O valor da vida na morte – e da morte na vida

Passei alguns dias da última semana fazendo um trabalho dentro de um hospital. Um hospital público, um dos maiores do Estado de São Paulo. E durante os três dias em que percorremos quase todos os setores, tive algumas importantes lições de vida – e de morte. A primeira lição foi bem óbvia, daquelas já esperadas, a não ser pelo fato de que… nunca estamos realmente esperando. Foi sobre entender que, realmente, A VIDA É UM SOPRO. E quando a gente se depara com o fim dele, choca.

No primeiro dia nós precisamos fazer uma filmagem, para o próprio hospital, dentro da UTI. Era horário de visita e de repente chegou uma família que foi informada de que o paciente que procuravam havia falecido. Um jovem, menos de 30 anos, que não resistiu a um linfoma. O local se tornou um caos. Sua esposa, ainda mais jovem, caiu no chão, aos prantos. Sua mãe, desesperada, precisou ser amparada. Cada pessoa da família que chegava e sabia da notícia começava a chorar também. Foi horrível.

Os médicos, acostumados com isso, nos disseram pra não nos preocuparmos, que todos os procedimentos seriam feitos internamente e logo a gravação poderia prosseguir. Mas para nós não havia condição. Como eu disse, apesar de sabermos que as pessoas morrem e até mesmo de estarmos num local em que isso era provável, deparar-se com a morte e tudo o que ela causa choca. Não dava pra continuar ali, e mudamos de local para seguir com a filmagem, mas aquelas cenas ficaram com a gente. O resto do dia, o resto da semana.

Pra mim, pessoalmente, foi marcante o sentimento de impotência, mais uma lição. Queria fazer algo, abraçar aquela mulher que acabara de ficar viúva, aquela mãe vivendo a pior dor de sua vida. Mas estava ali como profissional, prestadora de serviço para o próprio hospital, e seria antiético, e já tinha gente amparando as duas. Mesmo assim a impotência me corroeu. E saí do hospital horas depois disso ainda me sentindo mal por não ter feito nada por elas. Na verdade fiz aquilo que podia: pedi a Deus que desse o conforto que ninguém mais seria capaz de dar – e repeti essa oração nos dias seguintes, pensando naquela e em tantas outras famílias que passam diariamente por essa tristeza de perder alguém.

Muitas outras cenas que vi eram tristes: crianças passando seus dias no hospital, muitas delas da idade do meu filho, que enquanto isso estava em casa, saudável, brincando; pessoas angustiadas esperando notícias de seus queridos em cirurgia; outras trabalhando por telefone deitadas na cama, porque apesar de internadas precisavam garantir o sustento de sua família lá fora; recém-nascidos minúsculos dentro de máquinas, ligados a tantos fios que mais pareciam bonecos do que bebês de verdade; idosos sofrendo de dor aguardando por exames; um adolescente infectado que precisava estar em total isolamento, o que, para um adolescente, já seria terrível mesmo sem qualquer doença.

MAS – e graças a Deus existe este mas… – vi muita coisa linda e feliz ali também!

Como uma senhora, naquela mesma UTI triste de antes, recebendo a notícia de que seu marido tinha melhorado e teria alta; uma mulher forte que entrevistei, que estava terminando de se tratar de um câncer, que não conseguia parar de sorrir, de tão agradecida pela vida e por tudo o que o hospital fez por ela; uma criança que, apesar de internada, estava tendo a oportunidade de aprender a ler e a escrever porque uma professora se dispõe a ir nos leitos ensinar cada uma que por estar ali não pode ir à escola; um transplante de medula óssea, em que se tira uma parte de uma pessoa para curar outra, e que tive a chance de ver acontecendo na minha frente; um médico que vai além do que lhe é pedido, e trata mais que o corpo, a alma de seus pacientes e colegas, deixando sua marca; um grupo de jovens residentes que escolheram passar suas férias numa missão em uma cidade paupérrima da África, salvando pessoas que jamais teriam uma chance de sobrevivência não fosse por bons médicos ali; uma freira canadense que decidiu seguir sua missão no Brasil por ver que era um país que precisava mais de cuidados que o dela.

Ou seja, uma verdadeira montanha-russa. Com altos e baixos, trazendo momentos de agradecer e de pedir, de chorar e de celebrar, de não desistir e de se entregar. E todas aquelas pessoas, com suas tristezas e alegrias, me fizeram olhar para elas, e para mim, para dentro e para fora, e perceber como essas inconstâncias todas fazem a vida ser… VIDA! Que “é bonita e é bonita”, mesmo com as partes “feias”. A morte faz parte da vida. Para quem passou por ela, é o fim (ou não, vai saber, nunca estive do lado de lá, rs). Para quem passou pela consequência dela, com um familiar ou pessoa querida, pode ser a chance de recomeçar, reerguer-se, reencontrar a força interior que todos temos, mas nem sempre vivemos circunstâncias que nos fazem TER QUE usá-la. E para nós, que vemos acontecer em volta, é uma tremenda, maravilhosa, imperdível oportunidade de, ENQUANTO ESTAMOS VIVOS, aproveitar, dizer, agradecer, amar, fazer, VIVER!

“Devia ter amado mais…”

Nesta mesma semana morreu o admirável jornalista e baita ser humano Ricardo Boechat. À noite, seus colegas que o substituíram no telejornal bateram palmas para ele, junto com toda a equipe. E eu fiquei só pensando se aquelas pessoas que estavam ali homenageando o Boechat na ocasião da sua morte tinham feito o mesmo enquanto ele estava vivo, trabalhando ao lado deles todos os dias. A morte tem esse poder de nos fazer pôr pra fora o que estava guardado, mas PRECISA também nos lembrar do que dá pra ser feito e dito antes que ela chegue!

A música Epitáfio dos Titãs, que começa com a frase que coloquei de intertítulo acima, devia ser um hino diário para nós. Para que não precisássemos passar dias num hospital, vendo a dor de outros para nos darmos conta do quanto já temos a agradecer, do quanto precisamos dizer que amamos nossa família enquanto há tempo, do quão frágil a vida é. Mas passar por essa experiência intensa foi importante para mim. E, além de me despertar para essas lições todas, me fez ter ainda mais vontade de colocar pra fora a luz que sei que tenho aqui dentro, de compartilhar tudo o que passei até conseguir ser quem sou mesmo sendo “diferente”, de incentivar os outros a buscarem seu propósito e fazerem o que amam (ou amar o que fazem), de “VIVER E NÃO TER A VERGONHA DE SER FELIZ!”, e poder inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo. E me reforçou a importância de diariamente ser grata, muito grata, por já ter todos os recursos de que preciso para ser realizada! Para que, independentemente de quando ela acabar (e eu espero que seja daqui a muuuuuitos anos, rs!), cada segundo tenha valido a pena!

E por falar em ser grata… OBRIGADA a você! Por estar lendo este texto, me acompanhando, me escrevendo, sendo o outro lado dessa ponte chamada troca de experiências, que considero uma das mais lindas bênçãos da vida! Estar escrevendo, compartilhando, aqui no blog, e no Insta e no recém-lançado canal no YouTube (vou escrever mais sobre isso em breve!), e percebendo que de alguma forma minhas vivências têm ajudado você a SER O SEU MELHOR VOCÊ, tem feito tudo valer ainda mais a pena! Eu ainda não alcancei tudo o que quero conquistar, ainda quero “viver tudo que há pra viver” e ser a cada dia mais presente e aproveitadora da vida. Mas acho que pela primeira vez posso dizer que, se eu morresse hoje, seria sem arrependimentos, porque já estou tendo uma vida imensamente feliz! 🤩🙏🏼💙

 

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Um dos vitrais do hospital, que me chamou atenção pelas janelas entreabertas, deixando não só o ar, mas a vida lá de fora entrar!

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