Eu cozinho bem, obrigada!

Não, não sou convencida quanto ao meu talento culinário. FUI convencida de que o tenho. Explico: eu não sou aquele tipo de mulher que cresceu na cozinha, testou as receitas da mãe ainda adolescente e foi um prodígio das receitas. Pelo contrário, eu não tinha muita paciência pra cozinhar, quando estava sozinha fazia ou o básico omelete ou coisas que davam ainda menos trabalho (tipo arroz com atum – que, admito, amo comer até hoje). Quando me casei pela primeira vez, aos 21 anos, comecei a me aventurar em algumas coisas mais elaboradas. Frango xadrez, escondidinho de carne moída com purê de batata, outros purês e as comidas que minha mãe fazia em casa e que eu não queria parar de comer (creme de milho, estrogonofe) eram receitas que entravam em cena nos finais de semana e quando tinha visitas, mas ainda achava chato ficar na cozinha no dia a dia. Mas aí depois que me separei acabei indo trabalhar numa editora que fazia livros de gastronomia, e um livro específico, de risotos variados, fez com que me sentisse desafiada. E se eu tentasse me especializar nesse prato que sempre amei tanto e custava tãaao caro nos restaurantes? Mais especificamente uma receita me saltou aos olhos (e estômago): risoto de funghi. Era o preferido meu e da minha (então) namorada (hoje, esposa), e poder fazê-lo em casa e comer quando quiséssemos seria um sonho (e uma baita economia!). Fui então feliz e empolgada pra cozinha – o que já não era comum – e, depois de um pouco de bagunça com os passos desconhecidos, fiz… wait for it!… O MELHOR risoto de funghi que já tinha comido! Comi saboreando, torcendo para não acabar e desacreditando que era EU quem tinha feito!!! E ali o mundo da gastronomia se abriu pra mim.

A começar por quase todos os risotos daquele livro (ainda bem que a Mari gosta de risoto! rs), comecei a me superar a cada preparação. Pesquisava receitas de pratos que gostava de comer e fazia, sempre acrescentando uma coisa ou outra, como boa leonina voluntariosa que sou. O ápice foi quando, uns meses depois, resolvi fazer um jantar no Dia de Ação de Graças, com vários pratos típicos do Thanksgiving americano – sendo que eu sequer tinha comido nenhum deles. Peito de peru assado, purê de maçã, vagens e até a pumpkin pie (torta de abóbora). Tudo só para nós duas. E tudo deu certo, ficou bonito e gostoso. Aí não parei mais. Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia d@s Namorad@s, todas as datas viravam motivo para eu reunir pessoas e cozinhar pra elas. E cerca de um ano depois desse começo, quando eu conheci a musa-diva-rainha-das-panelinhas Rita Lobo, a “cozinhança” se intensificou ainda mais. Ter “descoberto” a Rita certamente foi um marco na minha vida. Porque ela me ensinou não só a cozinhar sem medo, mas a comer bem de verdade, comida de verdade, e gostar disso de verdade! Aliás, antes de ter a ideia deste blog aqui, quando estava no meu auge de fãzoca da Ritinha (e nem minha família nem meus amigos me aguentavam falando dela mais, rs), eu cheguei a começar um blog só sobre minha relação com ela e as receitas dela, o que fiz, o que mudei, como ficou. Tava até bem legalzinho, só que depois que comecei a cozinhar profissionalmente (calma que já chego nessa parte da história) eu acabei ficando sem tempo pra me deliciar na cozinha como hobby, e acabei deixando a ideia pra lá. Mas, quer saber? Aqui está ele: www.riteieinventei.wordpress.com/. Se você está acompanhando este blog aqui e gostou desta minha vida de cozinheira, entra lá, veja o que acha e me escreve dizendo se devo continuar com o Ritei & Inventei em paralelo ao Vida de Índigo ou não! 😉 Aliás, olha aqui o primeiro hambúrguer com receita dela que fiz pra amigos:

hamburguer

Parênteses para falar da musa fechados, voltemos à minha trajetória culinária. Vou pular uns dois anos, nos quais fiz quase uma centena de receitas e mudei diversos hábitos alimentares (tipo troquei o miojo pelo macarrão grano duro, os temperos prontos por cebola e alho moídos na hora, os caldos de galinha, carne e legumes por caldos caseiros, os pratos prontos congelados por receitas rápidas e fáceis) e passar para os seis meses que vivi na casa da minha sogra, logo que mudei para o interior, enquanto a nossa casa não ficava pronta. Foram os meses em que mais senti falta da cozinha! Não que eu não cozinhasse nada lá, fiz até uns jantares bem legais, como um mexicano em plena terça-feira, um árabe e outros com as minhas comidas preferidas de sempre. Mas não era a MINHA cozinha. Não tinha necessariamente os meus ingredientes, utensílios, o tempo que eu queria para cozinhar, enfim… E não porque minha sogra dificultasse as coisas, pelo contrário, ela super me incentivava e me deixava bem à vontade pra cozinhar. Mas a casa dos outros sempre é casa dos outros, né? Aí que, quando mudamos pra nossa casa e eu finalmente pude voltar a ter uma cozinha para chamar de minha, fiquei assim de feliz, ó:

feliz na cozinha

Foi depois disso que minhas experiências culinárias “ritadas” e inventadas se multiplicaram e eu me vi fazendo de amigos, família e quem mais passasse pela porta de casa verdadeiras cobaias. Eram receitas e mais receitas, invenções e mais invenções, jantares e mais jantares, posts e mais posts dos meus pratos. E esses últimos foi que fizeram meus amigos me incentivarem a criar um blog e a seguir pra um caminho mais profissional com isso, algo que eu nunca tinha pensado. Considerei, criei o blog, deixei ele cozinhando (pegou o trocadilho? 😉 ) e depois apaguei o fogo e a ideia ficou congelada mesmo. Até que no final de 2016, quando tivemos uma baita dificuldade financeira em casa, ao desabafar por telefone com a minha melhor amiga, que mora nos EUA, ouvi dela a seguinte frase: “por que você não começa a vender essas comidas boas todas que está fazendo e postando?”. PLIM! Uma luz se ascendeu! Se eu estava curtindo tanto cozinhar, experimentar novas receitas, “ritar e inventar”, realmente, por que não ganhar dinheiro com isso? Conversei com a Mari e ela adorou a ideia! Foi então que partimos pro projeto MarmiTOP! Chegamos no nome com uma ajudinha do meu papis criativo, e tinha tudo a ver com o conceito principal: vender marmitas saudáveis sob encomenda, com comida de verdade (sem conservantes, ultraprocessados, temperos prontos etc.), em receitas TOP (muitas da diva É ÓBEVEO).

A pessoa índigo aqui adorou toda a novidade que se instalou na casa, né? Desenhar o logo, pensar nos itens do cardápio, criar o cardápio (a gente faz de tudo mesmo, bem) e, claro, testar algumas receitas. Também estudei processos de congelamento e como os alimentos se comportariam, quais as melhores embalagens, formas de encomendas e entregas… Foram uns dois meses até de fato começarmos a divulgar a MarmiTOP, inicialmente, apenas dentro do condomínio em que moramos – que tem mais de 200 casas, o que já significava que dando certo teria MUITA comida pra fazer. E deu! MUITO certo! Todo mundo curtiu o cardápio super variado, com receitas diferentonas e várias opções saudáveis E ao mesmo tempo gostosas. E de tão certo logo cresceu para fora do condomínio. E depois para outros bairros. E depois para outras cidades próximas. E depois para amigos em São Paulo. E depois para pessoas desconhecidas, que chegavam pelas redes sociais que criei, fisgadas pelos posts com fotos dos pratos, feitas pra dar vontade mesmo, rs.

E é deixando a modéstia bem à parte mesmo que parto para o fim deste post, até para poder explicar o título. O que aconteceu com todo esse processo pelo qual passei foi que não só me descobri na cozinha. Descobri que de verdade tenho um talento para isso, um dom, no qual nunca tinha reparado antes. E não percebo isso pela minha comida ser algo de outro mundo não. É gostosa, mas acho gostosa normal, não um absurdo de gostosa, rs. A diferença está no quão fácil é pra mim chegar nessa comida gostosa, no quão intuitivo é pra mim trocar um ingrediente por outro e fazer ficar bom igual ou até melhor, no quanto não preciso ficar desesperadamente atenta ao timer do forno, porque mesmo sem prestar atenção desligo na hora certa. E não foi sozinha que percebi. Foi ouvindo as pessoas falarem, não só elogios aos prato pronto, mas sobre se espantarem com como faço várias coisas ao mesmo tempo, como não preciso ler as receitas, como coloco quantidades “a olho” e dá certo. E fui ouvindo, e reparando em mim mesma, e provando as minhas próprias comidas, e começando a perceber que o que era normal e fácil pra mim fazer realmente não o era pros outros. Mas ainda assim não foi fácil admitir que tinha um dom pra cozinha. Principalmente porque nunca estudei pra isso. Nunca fiz um cursozinho sequer de gastronomia ou culinária. E, se é pra confessar, me sentia até meio “impostora” no começo da MarmiTOP, porque via as pessoas se alimentando da minha comida na casa delas, mandando foto dos pratos elogiando um monte, e pensava “gente, mas eu só fiz a comida que almoçamos aqui em casa na semana passada! Não tem NADA DE MAIS nisso!”. Acontece que tem, rs. Demorou para conseguir admitir isso, até por esse negócio que temos de ser difícil falarmos bem de nós mesmas, especialmente pra outras mulheres. Mas dom é uma coisa tão linda, que veio de Deus especialmente pra gente, que está escondido no nosso DNA em algum lugarzinho só nosso, que não pude mais ignorar. Por isso hoje digo, sem medo de parecer metida, porque não teria motivo algum pra ser assim, já que não “trabalhei” pra receber esse presente: tenho o dom de cozinhar. Sou boa nisso. E fico feliz demais em poder usar meu talento para fazer coisas gostosas para os meus amigos, alimentar minha família de forma saudável e (sim, sim, por que não?) até comer no conforto do meu sofá, acompanhada de um vinho e da minha mulher, uma comida de restaurante que seria bem cara, mas que eu fiz a poucos metros dali, gastando bem menos. 😉

Quase dois anos depois, continuo feliz de poder alimentar bem meus clientes, mostrar para as pessoas que é possível comer comida de verdade cheia de sabor e ajudar quem antes comia mal. Brincava no começo, inclusive, que se as minhas marmitinhas pegassem o lugar de umas duas lasanhas prontas (eca, ecaa, ECAA!), já estaria feliz. E aconteceu que elas pegaram o lugar de umas MUITAS lasanhas prontas. E me senti bem demais por isso. Na verdade, tirando alguns trabalhos sociais que fiz, acho que foi a vez que mais me senti verdadeiramente contribuindo para o mundo ser melhor. E só tava fazendo minhas comidinhas básicas, rs. Hoje também sei que a MarmiTOP não era o sonho da minha vida, e nem é o que quero fazer para sempre. Cozinhar profissionalmente acabou me tirando, sim, um pouco do PRAZER que sentia ao cozinhar. Mas serviu pra tanta, mas tanta coisa boa!! Além de nos ajudar financeiramente, além de ajudar os outros a comerem melhor, além de me ajudar a me sentir útil de verdade para o mundo, além de ajudar o meu filho e a minha esposa a terem mais prazer pelas comidas saudáveis, me ajudou a olhar pra dentro de mim, a parar pra perceber, entender e admirar um dom que recebi de Deus, e que até então estava adormecido e, portanto, sendo mal-usado. Hoje agradeço por ter tido toda essa experiência, agradeço imensamente à minha amiga-irmã Ana, que lançou pela primeira vez essa ideia, agradeço sem palavras à minha esposa pela parceria imprescindível nessa empreitada, agradeço aos meus clientes pelos elogios e por comprarem minha comida mesmo sabendo que não sou uma “cozinheira profissional”, e agradeço, acima de tudo, a Deus, que me fez com esse dom tão lindo e especial que é COZINHAR. E espero, seja com ou sem MarmiTOP, continuar sempre podendo exercê-lo. Afinal…

amar_cozinhando

🙂 ❤

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