A História da Mamãe Julie

Quando eu era criança, até o início da minha adolescência, ao me perguntarem o que eu queria ser quando crescesse, a resposta era uma só: MÃE! Como escrevi no primeiro post da minha Vida de Esposa, isso na minha cabeça significava me casar (com um homem, “claro”), ficar uns anos curtindo a vida a dois e depois ter filhoS – sempre quis mais de um, no mínimo dois, provavelmente três, sendo pelo menos um adotado. Mas a vida surpreende a gente, né?

Eis que, quando eu e meu ex-marido resolvemos que era hora de engravidarmos, lá em 2007, fomos fazer os exames de rotina e investigar uma alteração genética que desde a adolescência eu sabia que tinha. É um negócio meio raro e complexo, mas, pra resumir, eu tenho dois pares de cromossomos, o 14 e o 15, “coladinhos”, rs. Eles estão lá, mas um do 14 e um do 15 são grudados. E foi investigando isso a fundo que tive a pior das notícias, no que foi sem dúvida um dos dias mais tristes da minha vida: por causa dessa alteração, eu tenho apenas 25% de chance de levar qualquer gravidez adiante. Isso porque, na hora de fazer a transferência genética para o bebê, meu corpo tem apenas 1/4 de chance de “entender” esses cromossomos que estão grudados como sendo cada um um, separados. Na prática, o que ouvi da médica numa tarde em São Paulo foi: “Suas chances de abortar nas primeiras semanas são de 75%. No caso de não abortar, esses 25% restantes se dividem em duas outras possibilidades: o bebê ter a mesma alteração genética que você (dois cromossomos grudadinhos) ou o organismo entender que são separados e separá-los no processo. E apenas neste caso é certeza de que ele não terá nenhum defeito físico, porque caso tenha a mesma alteração que você, não podemos prever que tipo de defeitos ele pode apresentar”. Dá pra imaginar meu baque? O de uma jovem de 26 anos cujo grande sonho da vida era ser mãe?

Desabei. Liguei pra minha mãe saindo do médico e me acabei de chorar andando pela rua. Peguei o metrô, fui até o lugar onde meu ex-marido trabalhava, contei pra ele e chorei mais ainda. Choramos. Será que aquilo significava ter de abrir mão do sonho de ser mãe biológica? Adotar SEMPRE esteve nos meus planos, desde criança também (minha mãe trabalhou em um Centro de Adoção e perdi as contas de quantas vezes pedi a ela pra adotarmos um dos bebês, rs). Mas morria de vontade de engravidar, ter aquele barrigão, sentir o bebê mexer, passar pelo parto etc. Ao mesmo tempo, durante anos tive medo de ter um bebê com algum defeito físico. Não sei por que, nem tinha motivo pra isso até então, mas era um medo que sempre me batia. E com essa notícia, claro, ele ficou mais forte. Ainda mais por saber que nem era possível prever que tipo ou o tamanho do defeito que isso podia causar!! Em mim, essa alteração genética causou apenas um encurtamento nos ossos de cinco dedos (um da mão esquerda e dois de cada pé). É algo que só se nota de perto, mas que ainda assim na adolescência me fez esconder os pés em sapatos fechados durante anos (por causa dos dedos mais curtos próximos ao dedão, parece que ele é “gigante”, e isso, claro, fez com que ouvisse muitas piadas e brincadeiras que não gostava…). Já tinha superado esse defeitinho e as brincadeiras com meu dedão grande à essa época da notícia médica, mas imaginar que no meu filho a alteração poderia causar algo mais grave, como um braço ou uma perna a menos, me apavorava. E aí? Desistir de engravidar então? Eu não podia… essa não seria eu. Então decidi não desistir. Decidi deixar nas mãos de Deus, em quem sempre confiei, e encarar a possibilidade de sofrer com abortos, ou de sofrer com a notícia de que teria um filho com algum comprometimento, talvez grande. Até que os milagres começaram a acontecer…

Meu milagrinho!

Essa notícia chegou no mês de setembro de 2007. Em novembro, mais calma e decidida a tentar, parei de tomar o anticoncepcional. Em dezembro minha menstruação não veio, mas em meio a Natal, Ano Novo e várias comemorações, nem pensei que pudesse estar atrasada, mesmo porque fazia anos que não precisava ficar fazendo contas de quando ia descer. Aí, no meio de janeiro, quando percebi que já devia ter menstruado semanas atrás, e antes de realizar um procedimento estético que não podia ser feito em gestantes, resolvi fazer o exame. O de sangue logo de cara, porque sempre fui desconfiada de que o xixi pudesse indicar de fato um bebê, rs. O resultado chegou numa quinta-feira à noite, eu e o meu ex abrimos juntos, olhamos, lemos, tentamos de novo, mas não conseguimos entender nada, então ligamos para meu médico pra perguntar. A resposta dele: “você não está grávida, você está MUITO GRÁVIDA”! Um ultrassom no dia seguinte mostrou que estava já de quase oito semanas, e até ouvimos o coraçãozinho bater ❤ ! Parecia um sonho, choramos muito, mas na verdade não dava pra saber se era de alegria ou de medo. E aí, o que será que aconteceria? Seguraria aquela gravidez? Estaria ela nos 25% de chance disso acontecer? E a possibilidade de o bebê ter algum defeito pior que o meu? O resultado das preocupações foi que passamos cerca de mais oito semanas da gravidez meio sem conseguir comemorar. Contamos apenas para os mais próximos, não compramos nada para o bebê e ficamos aguardando chegar na 16ª semana, quando pude fazer um exame de punção do líquido amniótico, que consistia em enfiar uma agulha finíssima na barriga, coletar o líquido e nele fazer o exame genético que havia feito em mim e que mostraria se o bebê tinha alguma alteração ou não.

Dá pra imaginar a tensão antes do exame e de abrir o resultado, né? Mas dá pra imaginar também a ALEGRIA IMENSURÁVEL que tive ao abrir o envelope e ver que o meu bebê não estava apenas nos 25% de chance de nascer, mas NÃO TINHA ALTERAÇÃO GENÉTICA NENHUMA, ou seja, estava nos 12,5% de chance que eu tinha de ter um filho absolutamente perfeito! E, sim, filhO, segundo o Y no exame genético informou! Quanta alegria, quanto alívio, quanta gratidão a Deus!!!! O restante da gravidez ocorreu de forma incrivelmente perfeita, e no dia 28 de agosto de 2008, às 12h58, com 47 cm e 2,760 kg, nasceu o João Pedro! Saudável, perfeito, lindo, fruto de muita oração e tão desejado, um verdadeiro sonho realizado!

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A história de ninar mais linda do mundo!

O João foi crescendo e sempre lia livros para ele antes de dormir. Um dia ele me pediu, ainda sem saber falar direito, com um pouco menos de dois anos de idade, que eu contasse uma história inventada. Mas o pai dele é que era bom disso, eu, apesar de sempre ter tido muita criatividade, costumava travar quando “a redação era com tema livre”, rs. Mas naquele momento pensei como seria importante ele saber da própria história, do quanto foi desejado e de como eu me sentia abençoada de tê-lo depois de termos passado tudo aquilo. E assim surgiu A História da Mamãe Julie, que até hoje, aos nove anos de idade, ele de vez em quando me pede pra contar!

“Era uma vez uma moça e um moço. Eles se conheceram, se gostaram, namoraram, casaram. E o maior sonho deles era ter um filho. Mas aí, quando quiseram ter esse filho, a Julie descobriu que tinha uma doença, e que por causa dessa doença seria muito, muito difícil ela engravidar. Eles choraram muito, e oraram muito, pedindo a Deus que fizesse um milagre. E o primeiro milagre aconteceu: a Julie engravidou! Eles ficaram muito felizes, e agradeceram muito a Deus, mas ainda havia um problema. Por causa daquela doença, ela tinha o risco de ter um bebê com algum defeito, que podia ser pequeno ou podia ser grave. E novamente eles tiveram medo, e choraram, e oraram muito, pedindo a Deus que fizesse mais um milagre. E o segundo milagre aconteceu, um exame mostrou que o bebê era perfeito, não tinha doença nem defeito nenhum! E eles choraram muito, mas dessa vez de alegria, e agradeceram ainda mais a Deus! Escolheram o nome de João Pedro, que significa ‘rocha protegida por Deus’, ‘rocha abençoada por Deus’ ou ‘agraciado por Deus feito uma rocha’. E durante toda a gravidez compraram roupinhas, e fraldas, e brinquedinhos, e decorações, e montaram um quartinho lindo para ele. E no dia 28 de agosto o maior presente de todos chegou, o João Pedro nasceu. E naquele dia a Julie realizou o seu maior sonho e se transformou na Mamãe Julie. Seu maior desejo da vida, o de ser mãe, tinha se tornado realidade! E ela e o papai amaram muito o João Pedro, desde o primeiro dia de vida, e esse amor só cresce enquanto o João cresce. E jamais haverá amor maior que esse que a mamãe e o papai sentem pelo João!”

FIM? Não! A História da Mamãe Julie é apenas o começo da história de um menino maravilhoso, que já passou por tantas coisas na vida (mais que muito adulto, como diz o meu irmão), e que continua nos surpreendendo positivamente a cada dia, a cada mudança, a cada demonstração de amor que tem com todos à sua volta. E eu vou continuar contando aqui sobre as experiências incríveis que tenho com ele, meu maior presente, meu milagrinho de Deus, o #meufilhoteJoão! 🙂

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