Você tem uma pessoa?

É o primeiro post que escrevo na categoria Vida de Mulher, e poderia abordar muitos outros temas, mas quero aqui falar de um que é parte enorme da(S) minha(S) vida(S) e dizer por que acho que deveria ser assim com TODA MULHER: a amizade verdadeira, de longo prazo, que ultrapassa barreiras físicas e ideológicas. Com todos os eventos que aconteceram na minha caminhada, as mudanças, o des/novo-casamento, muitas pessoas saíram da minha vida, e uma parte das “melhores amigas” se foi junto. Mas não todas. Tenho ainda algumas (poucas, mas que valem por muitas) amizades de infância e adolescência, que “sobreviveram” a todas as mudanças que vivi. E na última semana tive o privilégio de passar um tempo curtindo uma delas, a MINHA PESSOA. (Se você assistiu à série Grey’s Anatomy, sabe o que essa expressão significa. Se não assistiu… bom, assista! Ver a relação entre a Mer e a Cristina é de encher os olhos – de lágrimas mesmo!)

Pois é, a Ana é a minha Cristina. Mais que amiga, é a irmã que não tive de sangue, mas nasceu no coração. Não nos conhecemos na infância e, na verdade, quando nos conhecemos, eu detestava ela e vice-versa – mas naquela época isso era meio padrão pra essa leonina meio mandona aqui, rsrs. Mas o ponto de virada, que deu início à nossa amizade, veio por uma atitude nobre que ela teve, de aceitar substituir uma das meninas que dias antes da minha festa de 15 anos teve um imprevisto e não pôde dançar. Mesmo sabendo que eu não gostava dela e a estava “usando como tapa buraco”, ela aceitou. Porreta, né? O que teria acontecido se ela tivesse dito não, eu não sei. Mas o sim me quebrou as pernas, fez cair por terra qualquer motivo para não gostar dela e, como resultado, deu início a uma linda história de empatia, companheirismo, suporte e respeito.

Vivemos grudadas entre os 16 e os 20 e poucos anos. Ela foi madrinha do meu primeiro casamento. Eu fui madrinha do primeiro casamento dela. Ela foi morar em outra cidade e a gente continuava se vendo muito mais que outras amigas que moravam perto. Fizemos uma viagem inesquecível pela Europa juntas (conto sobre ela no post “Viajar é preciso – e delicioso“). Depois disso, tivemos um desentendimento e ficamos um tempo sem nos falar. Quem nunca, né? Se isso acontece até entre família e nos relacionamentos mais saudáveis, por que não aconteceria com a gente? Mas aí ela se separou logo depois. No mesmo ano em que engravidei e passei toda a angústia que conto no post “A história da Mamãe Julie“. E no momento em que ambas mais precisavam uma da outra… estivemos lá uma para a outra. Todas as diferenças foram deixadas de lado, a amizade voltou mais forte do que nunca, e a superação dos desentendimentos serviu como um alicerce ainda mais forte para essa relação.

Logo em seguida ela se mudou para os EUA e meu coração ficou como? Igual, porque o amor e amizade verdadeiros nada são influenciados pela distância. Tanto que quando o João nasceu ela estava lá comigo na maternidade, não fisicamente, mas acompanhando por Skype a primeira mamada dele, chorando comigo de emoção (e um pouco de desespero de ter aquele serzinho tão dependente nos braços, rs!). Aí ela se casou de novo, e eu atravessei o continente pra ser sua madrinha mais uma vez. Quando ela engravidou, senti pela primeira vez aquele negócio maluco de amar alguém que não gerei como se tivesse nascido de mim. Conheci o Theo pessoalmente quando ele tinha 4 meses, e foi como se o tivesse segurado no colo desde o seu primeiro dia de vida. Depois vieram os outros dois filhos, Lelo e Be, que eu só conheci com 2 anos e 10 meses, respectivamente, mas que também já amava como se fossem partes de mim que estavam longe por um tempo.

Mas um dos momentos mais marcantes da nossa amizade foi quando eu, recém-separada e me percebendo apaixonada por uma mulher, no meio da maior confusão emocional em que já me vi, tive por telefone e Skype todo o suporte dela que poderia ter. Mais que isso: ouvi broncas, conselhos duros, perguntas difíceis. Coisas que só quem tem MUITA intimidade pode dizer. Uma dessas conversas, que jamais vou esquecer, teve papel fundamental nessa mudança toda por que passei. Eu estava falando de como me sentia apaixonada pela Marry, de como tinha vontade de estar só com ela e mais ninguém, ainda que aquilo parecesse loucura. E a Ana, por telefone, disse: “É loucura mesmo! Você vai fazer o quê? Assumir isso pra todo mundo, pedir ela em namoro, andar de mãos dadas por aí e recomeçar sua vida junto com uma mulher?”. Eu fiquei muda. Pensei em cada uma das palavras que ela tinha acabado de dizer e, depois de algum tempo em silêncio, disse: “Sim, é exatamente isso o que eu quero fazer”. Era a primeira vez que percebia que realmente queria aquilo. E a resposta dela foi: “Então faça! Eu sei que você tem coragem e personalidade pra isso. Se é o que vai te fazer feliz, conte comigo!”.

Eu sabia o que aquele diálogo significava. Significava que ela estava assustada com uma mudança tão brusca, tão grande, que sabia que geraria sofrimento no meio das alegrias, que talvez não fosse a escolha dela, que talvez não fosse o que ela imaginava pra mim. Mas que ela estava disposta a abrir mão de tudo isso para me apoiar e incentivar a minha felicidade. Jamais vou me esquecer desse dia, do quanto chorei naquela ligação, de medo de perceber que queria aquilo mesmo, de incertezas no meio das possibilidades, mas ao mesmo tempo de alegria e gratidão por perceber que nada disso seria capaz de interferir na nossa amizade e no amor que sentimos uma pela outra. Não demorou muito para a frase absolutamente hipotética dela virar realidade, e a cada conquista minha eu ligava pra ela pra comemorar, e ela comemorava do lado de lá também. Desde então, ela presenciou todos os nossos momentos importantes como casal, alguns à distância, como o nosso casamento no civil, alguns de muito perto, como a última reforma da casa – veio nos visitar bem no meio do caos, coitada, rs. Já choramos muitas vezes juntas depois disso. De tristeza e de alegria. Já rimos e gargalhamos incontáveis vezes também, inclusive uma da outra, hahaha.

Ter a amizade da Ana já me salvou de diversas formas. No ano passado, quando passei muito perto de cair em depressão, como contei no post “O nascimento da minha luz“, foi pra ela que liguei no dia de maior desespero, foi ela quem disse as coisas que eu precisava ouvir, que me deu bronca, me chacoalhou, me lembrou da Julie que eu era e precisava voltar a ser. Ela já me ajudou financeiramente, e eu já a ajudei de outras maneiras. Mas nunca parece ajuda. Parece óbvio mesmo, parte de quem eu sou e de algo que eu faria por mim mesma. Eu admiro muito quando irmãos ou irmãs são próximos nesse nível, de ter uma amizade que vai além do rótulo de família. Isso não aconteceu comigo em relação ao meu irmão, e tá tudo bem também! O amor que tenho por ele ultrapassa o rótulo sim, mas de outras formas, que não precisam se enquadrar em uma amizade por afinidade. Mas ter isso na Ana, poder contar com a minha pessoa em QUALQUER momento da minha vida, saber que mudança nenhuma pode quebrar isso, é uma bênção, um presente de Deus!

Na última semana ela e toda a família ficaram em casa uns dias, e o meu sentimento… não dá pra explicar. É tipo uma explosão de amores variados juntos, uma sensação de completude. Ver os filhos dela brincando com o meu como se tivessem nascido e crescido juntos, como primos mesmo, tratando uns aos outros com admiração, cuidado e carinho, é indescritível. Ficar acordada até de madrugada só porque o papo está bom, como fazíamos na adolescência, me levou de volta à essência de quem sou e de quem somos nessa relação tão forte. Neste momento, enquanto escrevo este texto, ela está arrumando as malas pra ir embora pra casa. Já choramos um monte na despedida no domingo, e choro agora de novo, de saber que não terei o abraço dela por mais um tempo, de pensar que as crianças vão crescer mais um pouco até o próximo encontro. Mas choro ao mesmo tempo de alegria, de emoção pelo privilégio de viver uma amizade como essa. Por isso resolvi escrever esse texto, pra dizer que você, mulher, precisa disso! Você precisa ter a sua pessoa, pra quem você sabe que pode correr a qualquer momento e em qualquer situação.

A competição entre mulheres é algo que parece vir meio de fábrica, um mal do qual eu sofri durante muito tempo, que me rendeu muita decepção e muitas lágrimas, mas do qual me libertei completamente nos últimos anos. Sou casada com uma mulher incrível, tenho uma mãe incrível, essa irmã incrível e várias outras amigas incríveis. E enxergarmos as qualidades umas das outras como uma forma de sentir orgulho, não inveja ou ciúme, PRECISA ser o padrão nos relacionamentos entre mulheres. Mostrar-se frágil pra uma amiga, admitir precisar de colo, de conselhos, de bronca e de frases que nos desafiam são atitudes de maturidade e força, não de fraqueza. Precisar de outra pessoa na hora do aperto não significa que somos incompletas, e sim inteiras! Então aqui vai um desafio: olhe à sua volta, procure quem é essa sua pessoa, ou suas possíveis pessoas. E se aproxime, se abra, se entregue, de guarda baixada e coração completamente escancarado. Crie esse laço inquebrável com alguém(ns). Se isso é garantia de não se machucar? Não… mas é garantia de ter uma mão sempre estendida pra te ajudar e de ter a certeza de que você não está sozinha, aconteça o que acontecer. Em tempos de tanta intolerância, ter uma fortaleza pronta pra te socorrer pode ser a mais potente arma do coração!

À minha pessoa, apenas uma palavra: OBRIGADA! Eu amo você! ❤

Rindo, falando, se abraçando e se amassando de tanto amor.
É assim que a gente gosta de estar!

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