A Copa do Mundo já foi minha (paixão)

Tá tendo Copa, e eu não podia deixar de escrever sobre essa competição pela qual sempre fui apaixonada! Se você leu o post “Várias jornalistas em uma só“, já sabe que comecei no jornalismo esportivo, meu grande amor do passado, e que só abandonei por motivos de… tinha 21 anos e estrutura emocional insuficiente pra lidar com o fato de ser praticamente a única mulher/menina cobrindo futebol, numa época em que o machismo era ainda maior e ninguém acreditava que eu estava lá pra fazer jornalismo mesmo e não pra arranjar marido. E não quero, nem gosto, de entrar no mérito disso, do quão absurdas foram as coisas que ouvi, as propostas que recebi, as vezes em que fui mal-interpretada. Também não vou choramingar do quanto “perdi” por não ter lutado contra isso e ficado nessa área, até porque hoje nem acho que é o que mais queria pra minha vida. Mas se tinha um sonho que sempre me acompanhou era o de cobrir uma Copa do Mundo. Antes disso ainda, queria muito ESTAR em uma Copa do Mundo, e esse sonho eu consegui realizar!

Foi em 2006, na Copa da Alemanha, quando eu, meu ex-marido e um casal de amigos partimos pra um mochilão na Europa que tinha como um dos objetivos ir num jogo do Brasil na Copa do Mundo. E conseguimos! Deu trabalho, rs, mas conseguimos. Primeiro deu trabalho para todos os quatro estarem convencidos de que valia a pena, porque dois gostavam muito de futebol e dois não estavam nem aí pra bola, rs. Depois deu trabalho para conseguirmos os ingressos, lembro de ficar acordada algumas madrugadas até dar certo, principalmente porque, como era uma viagem de vários destinos, tínhamos que fazer o jogo calhar com o lugar em que estaríamos – o que no fim nem deu certo e nos fez andar uns belos quilômetros a mais pela “Zoropa”. Mas pra mim o importante era estar lá no estádio. E estava, no dia 27 de junho de 2006, estava no estádio de Dortmund e assisti o Brasil ganhar de 3 x 0 de Gana, pelas oitavas de final. Mais que isso, FILMEI o primeiro gol, feito pelo Ronaldo no gol que estava bem à nossa frente. Que sonho realizado, que inesquecível, que emoção! Na saída ainda fomos entrevistados por um repórter brasileiro e acabamos mandando recado pros nossos parentes e amigos no Brasil em tempo real, hahaha. Bom demais lembrar disso! E sabe por quê? Porque não sei se aquela paixão pelo futebol, aquele amor pela Copa vai voltar pra mim…

Sim, eu ainda curto a época da Copa, o clima e os jogos, todos! Aliás, desde que passei a trabalhar na minha própria empresa, em 2009, sempre acho o máximo quando a Copa chega e posso acompanhar todos os jogos em casa – como estou fazendo neste exato momento enquanto escrevo este texto, inclusive (Rússia x Egito, 0 a 0 por enquanto, pelo primeiro jogo da segunda rodada). Mas, voltando ao motivo de não achar que aquela empolgação voltará de forma igual… Sabe quando a gente cresce, e volta à casa de praia que visitávamos e que era tãaaaao absurdamente legal, e grande, e bonita, e pertíssimo daquela praia maravilhosa, e aí, com uma visão diferente de mundo, percebe que ela não é nem tão legal, nem tão grande, nem tão bonita, e na verdade fica bem longinho da praia que de maravilhosa tem apenas as nossas lembranças? Pois é, foi mais ou menos isso o que aconteceu comigo depois de trabalhar dentro do meio do futebol, depois de entender o que o mundo perde com uma Copa do Mundo e o que a política ganha com ela e aí vivenciar uma Copa aqui no Brasil em 2014.

Calma! Esse post não vai virar um mimimi chato, prometo. É apenas uma reflexão, na verdade talvez esteja mais pra desabafo. Porque eu QUERIA, de verdade, QUERIA conseguir olhar só o lado divertido da Copa, do “oba-oba”, todo mundo vestido de verde-amarelo, ansioso pela seleção e vibrando depois dos jogos no melhor estilo “é tetraaaaa, é tetraaaaaa!”. Mas crescer tem suas vantagens E desvantagens, e uma destas é ter mais noção do que está por trás de algumas coisas. Eu olho pro João, por exemplo, com seus 9 anos, acordando e colocando o uniforme completo da seleção, assistindo o jogo inteiro com a corneta na boca esperando o gol sair e doido pra ver pela primeira vez o Brasil ser campeão do mundo, e só penso que queria ter a inocência dele. No bom sentido mesmo, sabe? Queria de fato ser ele! Pra fugir de ver um jogo e automaticamente pensar que os nossos jogadores ganham milhões enquanto os nossos professores ganham merrequinhas; que enquanto estamos parando de trabalhar no meio do dia pra torcer provavelmente em Brasília vão aproveitar pra aprovar alguma lei absurda na surdina; que o patriotismo do brasileiro termina junto com o segundo tempo, quando ele já começa a falar como este país está perdido; que a FIFA é tão ou mais corrupta que nossos piores políticos corruptos, mas não deixamos de achar incrível a competição que faz.

Por que, né? Porque é tão difícil nos desligarmos desses “bastidores” dos quais tomamos ciência quando nos tornamos adultos de verdade? E são coisas importantes, que eu me orgulho de ter aprendido, de ter tomado conta e me posicionado contra. Mas aí elas mexem com a minha brasilidade futebolística e já queria não saber de nenhuma delas. E aí logo em seguida penso “não, imagina, isso tudo é BEM mais importante que um jogo de futebol, não posso deixar pra lá”, e então me vejo torcendo chocha, quase desejando que o Brasil perca logo a Copa – o que, convenhamos, não faz diferença nenhuma porque já perdeu tantas e tantas vezes e nada mudou. Uma vez um amigo meu, apaixonado DE VERDADE por futebol, fez uma comparação ótima para esse pensamento, que infelizmente não posso colocar aqui, porque é meio indecente, rs. Mas, tentando deixá-la mais publicável, diria algo como: por que a gente não consegue mais comer aquele chocolate de lápis da Pan, ruim pra caramba, com gosto de parafina, que tem na composição todo tipo de ingrediente MENOS chocolate, pensando apenas que é divertido “comer um lápis colorido”, como fazíamos aos seis anos de idade?

Eu disse que este não era um post de mimimi, então, não, não tenho as respostas. Não consegui ainda chegar à conclusão de que, se pudesse, gostaria que essas informações todas que me “atrapalham” de curtir a Copa fossem apagadas da minha memória, pra eu só – curtir – a – Copa. Então, escolho chegar ao final do desabafo com dois sentimentos, dos quais, estes sim, posso ter certeza. O primeiro é de gratidão! Por ter nascido no “país do futebol”, ter curtido a Copa loucamente na infância e adolescência, ter trabalhado com futebol no começo da carreira e ter, como coroação master disso tudo, estado num jogo do Brasil na Copa do outro lado do mundo me sentindo absolutamente privilegiada, feliz e realizada. Aquela Julie de fato existiu, e curtiu, e se apaixonou e até chorou por futebol, tudo com muita verdade, então agradeço por ter vivido tudo isso. E o segundo sentimento é o de esperança, a última que morre, a de brasileiro que não desiste nunca. Esperança de um dia vermos um muno mais justo, com menos corrupção, com menos bastidores podres, seja no futebol, na política ou na educação. Pra que possamos voltar a gostar do entretenimento pelo que ele é, não pelo que o usam pra ser; pra que possamos valorizar os nossos jogadores porque todas as outras profissões já são valorizadas; pra que possamos gritar “GOL” sem ter na verdade entalado na garganta o “FORA TEMER” que de fato queríamos gritar; pra que possamos ser mais verdadeiros ao reagirmos à empolgação de nossas crianças com uma Copa. Enfim, pra que o Brasil ganhe não apenas a cada quatro anos, e sim todo dia, e ganhe, não apenas como seleção, mas como nação.

Não, o meu amor pela Copa do Mundo não é mais o mesmo. Mas, sim, eu ainda tenho esperança no mundo. E, desde que me senti chamada pra contribuir de uma forma mais profunda com ele, a partir da minha luz (entenda melhor lendo o post “O nascimento da minha luz“), não vou deixar ninguém, nem eu mesma, me convencer do contrário. Tem muita luz escondida por aqui no Brasil, sim. Luz suficiente pra ascender refletores, lotar um estádio e iluminar um campo gigantesco onde craques de todas as idades, raças, profissões, orientações sexuais e religiões possam fazer o seu gol e deixar a sua marca. Bora fazer parte desse time? 😉

DSC08371
Copa de 2010, a primeira do João – e acho que a Copa em que comecei a fazer toda essa ressignificação…

Ah, me conta nos comentários qual a sua visão disso tudo? O quanto as “conscientizações” da vida adulta interferiram no seu amor/prazer por ver a Copa do Mundo? Ou você nunca curtiu? Ou pelo contrário, quanto mais velho fica, mais se anima quando o mundial de futebol chega? E se hoje mora fora do Brasil (estou descobrindo ter leitores de vários países :O ), como é curtir daí a Copa, num clima de maior imparcialidade política? Quero muito ouvir você! 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: