Dois casamentos e uma felicidade

Sabe a máxima “me arrependo só do que não fiz”? Por muito tempo falei isso em alto e bom som. Estava errada. Me arrependo, sim, de algumas coisas que fiz. Principalmente aquelas que machucaram pessoas que amo. Mas se tem uma pergunta que sempre respondo com “NÃO ME ARREPENDO DE NADA!” é a que fazem sobre “meus casamentos”. A história é meio complexa, mas vou tentar (Deus me ajude!) resumir. Me casei pela primeira vez aos 21 anos, com um homem muito especial. Um cara sensível, educado, carismático, talentoso, batalhador. Com ele aprendi a ser adulta, vivi muitas “primeiras vezes”, conheci vários lugares do mundo. Começamos a namorar quando eu era uma adolescente deslumbrada, que acreditava em príncipe encantado e tinha mil sonhos, o maior deles: ser mãe. E, como cresci na Igreja Presbiteriana (veja mais – e espante-se um pouco! – nos posts da minha Vida de Crente), na minha cabeça não havia outro caminho para ser mãe a não ser casar-me com um homem, de preferência um “bom partido”. E ele era isso e mais – tipo compositor e ministro de louvor, um super “plus a mais” pra quem ama música como eu. Eis que seis anos de casados depois, realizamos juntos o grande sonho de ter um filho. O João Pedro é o menino mais lindo, doce, divertido, carinhoso, companheiro, talentoso e bondoso que conheço, e não poderia haver orgulho maior em mim que ser sua mãe! O meu casamento com o pai dele terminou quando ele tinha 3 anos. E ninguém acreditava, porque, como já disse, o cara é mesmo incrível! Mas também já falei que cresci na igreja e, portanto, não havia muitas perspectivas para mim que fossem diferente do “crescer, namorar, casar, ter filhos”. Acontece que dentro de mim havia não algumas, mas um mundo de perspectivas…

De repente, aos 30…

Sempre fui das experiências, nunca tive medo de provar coisas novas, de fazer as coisas que os meus amigos ainda não tinham feito, de experimentar coisas “proibidas”, de chocar. Aliás, aos 15 anos já choquei a família quando apareci com meu primeiro namorado. Lembro-me perfeitamente de andar de mãos dadas com ele na rua, perceber as pessoas nos olhando e não fazer ideia do porquê. Até que comecei a sentir (dentro da própria família, da igreja, entre os amigos 😦 ) o preconceito. O motivo: eu sou branca, ele, negro. Acho que foi a primeira vez que me inconformei com a pequenez do ser humano e suas piadas com fundo torpe – e podre. O namoro não durou muito, mas a indignação com alguns acharem estranho o que pra mim era a coisa mais normal do mundo não foi embora nunca mais. E, quer saber? Isso me ensinou muito! Tanto que me formou com mais coragem e a certeza de que a opinião da maioria nem sempre é válida e de que às vezes não há mal algum em nadar contra a maré.

E foi essa Julie, que não tinha medo de muita coisa (a não ser barata :O ) e não ligava muito para as caras feias, que, aos 30 anos, depois de terminar um casamento de quase dez anos com aquele partidão, se viu apaixonada por umA amigA e resolveu não fugir de experimentar mais essa. O resultado é que pouco tempo depois lá estava eu, casada novamente, dessa vez com uma mulher! Vendo caras feias de novo, chocando de novo, mas, acima de tudo, FELIZ de novo. Porque, sim, fui muito feliz com o meu ex-marido! Mas a felicidade de poder descobrir e libertar, depois de tantos anos, quem eu realmente sou, ahhhh, essa não tem preço. E que sorte a minha a de ter como esposa alguém tão incrível, interessante, divertida, inteligente, sábia, linda e parceira como a Marry! A gente é diferente pra caramba, tanto fisicamente quanto de personalidade. Mas os sonhos, os projetos, o estilo de vida, os gostos, as crenças são tão alinhadinhos, e as trocas de conhecimento e aprendizados que vivemos por termos personalidades diferentes são tão grandes que… uau! Como sou abençoada! Sem contar que nós duas crescemos na mesma igreja, dividimos a mesma fé, temos o mesmo Deus, e é com a ajuda dEle que seguimos juntas, fazendo nosso casamento ser a cada dia mais bem vivido! Desde esse dia maravilindo aqui:

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Antes que se perguntem (ou me perguntem, afinal a seção Quem é Você está lá pra isso 😛 ), o meu filho mora com a gente, sabe que somos casadas, lida com isso na maior naturalidade e dá uma lição de amor e respeito em qualquer pessoa que tente descreditar a nossa relação. Da mesma forma, o pai dele, por ser aquele cara tão legal, convive super bem conosco, nos apoia, nos ajuda no que pode e deixa claro sempre que deseja a nossa felicidade! Assim como eu (e a Marry) não poderia desejar pra ele e sua família (o João ganhou mais uma madrasta, um irmão postiço e uma meia-irmã por quem ele é LOUCO!) menos do que toda a felicidade do mundo!

E é por tudo isso que, quando me perguntam se eu me arrependo de ter sido casada com um homem, ou se me arrependo de ter me descoberto gay só depois dos 30 anos, ou se me arrependo de ter feito meu filho passar pela separação dos pais, a minha resposta não pode ser outra: NÃO! Não me arrependo de nada disso! Porque, como esses dias mesmo conversávamos, eu, minha esposa e meu ex-marido, tudo o que aprendemos sobre cristianismo, tudo o que acreditamos sobre Deus diz que o amor supera tudo, o amor é a maior de todas as coisas. É o amor que sempre foi e tem sido a base das minhas, das nossas decisões. E AMOR é o que essa grande família diferentona, que eu me orgulho de ter formado, mais tem pra dar! ❤

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