Amazônia, um rio e uma grande realização

Viajar é uma das coisas que maaaais amo fazer na vida (e os posts da Vida de Viajante estão aqui pra provar!). Melhor que isso, só viajar com amigos queridos e pessoas que amo. Melhor que isso, só viajar pra um lugar que tinha muita vontade de conhecer. Melhor que isso, só viver experiências inéditas e inesquecíveis nesse lugar e com essas pessoas. Melhor que isso, só fazer TUDO isso e ainda ter uma realização pessoal e profissional. Sim, eu estou em êxtase com a minha última viagem, pro Amazonas. Foram apenas três dias, sendo só um deles inteiro no Estado mais verde do mundo. Mas foi o suficiente pra deixar uma algumas muitas marcas no meu coração.

Pra começar pelo fato de ter viajado com pessoas tão especiais. Fui com uma equipe da Produtora 8 Milímetros, que é um sonho realizado de dois grandes amigos, padrinhos do nossos casamento, que já foram vizinhos, mas jamais deixarão de estar próximos, ainda que na distância. Fomos em sete pessoas: um diretor, dois câmeras, dois assistentes, um operador de áudio e eu de produtora e repórter. O voo foi pra Manaus, mas de lá fomos direto pra Novo Airão, um município a 180 km de distância da capital, com quase 19 mil habitantes e margeado pelo Rio Negro – sim, fiz a piada do “E o Solimões?”, e o motorista da van riu, rsrs. Eu não sabia direito o que esperar do local até chegar, depois de três horas numa estradinha ultra mega esburacada, que foi totalmente esquecida na primeira vista: o Rio Negro parecendo um mar, num pôr do sol colorido, composto pelos barcos e a floresta à frente, aos lados, por toda parte. Como o trabalho seria apenas no dia seguinte, aproveitamos o fim de tarde pra ir mergulhar no rio. Estava receosa, mas entrei e o receio virou susto, e medo, e pavor quando vi que estávamos acompanhados de uma revoada de morcegos, váriosss deles, frugívoros, segundo os meninos me garantiram/prometaram/juraramdepésjuntospraqueeunãocorressedeláapavorada. Então fiquei. Apavorada, mas fiquei. E fiquei até a noite chegar. E venci o medo dos morcegos, o medo de ser picada por algum bicho, o medo de me machucar em alguma coisa porque não dava pra enxergar nada naquele solo completamente… NEGRO. Ri de pavor em alguns momentos, berrei de susto em outros, quando algo não-identificado me tocava, hehe. Mas superei tudo isso, fui mais forte, persistente, teimosa comigo mesmo, e tive uma das experiências (e vistas!!) mais lindas da minha vida!

Ahhh, Novo Airão! E o pôr do sol no Rio Negro, e vencer os medos, e ter
amigos pra me ajudar nisso, e agradecer, e agradecer, e agradecer…

~ E aqui, depois de mostrar essas lindas imagens, eu faço um intervalo no relato pra te fazer uma pergunta: quando você tem uma oportunidade única, mas junto com ela vem um medo, você deixa que ele decida por você ou vai com medo mesmo? Eu já vivi as duas situações, muuuitas vezes já permiti que o medo vencesse e me privasse de uma experiência. Mas prometi pra mim mesma não deixar isso acontecer nunca mais, e posso garantir que tem valido MUITO a pena! 😉 ~

A noite acabou com um banho de piscina e um jantar MA-RA-VI-LHO-SO (eu já disse o quanto AMO comer? Disse sim, no post “Eu cozinho bem, obrigada!“) com tambaqui, peixe local, acompanhado de outros pratos típicos, como baião, banana assada e salada com tucumã (uma fruta que é usada pelos amazonenses em pratos salgados como opção vegetariana, tipo um palmito). E o dia seguinte começou… de noite ainda! Acordamos às 5h da manhã para ver e filmar o sol nascendo. À beira do Rio!!!! E ainda coloquei um mantra que amo pra tocar e meditei ali mesmo, agradecendo a Deus por ter criado aquele lugar e me permitir vê-lo e ter mais essa experiência incrível  – e que totalmente compensou as horas a menos de sono. Depois de um café da manhã MA-RA… (já sabem, né?), com tapioca, suco de cupuaçu e cará roxo (que eu nunca tinha comido e me apaixonei!!), fomos para o local onde faríamos a gravação e entrevista com o personagem. Não vou dar aqui muitos detalhes do trabalho, porque ele ainda está em produção (vou contar assim que sair, claro!), mas é um documentário sobre design brasileiro e que estávamos lá pra entrevistar o designer Sérgio Matos e alguns artesãos locais. E pra mim, que considero entrevistar a maaais legal das atividades que faço como jornalista (sim, até mais do que escrever!), já estava feliz só por isso. Mas o que ouvi e vivi naquele dia foi além de exercer a melhor parte da minha profissão: foi me realizar pessoalmente na minha profissão. E explico por quê.

Sou jornalista, amo entrevistar, perguntar, ficar sabendo das coisas e conhecer as histórias de alguém. E já entrevistei centenas de pessoas nesses mais de 15 anos de carreira (socorroooo, tô veia! :O ), sobre centenas de assuntos (contei um pouco dessa saga no post “Várias jornalistas em uma só“). Mas o ponto alto pra mim, o que faz meus olhos brilharem, é quando a história que estou ouvindo e ao mesmo tempo contando é inspiradora, transformadora, quando sinto que não é apenas mais uma história, mas uma que vai fazer as pessoas pensarem, se emocionarem e serem impactadas positivamente por ela. E foi exatamente o que aconteceu. O designer Sérgio Matos, além de ser bastante conhecido e reconhecido tanto aqui quanto no exterior, faz um trabalho com artesãos de povos, comunidades e municípios em diversos Estados do Brasil. Inclusive com populações ribeirinhas do Amazonas, ou seja, comunidades formadas à beira do rio, muitas das quais têm apenas o rio como fornecedor de água, proteína e via de conexão com outros povoados. E na entrevista com ele ouvi não apenas sobre o seu trabalho, de profissionalizar e dar mais valor às peças fabricadas por esses artesãos, mas sobre as circunstâncias e as consequências desse trabalho. Ouvi a história de uma senhora de 83 anos que todos os dias acorda às 5h da manhã e caminha durante quatro horas para chegar à planta de onde ela retira a fibra para fazer seus artesanatos, passa o dia colhendo e volta no final da tarde, em mais quatro horas de caminhada, carregando os feixes nos ombros. E só então seu trabalho com as peças começa, e segue até tarde da noite, sendo que no dia seguinte o processo de colheita será o mesmo. E que ela sorri quando conta do que faz e de como se realiza nisso!

Ouvi também a história de uma mulher, de origem indígena, pertencente a um povoado que hoje é município, mas que já foi aldeia, que se tornou uma grande empreendedora local. Ela começou a trabalhar com artesanato muito nova, fazendo pequenas peças com a piaçava que nasce nas terras locais, como porta-joias e cestinhas. Quando o projeto de profissionalização a partir do design começou, ela não apenas se empenhou, mas se apoiou nisso para dar um novo sentido à sua vida: depois de ter se casado por obrigação, decidiu se separar do marido, e quando ouviu do pai que ela não teria como sustentar a si e à sua filha, respondeu que conseguiria sim, por meio do artesanato. E assim o fez, e se dedicou, e trabalhou, e aprendeu sobre gestão, administração, empreendedorismo e o próprio design, e hoje quintuplicou a sua renda e é responsável por uma equipe de mais de 50 pessoas, da sua comunidade e de outras próximas, que trabalham para ela, numa espécie de produção em etapas das peças. Pessoas que ela mesma entrevista quando têm interesse no trabalho, e seleciona as que podem fazer parte – e em que “setor” trabalharão – e as que não são corretas para o trabalho. Sim, uma mulher indígena, que mora num local ao qual só se chega após 24 horas de barco, divorciada, com uma filha, que hoje não apenas é responsável por seu sustento e de sua família (inclusive do pai que duvidou dela), mas que comanda a maior fonte de renda de sua comunidade.

Ouvir a história dela já teria sido maravilhoso, mas fui surpreendida pela notícia de que ela, Dinalva, era uma das artesãs que estavam acompanhando o designer naquele dia de entrevistas, e que poderíamos falar direto com ela. Montamos o cenário no pier de um restaurante flutuante que havia no local, e assim foi feita a entrevista, “dentro” do rio que praticamente dá vida àquela mulher. E digo isso não só por ser sua “estrada” e uma fonte de sua comida, mas também porque é na lama negra do fundo do rio que a Dinalva tinge a piaçava para ganhar a cor preta que é usada para fazer os detalhes das peças que produz. Peças que, antes de receberem a consultoria do designer (promovida por órgãos como o Sebrae, vale dizer e dar os créditos), eram vendidas por R$ 5 a R$ 10, e hoje variam entre R$ 50 e R$ 200, dependendo do tamanho e riqueza de detalhes. E mais: são tão concorridas e tão encomendadas que a artesã contou que já está com o próximo ano completamente comprometido, pegando pedidos apenas para entrega em 2020!! E ainda mais: contou, emocionada, que esse trabalho e ganho mais alto permitiu que várias outras mulheres da comunidade pudessem escolher seu próprio destino, aumentando sua autoestima e hoje se sentindo “poderosas e donas delas mesmas”, em suas palavras.

Depois desse dia de entrevistas ainda tivemos uma noite com mais mergulho no rio, mais piscina, mais comida boa, mais papos deliciosos e risadas com os amigos queridos e até mais histórias (conto outra hora a do Alex, também artesão, mas à noite dono do principal bar de Novo Airão, que nunca estudou, mas sabe tudo de vida!). Mas nada, nem a maravilhosa experiência de nadar no Rio Negro, marcou mais meu coração do que ver, ouvir e poder contar a história de uma mulher retomando as rédeas de sua própria vida e, ainda que tendo nascido no lugar mais sem condições de prosperar (aos nossos olhos), se tornando uma empreendedora de sucesso. E aqui deixo a definição de sucesso que ouvi e mais fez sentido pra mim até hoje: “Sucesso é você saber que está progressivamente realizando o seu objetivo”, Earl Nightingale. Em outras palavras, sucesso é você ser e fazer exatamente aquilo que gostaria de ser e fazer na sua vida, porque escolheu aquilo e se realiza naquilo – qualquer coisa que “aquilo” seja. O objetivo da Dinalva era fazer artesanato local, usando matéria-prima nativa de sua terra e uma técnica milenar de seu povo, e tirar disso seu sustento. E o meu? Ah, o meu é poder contar histórias como a dela, fazer chegar em outras pessoas um exemplo de vida como esse. E é por isso que essa viagem, apesar de curta, cansativa e com mais tempo de trabalho que de diversão, foi um sucesso, uma viagem de realização. A realização do meu propósito, do que nasci pra fazer e ser. A propagação da minha luz, que faz meu coração se encher de gratidão! ❤

Algumas imagens desse dia de trabalho, entrevista à beira do Rio Negro,
calor e MUITO amor, por essa oportunidade, por essa história que
jamais esquecerei e por essa equipe que está mais pra família!

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