Personagens de viagem

Viajar, pra mim, é tipo um combustível de vida!! Toda vez que “abasteço esse tanque”, me sinto pronta pra rodar mais um monte de quilômetros, ainda que passe por pedágios, que faça paradas antes de chegar no destino. Até porque, pra mim, é o caminho que vale mais que o chegar. Caminho que fica melhor ainda ainda quando é compartilhado, vivido junto com outras pessoas. A minha melhor companhia de viagem é também a minha melhor companhia de vida. Viajar com a Marry é certeza de me divertir muito, de não fazer sempre o que eu quero – porque somos bem diferentes em algumas coisas, e acho isso ótimo! –, de comer muuuuitooo bem – porque no amor à boa comida somos iguaizinhas – e de ter alguém pra topar minhas loucuras, passar vergonha com a minha cara de pau, me segurar quando me empolgo demais– às vezes literalmente, porque caio muito, rs. E nada disso foi diferente nessa última viagem que fizemos, agora no início de agosto, pra Itacaré, litoral sul da Bahia.

Gente, QUE LUGAR!!! Uma cidade pequena, que une praias maravilhosas com todo o verde da mata atlântica em montanhas e bosques preservadíssimos. Um lugar daqueles de ficar apaixonada já nos primeiros minutos e depois de sete dias amar tanto que eu já queria era morar lá, rs. Foi uma viagem incrível em termos de visual, de belezas naturais, de experiências, de comidas e de primeiras vezes. Foi a primeira vez que, na hora de ir embora, chorei de pensar que os meus olhos não veriam mais todos os dias aquela paisagem do café da manhã, que combinava praia e mata. Foi a primeira vez que me aventurei a fazer uma trilha mais pesada, dessas de precisar se apoiar em cordas pra descer e que me rendeu três tombos, mas que valeu imensamente a pena no final, ao chegarmos numa das praias mais lindas em que estive na vida. Foi a primeira vez que eu abusei da minha cara de pau na hora de conversar com as pessoas e acabei me convidando para ir comer moqueca na casa do guia que nos levou aos passeios :O . A história é meio longa, mas o importante é que de uma brincadeira surgiu o melhor jantar/experiência gastronômica e local da viagem, e ainda ganhamos uma família amiga! E foi também a primeira vez que eu resolvi me aprofundar nas conversas que tinha com os locais, não só os guias, mas os garçons dos restaurantes, os vendedores ambulantes, os donos de barracas… E foi dessas conversas que surgiu a ideia de compilar aqui os meus personagens de viagens.

Seu Fred, o taxista

Não sei a sua idade, porque pros mais velhos prefiro não perguntar. Mas é um senho provavelmente na casa dos 60 anos, que foi designado pela agência turística que contratamos para os passeios para nos buscar no aeroporto de Ilhéus, que fica a 60 km de Itacaré. Puxei papo logo nos primeiros quilômetros, e ele já foi explicando o que era cada paisagem, os nomes dos rios embaixo das pontes pelas quais passávamos, dos bairros, das praias… Eu, jornalista que sou, fazendo várias perguntas, sobre número de habitantes, comparação entre as cidades (Itacaré e Ilhéus) em termos de desenvolvimento, segurança, transporte, saúde, e ele respondendo tudo calmamente, como um dicionário eletrônico que tem tudo ali guardado, mas vai mostrando o conteúdo sem pressa, a partir do que é pedido. Mesmo as questões mais pessoais. Contou que nasceu em uma cidade mais do interior da Bahia, mas desde a infância ia pra Itacaré pois seus pais tinham uma casa lá. Aí morou em Ilhéus, em Itabuna (cidades maiores) e quando foi querendo mais sossego se fixou em Itacaré, onde foi pescador e, segundo ele “mais um monte de coisas” antes de trabalhar com transporte. No meio da conversa ele encosta o carro e diz que a gente precisa parar porque tem um mirante lindo, que daria boas fotos. E UAU, como ele estava certo! Esperou e tirou fotos pra nós, depois seguimos viagem e, quando chegamos em Itacaré, ele disse que ia dar uma volta pra já nos mostrar a cidade. Passou pela frente de um restaurante de comida a quilo e disse que era muito bom, se quiséssemos almoçar. Era mais de 15h e estávamos bem morreeendo de fome, mas dissemos que voltaríamos depois que ele nos deixasse no hotel. “Magina, entrem aí e comam, eu espero vocês!” Negamos no começo, claro, mas ele insistiu tanto que topamos, mas agindo bem rapidinho pra não tomar o tempo dele. “Comam com calma, meninas, estou sem pressa!” Definitivamente estávamos na Bahia e definitivamente com o taxista mais fofo. E não, não fez um fazer em troca de caixinha, pelo contrário, quando nos deixou no hotel com as malas saiu de fininho e nem tivemos tempo de agradecer. Resultado: pedimos à agência que ele nos levasse de volta no final da viagem, e ele não só fez isso como também topou ir mais cedo e fazer um tour a pé com a gente por Ilhéus, mostrando os principais pontos turísticos, esperando nossas mil fotos e fazendo muito além de seu trabalho. Sim, ele ganhou gorjeta no final, mas mais que isso, ganhou nossa admiração por seu dedicado atendimento. É over delivery que fala, né? 😉

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Sem dúvida o melhor atendimento da viagem foi do Seu Fred

Everton, o florista

Ele se aproximou da gente enquanto jantávamos uma pizza (de queijo coalho com mel de cacau, meuDeusdocéu, uma das melhores que comi na vida!) carregando umas folhas, que depois soube serem de coqueiro, e perguntou se podia fazer uma flor. Enquanto ele moldava fazendo voltas e voltas, com uma super habilidade, fui fazendo minhas perguntas. Quantos anos você tem? Oito (dava pra ver que era mais, então questionei). “Brincadeira, doze, é que não quero ficar velho.” Faz tempo que você faz isso? “Comecei a aprender há uns três anos, mas nunca ninguém me ensinou não, eu ficava vendo os hippies na praia, pedindo pra olhar de perto e copiava.” E esse grilo na sua cabeça (também feito com a palha)? “É o Chama… Chama atenção.” Demos risada e ele seguiu contando que tinha nascido em Itacaré mesmo, gostava de jogar bola e tinha vários amigos que também faziam “arte de flor”, mas que ele era o melhor nisso. Terminou a minha flor de lótus e começou a fazer a da Marry, uma rosa. E se eu gostar mais da dela?, perguntei. “Azar, fica com a sua mesmo.” Rsrs. Ele acabou, pediu uma “colaboração”, demos uns trocadinhos que tínhamos, ele agradeceu e saiu. Quando terminamos de jantar, sobrou um pedaço de pizza, que a moça embrulhou pra na saída a gente dar pra ele. Troco um pedaço de pizza por uma foto, você topa? ❤

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Sabe bom humor? Então, o nome dele é Everton!

Adaiara, a do Tererê, e seu filho Kelvin, o comedor de ostras 

Não, eu não sou adolescente, mas, sim, eu fiz tererê na Bahia. Primeiro porque quis, deu vontade, não fez mal a ninguém e não tô nem aí com essas história de “passou da idade”. E segundo porque fiz com a Adaiara. Ela chegou na praia no nosso penúltimo dia com três meninos: um adolescente, um menor e um bebê de colo. Ofereceu o tererê e quando eu aceitei ela deu o bebê pro do meio segurar e veio fazer. Me contou que tinha os três que estavam ali e mais um, que estava trabalhando com o pai. Enquanto ela fazia a trancinha, perguntei o nome do menino que cuidava do bebê. “O Kelvin, ele me ajuda muito com o pequeno.” Não trocamos mais muitas palavras, ela terminou o trabalho eu agradeci e paguei, mas como ela não tinha trocado deixou os meninos por ali e foi mais longe trocar. Enquanto isso, chegou um senhor vendendo ostras frescas, mas frescas meeeesmo, pegas minutos antes por ele numa rocha que ele conseguiu apontar de onde estávamos. Ao vê-lo o Kelvin já gritou “oba!”. “Seu Raildo da ostra”, como se apresentou, mal viu o Kelvin e já foi escolhendo uma unidade bem grande pra abrir pra ele. Era tão grande, cheia de conchas, que rendeu três ostras, as quais o Kelvin literalmente devorou, lambendo os beiços. “Nunca vi uma criança gostar tanto de ostra que nem esse aqui”, seu Raildo disse enquanto o menino se deliciava. Eu também comi aS minhaS, claro! Escolhi uma grandona que tinha quatro unidades juntas, comi três e dei a última pro Kelvin, que depois me seguiu, sentou na areia de frente pra mim e pra Marry e perguntou: “Vocês são amigas?”. Eu: “não”.
“Irmãs?”
“Não.”
“Primas?”
“Não.”
“Você é mãe dela?”
“Tá doido menino, eu lá tenho idade pra ser mãe de alguém desse tamanho?? Quantos anos acha que eu tenho?”
“30, e ela 28.”
“É quase isso (não ia deixar a alegria de parecer sete a menos ir embora), mas mesmo assim não teria como eu ser mãe dela, né?”
“Tia então?”
Eu fiz cara de bem brava e ele riu. “Vai tentando que quando você acertar eu falo.”
Ele repetiu algumas opções das que já tinha falado, acho que porque tava ficando sem opção, rs, e aí saiu de canto um pouco. Voltou uns 15 segundos depois:
“Amor, casal, sei lá como fala…?”
“Iiiiiisso, muito bem! Ela é minha esposa.”
“Legal, é bonita.”
E foi brincar com o irmãozinho. ❤

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Adaiara fazendo meu “polêmico” tererê e seu filho Kelvin, apaixonado
por ostras e com uma grande vocação pra jornalista

Edna, a vendedora de cocada

Tirando uma gringa que estava em todo lugar que a gente ia, acho que a pessoa que mais vimos na viagem foi a Edna. Por algum motivo em toda praia que íamos ela passava vendendo seu kit de cocadas de forno com sabores cacau, mel, tapioca e maracujá. Devia ter pouco mais de 40 anos, estava sempre com um chapéu e um sorriso no rosto que chegava antes dela mesma. Além da gentileza de sempre nos oferecer pra provar a cocada, mesmo depois de já termos provado, tinha sempre uma frase fofa pra falar, como “curtam o dia”, “estão descansando?” ou mesmo dicas de lugares que não devíamos deixar de ir. Numa das conversas, perguntei se era ela que fazia as cocadas. “Na verdade é meu filho. Ele tem a mão boa pra cozinha desde sempre, mas não gosta de vender, então eu me propus a trabalhar pra ele.” Ela não contou muito mais, mas eu fiquei pensando de quanta coisa essa mulher abriu mão para vender na praia as cocadas que o filho faz. E o orgulho com que ela falava dele mostrava que valia a pena!

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A gente nem comprou a cocada dela no final, mas a sua gentileza jamais vamos esquecer…

Miquiba e Carla, o guia e a agente – ou os nossos anfitriões

Foi por indicação de uma amiga que havia estado em Itacaré recentemente que fiz contato com a agência Bicho Preguiça. Conversei com a Carla por WhatsApp e antes mesmo de chegarmos lá já tínhamos o transfer aeroporto-hotel-aeroporto e dois passeios fechados. Escolhi os dois com base das dicas da minha amiga e também uns vídeos da própria agência que vi no site deles. No dia do primeiro passeio, já identifiquei que o guia era o mesmo que havia visto no vídeo. Miquiba. Nascido em Itacaré mesmo, conhecia todas as trilhas de cor antes mesmo de ser guia nelas, então a profissão veio de forma natural. Apesar da energia, tinha a fala mansa como qualquer baiano e aquela calma toda pra fazer até as explicações e partes mais complexas da trilha. Levou o filho junto, Henrique, de 8 anos e sem dificuldade alguma pra passar pelos trechos que pra gente eram fechados e complicados. Em um determinado momento, Miquiba comentou que a esposa dele e mãe do Henrique era paulistana, como nós e que a conheceríamos quando fôssemos fazer o pagamento ao final do passeio. “Você provavelmente falou com ela pelo WhatsApp, Carla.” Achei super legal eles trabalharem juntos, e perguntei se era coincidência. “Nada, ela veio como turista e eu era guia, aí já viu… Namoramos um tempo a distância mas aí ela voltou pra ficar de vez, nos casamos e abrimos a nossa própria agência.” Que história! Achei demais e já queria conhecer logo a Carla pra saber mais, hahah. O papo com ele continuou e eu fui perguntando dos restaurantes em que valia a pena comer na cidade – sim, comida está sempre no meu top 3 pra experimentar em qualquer viagem –, mais especificamente onde encontraria a melhor moqueca. Ele citou os dois restaurantes turísticos mais famosos e sobre os quais eu já tinha lido, e não fiquei satisfeita. Disse que não queria saber onde turistas comiam moqueca, e sim onde os locais comiam. “É que a gente não come moqueca fora, faz em casa.” A resposta foi a deixa pra eu fazer uma brincadeira: “Ué, então está fácil, é só falar onde fica a sua casa que a gente vai!”. Era brincadeira, como disse, e eu ri; mas a Marry morreu de vergonha e ele, por sua vez, nos surpreendeu: “Fechado, vocês vão lá em casa comer uma moqueca antes de irem embora”. Ainda achando que estávamos na brincadeira dei risada, mas de fato acabamos o dia com data e hora marcadas para o jantar na casa deles. Estava adorando a possibilidade, mas ainda um pouco incerta, talvez por influência da vergonha da Marry com a minha cara de pau também rs, então, no dia combinado, escrevi pra Carla pra confirmar se não era abuso mesmo. “Clarooooo que está confirmado, já até compramos os ingredientes!” Fofa demais! Os dois nos receberam na terça à noite, numa casa deliciosa com uma cozinha super ampla, dos sonhos de qualquer apaixonada por cozinhar como eu. E aí juntos, a oito mãos, regados com uma caipirinha de laranja kinkan DIVINA, fizemos o que foi o jantar mais maravilhoso da viagem: moqueca de peixe vermelho com lagosta (TÁ, MEU BEM?), pirão, farofa de banana e arroz branco. Foi uma noite incrível, em que dividimos histórias, contamos da nossa vida e ouvimos da deles, descobrimos gostos em comum (Carla também é fãzoca da Diva Lobo, acredita??), falamos de filhos, de família, de preconceito, de São Paulo, da Bahia, de pessoas!

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           Miquiba com a gente na trilha e depois em casa com Carla, na noite em que foram
         nossos incríveis anfitriões e que teve como resultado essa moqueca SENSACIONAL!!

Pessoas são realmente minha maior paixão! Conhecer um rosto que jamais vou esquecer, ter conversas que nunca teria se não fosse com aquela pessoa específica, com sua história de vida, bagagem cultural e visão particular de mundo, por mais diferentes das minhas que sejam, é algo que me move, faz meu coração sorrir, o tempo passar rápido e a vontade de repetir só aumentar. Então aproveito pra dar um spoiler: como já tinha mencionado no post “Aprendendo a ser índigo e feliz”, este blog nasceu de um processo de descoberta que envolve não só quem eu sou, mas qual o propósito da minha vida, o que quero deixar de legado; pois agora já posso adiantar que ele tem muito dessa minha paixão por conhecer a história de pessoas variadas, de lugares o mais variados possível… Então fica de olho aqui no blog, porque vem coisa boa por aí…! 😉

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