaneçam pra sempre em mim, na minha memória, e também no meu país, na memória dos brasileiros. Pra que então toda essa movimentação surgida no caos, a solidariedade, o valorizar o que realmente vale, o amor sendo demonstrado mesmo na distância, a alegria genuína de compartilhar, a presença verdadeira no abraçar, a beleza de se descobrir, a criatividade de se reinventar, tudo isso passe a ser normal. O NOVO normal. Pra esse sim eu quero voltar caminhar!

 

3 comentários em “A primeira saída em um cenário de guerra

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  1. Sei que nada será como antes! Amanhã ou depois de amanhã! 🎼
    Que texto lindo! Pra variar, me tocou!
    Te amo, minha escritora preferida!
    Esperando o livro…
    🌹❤️

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