A mãe que sou

Ontem foi Dia das Mães e eu queria aproveitar pra contar uma situação deliciosa que vivi com o meu filhote João. Sabe a máxima “mãe é tudo igual”? Eu, com quase dez anos de maternidade, cheguei à conclusão de que não é não! Pode haver muitas similaridades entre as mães, claro, como a preocupação com os filhos, as expectativas, as broncas, as frases clichês de educação. Mas estou cada vez mais certa de que para cada mãe a maternidade é de um jeito, significa uma coisa diferente, tem um peso – positivo e/ou negativo – muito próprio. E na semana passada pude ter uma conversa incrível com o meu filho sobre o que é a maternidade para mim.

Foi depois da apresentação dele na escola, daquelas que nos fazem chorar litros. Estávamos no carro, eu digirindo, ele ao meu lado (porque agora “é grande” e já pode ir sentado no banco da frente), e ele me perguntou qual era a “música dele”. O assunto surgiu porque eles cantaram uma música lindinha da Ana Vilela (“Promete”), dedicada por ela ao seu filho. A minha resposta pro João foi que ele não tem uma só, mas várias músicas que eu considero minhas pra ele. “Todas as que estão naquele CD que eu e o papai montamos antes de você nascer, e que coloquei pra tocar milhares de vezes quando você era bebê,” contei. “Mas a mais especial delas”, continuei, “é aquela que tocou no exato momento em que você saiu da minha barriga”.

A música é “You’ve got a Friend”, do James Taylor. E o legal da história é que ela já estava no tal CD feito durante a gravidez, e aí na hora do parto, quando os próprios médicos ligaram o rádio numa estação qualquer, essa música tocou E XA TA MEN TE no momento em que o João estava nascendo. Também tenho várias lembranças de ouvi-la  e cantar pra ele quando era um bebezinho, fazendo-o dormir, amamentando, cuidando das cólicas e até no dia em que precisou ir no hospital colher sangue, com menos de uma semana de vida (ô dó!!!). “E o que diz mesmo essa música, mamãe?”, o João me perguntou no carro. Aí resolvi colocá-la pra tocar enquanto eu traduzia a letra. Não era a primeira vez que eu traduzia, mas nesse dia percebi que ele estava prestando muita atenção em cada palavra que eu falava…

“Quando você estiver abatido e com problemas
E precisar de uma mão para ajudar
E nada, nada estiver dando certo
Feche seus olhos e pense em mim
E logo eu estarei lá
Para iluminar até mesmo suas noites mais sombrias

Apenas chame meu nome
E você sabe, onde quer que eu esteja
Eu irei correndo
Para te ver novamente

Inverno, primavera, verão ou outono
Tudo que você tem de fazer é chamar
E eu estarei lá, sim, sim, sim
Você tem uma amiga…”

A música estava no meio e eu nem tinha terminado essa última frase do refrão quando o João começou a chorar, de soluçar mesmo, e me abraçou forte. Estávamos entrando no estacionamento do supermercado, e precisei parar o carro na primeira vaga que vi para chorar junto e abraçá-lo também. “Obrigado, mamãe, por ser minha amiga!” A frase me fez chorar ainda mais. Porque é esse o tipo de mãe que sou. Não sou uma mãe superprotetora. Não sou uma mãe grudada em seu filho. Não sou uma mãe que chora de saudade quando ele fica uns dias longe. Não sou uma mãe que sente culpa quando está se divertindo sem o filho. Talvez a separação do pai dele tenha ajudado a me tornar essa mãe. Mas tenho a sensação bem forte de que seria assim de qualquer jeito. Simplesmente porque esse não é o meu jeito. Amo o meu filho MAIS QUE TUDO neste mundo, mas não sou dependente da presença dele para ser feliz. Nunca fui. Aliás, nem eu nem o pai dele. O João tinha uns oito meses quando dormiu pela primeira vez na casa da minha mãe para que eu e o pai dele pudéssemos sair com amigos. Depois viajamos só nós dois quando ele tinha menos de dois anos, e nunca tivemos esse peso de estar longe e felizes. Logo após a separação, quando ele ficou os primeiros finais de semana com o pai, eu saí, me diverti e curti aqueles momentos de poder fazer o que eu quisesse. E curto muito até hoje!!! Gosto mesmo de ter um tempo só meu, ou meu e da Mari quando o João não está. Porque a questão central da minha maternidade não está no estar sempre junto, e sim no estar sempre disponível! E eu pude, naquele momento, no estacionamento de um mercado, explicar isso pra ele, pela primeira vez.

“Eu AMO estar com você, filho, amo quando rimos juntos, jogamos jogos, videogame, vemos filmes agarradinhos, jogamos bola no parque, lemos livros nas bibliotecas, andamos de bike, pintamos mandalas, cozinhamos. Mas também curto demais quando você está com o papai, ou viajando de férias, ou se divertindo com a vovó, ou brincando na casa de um amiguinho, ou fazendo novas amizades num acampamento, ou mesmo aprendendo na escola. E nessas horas às vezes eu estou trabalhando, mas às vezes também estou me divertindo, numa viagem, no cinema com a Honey, num bar com amigos, numa aula de dança. São momentos em que não estamos juntos, em que eu estou me divertindo sem você, e você sem mim, mas que são igualmente especiais, porque eu sei que você está feliz, vivendo coisas novas, tendo experiências legais, conversas legais, aprendendo por si só! E eu não te amo menos nem sou menos sua mãe quando estou longe. Porque meu coração está disponível para você em todas essas situações, e, se você precisar de mim, é como diz na música, eu irei correndo te encontrar, de onde quer que esteja!” Ele ainda estava chorando, nós dois estávamos, mas entre lágrimas e com a música tocando continuei explicando que algumas mães têm mais dificuldade nessa desassociação dos filhos, se sentem mal quando estão longe deles, não conseguem deixá-los dormir fora, e muito menos viajarem pra longe, mas que elas não estão erradas por isso; são apenas diferentes de mim nesse sentido, e tá tudo bem! “Mamãe, eu também gosto de me divertir sem você, e também não te amo menos quando estou longe, nem quando não sinto saudade”, ele falou, me fazendo rir, porque sei que quando ele está com os avós, por exemplo, nem se lembra da minha existência mesmo, rsrs. “Obrigado por ser a melhor mãe do mundo!”

Nessa hora a gente já estava com a cara inchada de tanto chorar, rindo ao mesmo tempo daquela situação e de pensar o que as pessoas do mercado iam achar dos nossos olhos vermelhos daquele jeito, hehehe. Mas fomos mesmo assim, entramos no mercado abraçados e fizemos compras com a colaboração mútua de sempre (ele pega umas coisas, eu outras, ele carrega as sacolas mais leves, eu as mais pesadas). E saímos de lá certamente mais próximos, ainda mais conectados por esse amor que é infinito e independente de apego. E chegando em casa montei uma playlist no Spotify com todas as minhas músicas pra ele, que estavam naquele CD feito na gravidez (que infelizmente se perdeu em uma das mudanças) e mandei o link pro celular dele. E desde esse dia o João dorme ouvindo a playlist, de vez em quando canta uma das músicas pra mim e ainda repete a frase “Te amo, mamãe, mesmo quando estamos longe. Obrigado por ser minha amiga sempre!”. ❤

Não vou terminar o post sem dizer que posso não ter essa, mas tenho outras culpas de mãe, de sempre achar que poderia ter feito melhor, ter educado diferente, ter ensinado mais coisas, ter brincado com ele mais vezes, ter dado menos broncas desnecessárias nos anos que já se foram. Mas tenho trabalhado nisso a cada dia, me libertando da culpa da mãe que não fui e não sou e me agarrando, dando ênfase e incentivando a mãe que sou. E que, eu acredito, pode ser, sim, mesmo com minhas imperfeições e com as eventuais distâncias, a melhor mãe que o João poderia ter! Que Deus siga me ajudando nessa diária, difícil, mas tremendamente recompensadora missão!

3 comentários em “A mãe que sou

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