O que a placa de VENDE-SE no carro me ensinou sobre GENTILEZA

Coisas do meu pai. Quando decidi que íamos vender o carro, antes mesmo de anunciar nos sites de sempre, ele providenciou uma plaquinha com as informações básicas – ano, modelo, diferenciais – e o telefone para contato. Logo nos primeiros dias recebi vários contatos, vizinhos tocaram a campainha para pedir pra olhar o carro. Percebi que realmente funcionava. Mas nunca, nunca imaginei que ali teria uma lição sobre gentileza. E muito menos que isso se conectaria perfeitamente com um livro sobre leveza.

Eu explico

Nós, seres-humanos-evoluídos-da-cidade-grande-ultra-tecnológica-e-online, nos desacostumamos com alguns gestos simples do dia a dia. Como olhar nos olhos das pessoas com quem cruzamos, conversar com quem mora ao lado, trocar palavras com desconhecidos. No elevador até arriscamos um “bom dia/tarde/noite”, mas é só isso e olhe lá – e o “lá” pra onde se olha nunca é o olho do outro. No interior de São Paulo, onde moro, é até mais comum ouvir um cumprimento ou receber um sorriso ao passar por alguém na rua. E cheguei a me acostumar e até reproduzir isso. Mas nas vezes em que sem querer o fiz na capital… nossa, quase fui fuzilada por olhares inseguros de quem pensava “quem é você pra me dar bom dia? Quer o que comigo?”. Nos tornamos armados, desconfiados, afastados uns dos outros. Mas quando um carro com uma plaquinha de vende-se estaciona…

Milagres acontecem!

“Boa tarde, tudo bem?” – quase sempre acompanhado de um sorriso – “Quanto está pedindo no carro? Tá bonitinho, hein?” E assim o papo começa… Nas primeiras vezes, especialmente em São Paulo – porque #paulistanasoul e ainda tenho costumes de lá –, me assustei, reagi com desconfiança. Numa delas até achei que era um morador de rua vindo pedir dinheiro – alou, preconceito, xô, por favor!! Mas aí fui me acostumando, percebendo que a conversa fluía, e que por trás do interesse de compra sempre vinha uma história legal de ouvir. E como boa #índigosoul, apaixonada por pessoas e novas experiências, em pouco tempo já incluí o hábito de sair do carro olhando pros lados em busca de um bom comprador papo.

Foi nessa mesma época que comecei a ouvir um livro que me atraiu pelo título: A Arte de Ser Leve, de Leila Ferreira. Ter mais leveza, nas relações e no dia a dia, é um dos meus objetivos para este ano, e realmente uma arte a ser dominada. E qual não foi minha surpresa quando vi que o primeiro capítulo falava justamente de gentileza? Não a gentileza de abrir a porta do carro pra namorada, mas aquela que nos faz olhar para as pessoas à nossa volta como… PESSOAS, únicas, importantes, tão especiais quanto nós. “Não há nada mais penoso do que conviver com pessoas desagradáveis – seja em casa, no trabalho, no prédio onde moramos ou na fila do cinema. E compartilhar um espaço, uma atividade ou uma vida com alguém leve é um dos grandes prazeres da existência”, a autora diz, fazendo-nos internamente concordar, enquanto já conseguimos encaixar nessa leveza a gentileza, o bom humor, a descomplicação e a desaceleração – outros temas de que trata no livro.

Contando histórias de pessoas pelo mundo que praticam – ou não – essa gentil leveza, com frases simples, mas muito impactantes, Leila, que também é jornalista e foi por muitos anos repórter da Globo News, me arrebatou nesse primeiro capítulo e ali mesmo, naquele dia, eu decidi que queria aumentar o meu nível de gentileza, não apenas como um passo pra alcançar a sonhada leveza, mas também pra dar mais ao mundo daquilo que gostaria de receber. E aí, como comentei recentemente em um vídeo que fiz pro IGTV sobre medo, quando decidimos que queremos mudar algo, o universo não manda fada madrinha nem aciona a varinha de condão pra que… “PLIM”, nossos desejos sejam atendidos e o comportamento gentil apareça no próximo encontro.

NÃO, o universo é mais criativo que isso!

Ele nos proporciona justamente situações em que possamos exercer aquilo que queremos mudar. Como se fossem pequenas provinhas de 1,0 ponto que, somadas, nos farão passar de ano naquela matéria. Ou seja, pedi para ser gentil e advinha? Conversas e mais conversas via plaquinha do carro foram aparecendo, elevadores cheios me pedindo que fosse mais criativa nos poucos minutos de conversa ali possíveis, velhinhos que me encaravam numa fila até que eu perguntasse se queriam ajuda com as suas compras. E não só isso: em casa, uma louça que não era minha mas eu sentia que podia lavar como gentileza, uma ajuda que o João me pediu mesmo sabendo fazer sozinho – e você vai concordar, ser gentil com os filhos é algo de que realmente nos esquecemos… Enfim, mais e mais oportunidades de gentileza foram aparecendo. E sabe o que é lindo?

Gentileza REALMENTE gera gentileza!

Uma das conversas que começou por causa da plaquinha, por exemplo, foi quando estacionei em frente a um trailer que vendia sanduíche, pra ir ao mercado ao lado. Em teoria, estacionar ali tiraria uma das vagas de quem iria consumir do trailer, mas cheguei, já abri a janela e perguntei se atrapalharia muito se eu parasse por alguns minutinhos na vaga “dele”. E o dono já veio em direção ao carro focando na plaquinha, e do “claro, pode estacionar” passou pro “quanto tá pedindo no carro?”, e depois de mais umas cinco frases eu já perguntei se ele queria fazer um test drive enquanto eu fazia as compras, e ele só não topou porque disse que não podia deixar o trailer sozinho e a sua esposa ainda não tinha chegado. “Na verdade é pra ela o carro, então queria que ela visse, mas vou anotar seu número e marcamos pra andar nele outro dia, mas obrigado pela confiança.” Pois é, eu ia entregar meu carro com as chaves nas mãos de uma pessoa que nunca vi na vida. Porque a gentileza faz isso com a gente: nos torna mais confiantes uns nos outros, nos faz enxergar a bondade na humanidade, que hoje fica tão escondida atrás de políticos (e cidadãos!) corruptos, cabeças baixas com olhos que só encaram o celular e carros cortando fila no trânsito.

As pessoas boas estão por aí! Eu sou uma pessoa boa! Você também, não é? E estamos por aí, querendo exercitar nossa bondade e gentileza e receber o mesmo em troca. Então por que não dar o primeiro passo, fazer o movimento confiando pra ver o que acontece? E acontece!!! Quando a gente oferece bondade e procura bondade, ela vem.

Veio pra mim e pro João no trem da CPTM de São Paulo pra Jundiaí. Era noite de domingo, Dia das Mães, que eu e ele passamos com a minha mãe. A baldeação na estação Francisco Morato foi longa, porque os trens estavam em menor quantidade, o que significa que quando um deles chegou tinha muuuuita gente esperando pra entrar. Mas estávamos bem em frente à porta e conseguimos nos sentar os dois. Até que entrou, com dificuldade, uma velhinha usando uma bengala, e eu cedi pra ela o meu lugar, ao lado do João. A partir dessa atitude rolou uma grande conversa, dela contando dos filhos, das viagens que tinha feito, inclusive pra Espanha, país onde o João vai morar… e lá foi papo pra uma viagem inteira! Até que em um momento ela comentou que estava com muita sede, mas que não tinha conseguido comprar água dos vendedores ambulantes. E eu tinha uma garrafa de água comigo. A minha garrafa, que uso diariamente. E que divido na boa com a minha esposa, o meu filho, até com uma ou outra amiga dependendo da situação. Mas com uma senhora estranha?…

Resolvi arriscar!

– “Ah, eu tenho água aqui se a senhora quiser.”
– “Imagina, essa é a água de vocês, pra você dar pro menino.”
– “Sim, mas está cheia, e estamos perto já, não vamos precisar disso tudo de água”, e tirei a tampa da garrafa estendendo-a pra senhora.
– “Vou aceitar então. Muito obrigada!”

Ela tomou uns dois goles, eu insisti pra que tomasse mais, tomou mais uns dois. E imediatamente após me entregar de volta a garrafa colocou a mão dentro de uma sacola que carregava e tirou dois chocolates, dando um pra mim e outro pro João. “Poxa, muito obrigada, não precisava”, agradeci, enquanto o João fazia o mesmo – já abrindo a embalagem pra comer, é claro. “Imagina! Gentileza gera gentileza”, ela respondeu. Eu sorri, pensando em como essa verdade se tornou tão grande na minha vida a partir do momento que escolhi colocá-la em prática. E quando olhei para o lado, percebi que havia umas três pessoas assistindo àquela nossa cena, igualmente sorrindo. E provavelmente pensando que também gostariam e podiam espalhar essa gentileza por aí. Se o fizeram? Não sei. Mas assim como aconteceu comigo ao ler o livro e abrir meus olhos para as pequenas bondades do dia a dia, talvez tenha sido plantada ali naqueles corações uma semente, que na hora certa vai virar um fruto gentil.

Quanto ao carro? Ainda está à venda, a plaquinha ainda está lá, e as gentilezas continuam vindo e indo. E, sim, preciso vender logo, estou ansiosa pra passar o Fitico pra outra pessoa curtir tantas aventuras quanto eu curti com ele nesses sete últimos anos (interessados, inbox! Kkkk). Mas, quer saber? Acho que a venda ter demorado mais do que pensei foi só mais um movimento friamente calculado do universo pra me ensinar todas essas lições de gentileza. E quando, na hora certa, pra pessoa certa, o carro se for, sei que vou sentir saudade. Não exatamente dele, mas da plaquinha que plantou tantas conversas e histórias!

E pensar que tudo começou com o meu pai fazendo a placa; ou seja, tudo começou exatamente em uma gentileza… Obrigada, pai! Por ser uma das pessoas mais gentis que conheço e por me ensinar tanto! Guardei pra você o chocolate! 🙏🏼💙

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