Sim, Deus me ama!

Eu nasci e cresci dentro da Igreja Presbiteriana Independente. Não que tenha nascido fora da maternidade, rs, mas a igreja era mesmo a minha segunda casa desde que saí daquela. Meus pais também foram criados na igreja, lá se conheceram, e na mesma igreja onde eles se casaram, no bairro do Ipiranga, São Paulo, eu fui batizada, comemorei meu primeiro aniversário e vivi boa parte da minha infância. De lá, partiram para o desafio de começar uma nova igreja, no bairro do Campo Belo, e lá fomos com eles eu e meu irmão. Tanto na primeira quanto na segunda, meus pais sempre foram líderes, e estar no palco, cantando com eles ou apenas acompanhando-os nos milhares de acampamentos que fizeram era mais que comum pra mim. Não viver na igreja nem era uma possibilidade na minha cabeça, e sempre acreditei em tudo o que ouvia e lia. Na adolescência, não fiz jus ao que muitos esperavam da “maluquinha” Julie, e continuei firme ali, onde também conheci e namorei um cara muito especial que se tornou depois meu primeiro marido. Mas foi também nessa época, entre os 15 e os 20 anos, que comecei a desenvolver uma relação com Deus não tão saudável, que tinha mais de medo e menos de amor.

Tinha medo de ser punida por coisas que falava e fazia, nunca achava que estava “devolvendo” pra Deus o suficiente e, acima de tudo, tentava me sentir amada por Ele, mas na maioria do tempo me sentia mais em dívida mesmo. Me casei – na igreja, claro – com a bênção dos meus pais, da família do meu noivo e do pastor que me batizou. E no meu primeiro casamento a igreja continuava sendo a segunda casa, já que meu ex era ministro de louvor, eu cantava na banda com ele, e entre ensaios, cultos e outros compromissos nosso final de semana era praticamente dentro da igreja. Quando fiquei grávida e tive a difícil notícia sobre as pequenas probabilidades de ter um bebê saudável (entenda melhor com a História da Mamãe Julie), foi sem dúvida o momento da minha vida em que me senti mais vulnerável e dependente de Deus. Eu não podia fazer nada, mas Ele podia. E fez! O milagre mais lindo de todos, e eu não poderia jamais agradecer o suficiente. Mas no fundo isso me mostrava como a nossa relação (minha e de Deus) era muito mais de “somar débitos e créditos” do que de graça e amor incondicional.

Os anos foram passando e eu me percebia questionando algumas das coisas que tinha aprendido como “certas e erradas”, tentando entender o que me fazia ter esse medo de estar sempre em débito com Deus e, principalmente, buscando sentir aquele seu amor incondicional no qual sempre acreditei, e que Jesus ressaltou como o maior dos mandamentos. E acabei me encontrando com isso tudo do jeito mais improvável possível: quando me separei, e pouco tempo depois me vi apaixonada por uma mulher. Se você já leu o post sobre Dois casamentos e uma felicidade, sabe que não me arrependo de nada e que sou grata pela forma como tudo aconteceu na minha vida. Mas mais maravilhoso que isso foi experimentar, no meio de um turbilhão, o melhor da minha relação com Deus. Lembro-me perfeitamente da noite em que eu e meu ex-marido decidimos nos separar definitivamente, de chorar e orar a Deus pedindo, implorando pra ser feliz “apesar” daquela escolha. Lembro-me também de toda a confusão mental que senti quando essa felicidade chegou em forma de uma mulher. Como assim?? Aquilo não podia ser de Deus!! Aprendi a vida toda que o casamento “certo” é entre um homem e uma mulher, e que as relações homossexuais eram condenadas na Bíblia. Resisti, portanto, como fiz com tantas tentações ao longo da vida. Até que, em um determinado momento, desisti de resistir. Mas não colocando Deus de lado.

Sou tão privilegiada que nesse momento de reviravolta tinha o privilégio de estar me relacionando com uma mulher igualmente cristã e temente a Deus. E foi ao lado dela, junto com ela, orando com ela, que nos colocamos diante de Deus, que apresentamos pra Ele o nosso amor, que era sincero, verdadeiro, puro. Lembro de um pedaço da oração que fizemos no dia em que descobrimos que o sentimento que surgiu como uma brincadeira de experimentação tinha se tornado um amor forte, tanto no meu coração quanto no dela. “Deus, você conhece a gente, sabe que não mudamos por causa do que estamos sentindo, não te amamos menos, não queremos menos estar perto de você e seguir o melhor que tem pra nós. E sentimos que o nosso amor é sincero, ‘do bem’, não algo a ser condenado ou que vai contra o seu caráter amoroso. Mas, mesmo assim, se você não estiver feliz com esse nosso relacionamento, se ele não for ‘de Deus’, nos mostra! E vamos entender e te obedecer.” Se tive medo ao fazer essa oração? Muito! Fui dormir apavorada com a possibilidade de Deus me mostrar que estávamos erradas mesmo e devíamos terminar com aquilo, porque estava mesmo apaixonada por ela. Mas ao mesmo tempo, esse foi um dos momentos da minha vida em que mais me senti em paz com Deus, sincera perante Ele, querendo de verdade fazer a Sua vontade.

O tempo passou e a resposta de Deus vinha em forma das mais lindas descobertas. Descoberta de amigos que entendiam e apoiavam o nosso relacionamento, descoberta de um pastor tão amoroso, que nos carregou no colo, orou conosco, nos ensinou o real significado de algumas das partes da Bíblia que condenavam a homossexualidade, descoberta de outros casais em situação parecida com a nossa (se descobrindo gays, mas não menos cristãos por isso), descoberta de igrejas que não só aceitavam o nosso relacionamento como conseguiam ver nele o amor de Deus. O tempo foi passando e cada vez mais nos sentíamos amadas por Ele, cuidadas, abençoadas. Até no momento mais difícil de todos, de contarmos pros nossos pais, Deus esteve presente, mostrou sua companhia e seu amor nas nossas palavras pra eles, deixando-os tranquilos de que não tínhamos, sob hipótese nenhuma, abandonado nossa fé. “Deus têm nos mostrado que nos ama como somos e que vê o amor verdadeiro que sentimos, e o abençoa. Peçam, e Ele vai mostrar isso pra vocês também”, dissemos aos nossos pais. Claro que pra eles, cristãos há muito mais tempo, com conceitos de certo e errado muito mais definidos, com expectativas para as filhas muito mais frustradas, com medos “do que vão pensar” muito maiores, foi muito mais difícil, demorou muito mais. Mas Deus tem se mostrado aí também.

De lá para cá, são quase seis anos de um relacionamento a três: eu, a Mari e Deus. Jamais Ele foi deixado de lado, jamais a Sua vontade foi desconsiderada, e JAMAIS nos sentimos condenadas. AMOR é tudo o que sentimos dele. Fomos tão abençoadas nesse período, tanto com conquistas quanto com pessoas que chegaram ao nosso círculo de amizade (para substituir as tantas que também saíram…), que não poderíamos ser mais gratas. Eu, particularmente, sempre digo que tirei a sorte grande, porque não sei como seria viver um relacionamento sem poder orar junto e cantar hinos e louvores de vez em quando, rs. Nosso relacionamento tem problemas, CLA-RO, como todos os outros. Discutimos por bobeiras, temos assuntos a resolver, diferenças a equalizar, como qualquer casal. Mas saber que temos Deus ao e do nosso lado para passar por tudo isso sempre ajudou demais! Em 2015, nos casamos no civil, com a bênção de quatro padrinhos queridos (dois deles cristãos, amigos da igreja antiga) e do nosso pastor e grande amigo da vida, que, durante a pequena cerimônia que fizemos depois, disse as palavras que até hoje ecoam no nosso coração e no de todos os que a ouviram, da boca dele ou da nossa:

DEUS NÃO AMA QUANDO, DEUS NÃO AMA SE, DEUS AMA!!!

Deus me ama! Do jeito que sou, a Julie cheia de defeitos e qualidades, mãe do João, casada com uma mulher incrível, igualmente amada por Ele! E se há algo que alegra meu coração e me faz chorar de emoção é poder dizer que HOJE, depois de ter passado por tanto, depois de ter vivido tantos altos e baixos, depois de me sentir tão em dívida com Ele, depois de tantos anos com medo de ser punida, de não “ser o suficiente” para Ele, EU SINTO O AMOR INCONDICIONAL DE DEUS POR MIM! 🙂

godlovesme

3 comentários em “Sim, Deus me ama!

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  1. Que historia linda, impactante, cheia de Deus. Subi aos céus lendo cada linha! Cresci! O mais lindo é ler parte da historia e me ver dentro dela… pude conviver um pouquinho com vc Julie no momento de sua infancia/ adolescencia quando vinha de ferias na casa da tao linda e amada tia Floriza! E posso te dizer que por anos a fio meu relacionamento com Deus foi exatamente ckmo o seu Débitos e creditos! Hj vivo a liberdade de AMAR e ser AMADA pelo Senhor na liberdade qhe Ele me deu na vida! Obrigada pelo seu blog e por compartilhar historias incriveis…. nos fortalece! Um beijo em vc e na sua linda familia Mari e Joao ah e claro, no lindo Martim 😘❤

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